Vítima ou não de suicídio, esta era mais uma das caras que escondia pesadelos por detrás de sorrisos – e que ninguém esperava que desaparecesse assim, aos 30 anos. Temos de acabar com isto

Há duas semanas, uma amiga que acompanhou a minha depressão chamou-me a atenção para o Facebook de um colega que tivemos em Londres. Fiquei surpreendida, mas sobretudo animada quando vi mais esta voz a erguer-se no meio da escuridão das redes sociais: o Ian admitia que os homens, como ele, deviam falar mais sobre a sua saúde mental e agradeceu publicamente a ajuda dos seus amigos mais próximos, por permitirem que ele ainda estivesse “cá”.

Hoje fico a saber que o Ian já não está “cá”.

No meio desta minha jornada no empreendedorismo social – tentando delinear um projecto que espelhe os meus valores, as minhas competências e aquilo que eu gostava mesmo de mudar no mundo – andava com planos de conversar com o Ian e de sugerir escrever a história dele. Não que ele precisasse da minha escrita (principalmente em português), porque ele próprio é – era – um excelente profissional de comunicação. Mas sabendo eu o quão difícil é descrever o negro que nos vai cá dentro, e sabendo que ele agora estava disposto a falar sobre a sua experiência, achei que podíamos lutar juntos por esta causa.

Acabo de ter a prova de que a abertura para falar sobre estes assuntos não quer dizer que eles estejam resolvidos – deve aliás servir-nos de alerta para oferecermos ajuda concreta.

Movember Foundation

O Ian tinha decidido juntar-se à causa Movember neste mês de novembro, uma fundação que ajuda os homens a viverem vidas mais felizes, mais saudáveis e mais longas, impedindo-os de morrer jovens demais.

 

Eu e o Ian não trabalhámos directamente juntos muitas vezes, mas sempre que nos encontrávamos – normalmente num pub – eu brincava por ele ser talvez a única pessoa que eu conhecia que tinha mudado de casa mais vezes do que eu. A forma como ele lidava – ou parecia lidar – com esse pesadelo londrino era vincadamente britânica, um sarcasmo e um sotaque que sempre me faziam rir.

Uma pessoa que sofre de problemas de saúde mental tem toda a legitimidade para rir genuinamente – e ainda bem que esses momentos existem. Mas precisamos urgentemente de criar espaços onde também nos sintamos legítimos para dizer que estamos… na merda.

Antes de morrer durante o seu sono, o Ian escreveu “fuck you, 2016”. Já não é a primeira vez que leio esta frase e isso deixa-me nervosa.

Mesmo ainda não se sabendo a causa exacta da sua morte, tudo indica que o desespero seja uma grande fatia. E esse combate-se com a proximidade que a nossa geração parece ter desaprendido.

Quem se quiser juntar a esta luta, por favor diga-me. E depressa – que claramente nem sempre há um amanhã.

(read in English)