Por detrás do Obrigada (ou sair à rua quando a chuva passa)

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Faz amanhã um ano que eu desfrutava de um dos dias mais felizes da minha vida. Juntavam-se os meus dois mundos, o de lá e o de cá, comemorando três décadas de vida num dia de verão mais-que-perfeito.

Aos carros que vieram das minhas raízes lisboetas juntaram-se aviões oriundos de Dortmund, de Berlim, de Londres e de Bruxelas, com gentes francesas, alemãs, portuguesas, uruguaias, americanas, inglesas, irlandesas, italianas.

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(e não foi só isto!)

Para os caranguejos (e mais ainda para os caranguejos-pessimistas) é difícil aceitar a felicidade plena, mesmo que por um dia, como se tivesse mesmo de haver uma armadilha à espreita. Essa nervosa aceitação tem por isso mais sabor quando, olhando em volta, não se encontra armadilha nenhuma. Pelo contrário: aprecia-se a nuvem sob a qual meses se viveu, esquecendo as cores da infância, das paixões, do estrangeirismo. E enfim se sorri genuinamente.

Há um ano, depois de muitas cervejas, agradecia por me terem quase obrigado a festejar, ajudado na organização, proporcionado o espaço, feito surpresas e, claro, comparecido de longe e de perto. Mas acima de tudo agradecia por me proporcionarem esta década de vida globalizada, sempre com uma Casa cá e lá.

Agora, um ano depois, agradeço especificamente por cada amigo-de-coração que me ajudou a respirar quando Londres me sufocou; me confortou durante anos de ansiedade, em cidades e em praias; me aceitou, em casa, as angústias de um longe que não conheciam; me fez companhia quando não consegui sair de casa; me aceitou as crises sem preconceito; me disse “eu também”; me fez rir depois de eu chorar; e tanto mais fez até ali chegar, há um ano, emocionando-me com as suas mensagens em papelinhos pequenos de coração grande.

E partilho isto porquê? Porque consolidei, neste ano de trintona livre, a necessidade que me foi crescendo de mansinho – uma necessidade física de gritar ao mundo que eu, tu, eles, nós todos somos um corpo e uma mente, numa junção que sente muito mais do que mostra, num esforço de filtragem que não sei que mundo ditou. Afinal, por mais que ser-se reservado nos proteja, não é ao gritar que nos aliviamos, e não é de alívio que precisamos?

Digo sempre e repito: a dor custa menos quando é partilhada. Foi aliás a partilha de muitos (e tantos anónimos) que me levou a nuvem. Por isso começo hoje esta partilha convosco, numa espécie de missão de saúde pública.

(e por ti, minha Jú sardenta: fico mais-que-feliz por te ver também rodeada dos teus amigos de cá e de lá, juntos por perto e por ti)

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4 Comments

  1. Jú sardenta

    Now you made me cry…again!

  2. Chico B.

    Aos novos inícios dos caranguejos de sempre! Um beijo enorme!

  3. Biscas

    A essa grande contadora de sonhos que és tu. ❤️

  4. Débora Miranda

    Parabéns, Biscateira, por me deixares ver comentários atrasados tão agradáveis! Desculpa a demora 🙂

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