(read in English)

A depressão tem sintomas, ora óbvios ora subtis. Mas não deve ser à toa que a palavra sintoma tem por lá escondido o verbo sentir

Escrevo desde que me conheço. Para toda a gente ou só para mim, para grupos ou uma pessoa de cada vez. Há quem precise de correr, de cozinhar, de não estar em casa, de ver amigos todos os dias; eu sempre precisei de escrever, mesmo que nem eu própria me lesse.

Durante dois anos, perdi a vontade de fazer uma das coisas que mais me dava prazer. Perdi a conta às vezes em que aconcheguei a almofada atrás de mim e pus o portátil ao colo, para poucos minutos depois fechar tudo e descer a almofada porque não saíra mais do que uma linha. Tentei com cadernos antigos e novos, canetas boas, tentei à noite e de manhã, tentei com velas e com música, em casa e em cafés, de viagem ou onde calhasse. Tentei fugir num inverno em retiro para uma aldeia no sul de uma ilha, quatro dias em que o plano era só escrever.

E não saía nada.

Nada.

Ao fechar cadernos e baixar ecrãs punha-me em posição fetal e fechava os olhos com força, as lágrimas a fugir pelas ranhuras. Por mais que eu quisesse apagar as emoções elas brotavam confusas por cada poro que encontravam.

Hoje sei que andei dois anos de páginas vazias porque andava a tentar despejar, através da escrita, uma alma que a minha depressão tinha esvaziado.

 

the paper stayed empty

Quis escrever exactamente o que sentia, mas a folha ficou vazia – e não podia tê-lo descrito de forma melhor

Como um cano entupido ou o trânsito parado. Ali ficamos, bloqueados contra a nossa vontade, o ar a esgotar-se, a visão diminuída para trás e para a frente. No meio desse bloqueio cruzam-se pensamentos de todos os lados, borbulham sentimentos desalinhados e confusos, os dos outros e os meus.

Ainda assim – e para minha miséria – havia clareza nalgumas coisas. Principalmente a clareza dessa mesma miséria. Da minha tristeza, do meu vazio, da minha apatia. Da angústia de não saber articular o que ia cá dentro, de ninguém me entender, de ser ingrata e inútil. E de ter tudo embrulhado num grande papel reluzente de marca Culpa, essa besta que me infernizou.

Às vezes o único alívio era o de desligar o botão; de adormecer e querer acordar a pensar no trabalho ou noutra banalidade qualquer. Conseguia adormecer, mas acordava alertíssima às cinco da manhã e passava os dias cansada.

when you have depression, your day starts backwards: you wake up tired and go to bed wide awake

Quando temos depressão, o dia começa ao contrário: acordamos cansados e vamos para a cama muito despertos.

Muitos foram os minutos de apatia ao olhar para o armário sem conseguir decidir o que vestir. Muitas foram as horas de pesquisa de coisas para fazer que me distraíssem, para me perder no desgaste e então desistir. Muitíssimas foram as lágrimas aparentemente sem razão. Muitos foram os dias de trabalho em que quis insultar colegas simplesmente por vê-los calmos ou por ouvir barulhos inaudíveis. E tantos foram os cenários negativos que multipliquei na minha cabeça, catastrofizando o dia-a-dia como se o pior estivesse para acontecer.

Demasiadas foram as refeições substituídas por açúcar, que chocolates e bolos me acalmavam antes de – como qualquer substância viciante – me poderem avisar que só iriam fazer sentir-me pior. Poucas mas intensas foram as nuvens psicossomáticas que me levaram ao médico – incluindo nas urgências – com palpitações e dormências que eu achava que me brotavam do corpo, não da mente. E tantos foram os fins-de-semana em que era mais fácil ficar em casa; porque sair implicava pôr a máscara e fingir ou, ao falhar tal tarefa hercúlea, explicar aquilo que nem eu sabia o que era.

The reason why I keep my feelings to myself is because I can't explain them

Guardo os sentimentos para mim porque não consigo explicá-los

Cansaço, apatia, tristeza, vazio. Culpa.

Felizmente, à falta da escrita, foram muitas as horas de leitura por livros e ecrãs adentro que aos poucos me iluminaram o mundo do “eu também”; me fizeram pertencer a uma comunidade global, mesmo que virtual. Muita foi a ciência que me explicou que tudo isto era natural. Muitos foram os nomes que me ajudaram enquanto eu me mantinha anónima, levando-me hoje a querer ajudar também.

Por isso digo a quem me lê desse lado, ainda que anónimo, trancado na sua alma como eu estava: vai tudo correr bem.