Depois de 60 entrevistas, umas boas vergonhas e dois cadernos com rabiscos em três línguas, a grande certeza que me brota da confusão é que quero ajudar aqueles a quem a saúde não sorri

Débora Miranda apresenta num workshop

Andava à espera de ter as ideias organizadas para descrever o que andei a fazer, nos últimos três meses, nesta já-não-tão-minha Alemanha (um dia destes falo disso).

Mas já me rendi: o que vim para cá fazer foi precisamente desafiar essa minha teimosia de esperar pela hora certa. Vim pensar e re-pensar, fazer e re-fazer.

“É um programa de empreendedorismo social”. A reacção tem sido oposta à da excitação a que me habituei quando dizia que era jornalista e apresentava noticiários. Mas eu própria assim reagi quando o anúncio me escorregou pelos dedos no Facebook: uma amiga na Alemanha desafiava-nos a viver seis meses na minha cidade de Erasmus, bastando para isso querer resolver um problema da sociedade.

anúncio do social impact lab no facebook

Pus-me a pensar em Março, a candidatar em Abril e a fazer as malas em Agosto

 

Só me faltava a solução, porque problema já ele existia – e incomodava-me há uns anos.

No que toca à saúde, as pessoas não comunicam como deviam. Quem percebe do nosso corpo não sabe explicá-lo a quem não percebe; a sensibilidade de quem está doente não olha a rigor científico, estruturas ou sistemas; os jornalistas continuam sem tempo para aprofundar temas.

E todos se queixam uns dos outros.

Já trabalhei com professores catedráticos, médicos despachados, assessores de imprensa, programadores e outros geeks, gestores de projectos digitais, gente que gere orçamentos e investigadores no terreno, do Malawi às Filipinas. Também eles se queixavam uns dos outros.

Eu, tornada numa técnica de comunicação, andei lá no meio a tentar que eles se entendessem. Aos poucos fomos percebendo as circunstâncias de cada um, empatizando e comunicando melhor internamente antes de falarmos para fora do escritório, fora de Londres, fora da Europa.

Caixa do Social Impact Lab e cadernos de apontamentosPortanto: na minha candidatura ao Social Impact Lab de Leipzig (uma das seis cidades alemãs onde a incubadora de empreendedorismo social está representada) eu falei de um problema social cuja solução passava pela comunicação.

Sem dar por isso estava a entrar no mundo do empreendedorismo que, até então, eu associava à engenharia e ao turismo. Mãos arregaçadas sobre ideias de produtos inovadores e modelos de negócio para torná-los sustentáveis. Com a diferença que o objectivo final dos nossos projectos sociais é mudar a sociedade e não simplesmente uma indústria.

De repente, entram no meu vocabulário os palavrões “ecossistema”, “incubadoras”, “aceleradoras” – e a informalidade torna ainda mais hercúlea a tentativa de convencer colegas de que não tenho 19 anos.

Débora Miranda apresenta numa sala de workshop

Eu no Idea Reframing Workshop a tentar explicar não sei bem o quê

Na véspera do primeiro dia de “aulas” estou ao telefone com uma amiga de Londres a treinar o meu pseudo-pitch num alemão mais enferrujado que uma linha férrea abandonada. Para chegar ao primeiro dia e, ainda assim, engasgar-me.

Num dos primeiros workshops, quando cada equipa fez um exercício sobre os projectos das outras equipas, eis que oiço um colega alemão dizer que não quer ficar com o meu projecto porque “aquilo não é um produto; dê-me outro para analisar.” (Piedade da minha pessoa, vinda de cinco anos britânicos onde nada se diz com frontalidade.)

Nesse registo, durante os primeiros dois meses não fui capaz de formular a ideia da minha solução. Porque ela, além de desafiar todo o sistema de saúde, também mudava todos os dias (e frequentemente durante a noite).

Os projectos dos meus colegas lembravam-me os corta-matos da escola: eu ficava sempre para trás. Assim, fui-me inspirando no kit para a limpeza da casa que utiliza apenas ingredientes domésticos naturais; uma sex-shop que foge aos estereótipos sexistas; uma caixa de alimentos vegan e roupas com impressões em braille.

Todos trabalhámos as ideias com a ajuda de workshops de impacto social, design thinking, controlo financeiro, contabilidade, crowdfunding, prototipagem e teste, marketing de redes sociais, identidade de marcas.

mesa de co-working no social impact lab

A mesa que me calhou neste dia, na área de co-working do Social Impact Lab Leipzig

Três meses, 60 entrevistas, uma Web Summit e muitos post-its depois, a minha solução ganhou forma. Comecei a testá-la – primeiro por acaso e depois com mais método – e agora todos me vão acenando “boa!”.

Mas não teria chegado à solução sem ter desconstruído o problema.

Falta-nos informação de qualidade, falta-nos empatia e humanização, falta-nos compreender quem está doente e isolado.

Este problema tornou-se na minha causa. E se os empreendedores são apaixonados pela área em que actuam, idealizam projectos e fazem algo difícil ou trabalhoso, então falem-me da minha causa e eu sou empreendedora também.

 

(Quem se quiser juntar à causa: faça favor.)