(read in English)

…e falemos sobre saúde mental. Basta de partilhar cores e sorrisos, de ler sobre conquistas e viagens de sonho. Há momentos cinzentos que precisam de ser gritados – que a vida é mesmo assim e a dor partilhada custa menos

É só com a postura de hoje que consigo meter mãos à obra, ou dedos às teclas. Por isso conto um episódio já recente que muito me marcou, quando fui a uma conferência em Gainesville, uma pequena cidade universitária no Norte da Florida, Estados Unidos, no Inverno que passou.

Foram quatro dias apertados, dois deles de viagem; talvez daí tenha sido tudo tão intenso. O meu estado era já de maior clareza sobre mim mesma, sensível a histórias que inspiram, a pessoas, músicas e espaços.

debora miranda na conferência frank, onde se partilham exemplos de como a comunicação pode melhorar o mundoEsta é uma conferência pouco convencional: chama-se frank e junta profissionais que acreditam que a comunicação, quando bem feita, pode melhorar o mundo. Sendo ela muito humana e sobretudo num estilo muito norte-americano, deixei-me levar pelas experiências genuínas de dezenas de pessoas – e ferveu-me a necessidade de também lançar ao ar os meus pensamentos. Talvez assim se fizesse empatia.

A fervura foi tal que, num dos três voos de regresso (Gainesville – Miami – Londres – Lisboa), depois de meses a lutar para que as palavras me saíssem, escrevi:

Ontem participei num workshop da organização Self Narrate, que nos incentivava a partilhar a nossa história, fosse ela qual fosse – desde um momento do quotidiano a um marco na vida. A ideia era a de aprender a valorizar histórias individuais no nosso trabalho – para medir impacto, para suscitar empatia, para ganhar cliques, para escrever textos que se tornem marcantes junto ao nosso público e leve as pessoas a mudar algo, nas suas vidas ou no mundo.

Mas fomos apanhados de surpresa ao perceber que iríamos ser desafiados a fazê-lo, nós próprios, em vez de sermos (especialmente os jornalistas) mais uma vez  meros contadores das histórias dos outros. Contaram-se várias, mas ficaram-me duas: uma sobre discriminação, outra a expressão de sentimentos com familiares.

t-shirt oficial da ong self narrate, que incentiva a partilha de histórias pessoais

O lema da ONG Self Narrate: “Your story matters” (a tua história importa)

O tempo passou, as minhas mãos começaram a tremer e o peito a inquietar-se. Mas uma inquietação saudável, como se pedisse para se soltar.

“Esperem, quem quiser pode ficar para mais uma história,” anunciou o organizador depois de um sussurro que me saiu não sei bem como. Quase todos dos que já se tinham levantado deram dois passos atrás e voltaram a sentar-se. Uma mistura de pânico e alívio apoderou-se de mim.

(Inspira, isto vai ser bom para ti)

Eu já contei partes desta história várias vezes, mas acho que nunca contei a história completa, ainda que simplificada, a um público que não o meu. Ouvir os vossos testemunhos deu-me motivação para isto, e acho que me vai fazer bem.

Sou portuguesa, mas vivo fora do meu país há nove anos. Sempre gostei de escrever. Quando saí pela primeira vez, para a Alemanha, passei a usar o meu blog para manter os meus amigos e família actualizados sobre a minha experiência no estrangeiro. Escrevi textos sobre o quotidiano e as diferenças culturais, mas principalmente sobre o lado difícil de estar longe, sozinha, e de não saber bem onde pertenço.

Uns anos depois a minha irmã contactou várias editoras – sem eu saber –  até que recebi um contrato para publicar um livro que compilasse os relatos do blog. Claro que fiquei feliz: acredito que todos os que escrevem tenham esse sonho. Mas eu sentia que não tinha uma história estruturada.

(A voz estremece. Respira)

Demorei um ano a editar aquilo que já tinha escrito. Foi penoso reler, todos os dias depois do trabalho, aquilo que escrevi ao longo de tantos anos, e não alterar o que fui, disse ou senti. Foi como se revivesse tudo aquilo, incluindo o desconforto de não me sentir em casa: fosse na Londres onde vivia ou nos outros lugares sobre os quais escrevi. De ter toda a gente – como vocês, que me conheceram ontem – à minha volta a dizer que a minha vida é fantástica, que me farto de viajar, que falo tantas línguas, que tenho um excelente currículo. E de ainda sentir a culpa em cima disso por saber que não devia ter o direito de lançar qualquer queixa sobre a vida que tenho tido.

Foi nesse período que procurei uma psicóloga e enfrentei esse processo catártico.

Entretanto, o livro foi publicado e eu entrei em pânico com a ideia de, repentinamente, dezenas de pessoas estarem à minha frente a folhear a minha vida (mesmo que antes disso já tanto estivesse na Internet).

(Peço desculpa, tiro os óculos, acalmam-me os olhares americanamente empáticos à minha frente)

Senti-me muito vulnerável e exposta, o que me deixou insegura. Além disso, por ser um livro levou muito tempo até que eu começasse a receber as primeiras críticas, o que me deixou mais ansiosa.

Deixei de conseguir escrever durante dois anos.

Foi neste período que fui diagnosticada com depressão, embora hoje tenha orgulho de estar muito melhor, senão talvez não tivesse forças para estar aqui e articular esta história.

Aos poucos, as reacções ao conteúdo do livro começaram a chegar. E foi um alívio enorme perceber que não sou a única, que tanta gente passa pelo mesmo, noutros países, noutras circunstâncias, por tantas razões tão diferentes, e tantas também longe de “casa”.

(Sai o primeiro sorriso, trémulo)

E percebi que deitar cá para fora, como agora, me faz sentir tão mais leve, transparente comigo mesma. Hoje tenho uma grande vontade de juntar todos estes aspectos da minha vida. Sou uma comunicadora de saúde e quero contar histórias para que se compreendam melhor problemas como este.

Obrigada por me terem ouvido, “I feel so much better now.”


(O aplauso acalma-me. Um a um agradecem-me por ter partilhado este momento com eles. Salvou-me estar nos Estados Unidos e com uma plateia que não me conhece mas que é transparente por natureza, exacerbando até as suas opiniões, para que me sinta mesmo assegurada.

Dizem-me que “sempre que vou ao lugar onde cresci, também sinto que não pertenço lá”, que “foste muito corajosa, Deborah”, e até que “recentemente perdemos um colega nosso, que tirou a vida a si mesmo. Por isso obrigado por partilhares a tua história: é muito importante e necessário falar-se mais abertamente sobre saúde mental.”

À saída, uma colega aproxima-se e pergunta se pode dar-me um abraço.

O corpo aquece de conforto, enxugo as lágrimas de cabeça erguida.)

O novo trabalho começa algures aqui.


Se também quiserem deitar cá para fora, partilhem comigo as vossas histórias (em português ou inglês) em info@debdiletante.com ou aqui: