Fecha-se o ciclo

Leipzig 2007-2017

Dizem que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Eu, que nem sou de riscos, resolvi vir parar a Leipzig dez anos depois do ano em que senti uma concentração tal de felicidade que parecia nem caber em mim.

Não estava cá ninguém, nem está, excepto a enfermeira com quem vivi – agora (também) com um bebé – e uma amiga carioca que conheci em Genebra. De resto fui atrás de contactos novos, qual hábito desses dez anos, e absorvi as coisas e as pessoas que o Social Impact Lab me deu a conhecer.

Nao foi de todo a mesma experiência. E eu sabia-o. Mas vim na mesma, com aquela sede de rir às gargalhadas. E sabia que não ia rir às gargalhadas. Mas vim sentir os cheiros, pedalar para rever os lugares, comparar a primeira casa com a vigésima-quinta, relembrar os momentos de histeria extrema. Tão extrema que fazia as pessoas do lado revirar os olhos. E tão extrema foi a curiosidade que revivi todas as memórias para concluir que tenho e quero aceitar que tudo isso já passou.

Acima de tudo, e no meio da agenda repleta de pensamentos sobre como mudar o mundo, reflecti. Nao só sobre de que forma posso mudar o mundo, mas também sobre o que conquistei com o que o mundo me deu nestes dez anos. E no quanto mudei. No quão crítica me tornei sobre mim mesma e passei a deixar de querer sê-lo. No quão livre me senti e no quão presa me tornei depois disso – nas limitações de uma vida em fuga à crise, uma vida colada à liberdade de saltitar entre pontos europeus à procura daquilo que me fizesse mais sentido. Sentido, carreira, palavra pesada e tão seca. Um passo de cada vez para ir mudando o tal mundo.

Leipzig fez-me parar. As ruas desertas ao fim do dia, o escuro breu já nas meias tardes de meio inverno, o silêncio dos eléctricos que só deixa a voz alemã anunciar a próxima estação. O silêncio respeitador da biblioteca que tanto adoro e onde passei mais de metade dos meus sábados. Só porque queria saborear a tranquilidade que Londres nunca me deu, excepto num dos meus não sei quantos quartos, quando a depressão me atacou.

Mas já não estou deprimida. Se a maldita volta ou não, isso é outra história. Estou é acho que pronta a agarrar o touro de frente, disfarçada numa calma nervosa. Em Leipzig: uma cidade tão remota e tão desconhecida que nem parece ter sido palco de pré-revolução pós-muro, cartão de visita de uma Alemanha soviética, onde ainda se fala de marco e de República Democrática Alemã, se ouve russo e se cheira a tal Rússia que eu nunca quero visitar. Uma cidade que tem tanto de verde e livre quanto de cinzento e casmurro. Tantos jovens liberais e vegans quanto neonazis que me gritam “Deutsch!” ao ouvir-me falar português na rua. Lembrando-me que, dez anos mais tarde, a Europa que me acolheu mudou tanto como eu.

Leipzig também mudou, mas continua a mesma que inspirou a maioria das escritas do meu Embora. Que embora nos pese um lugar, há que seguir em frente. E eu regresso agora, em frente, para parar de vez na minha terra.

Ainda que agora mais cinzenta, ou talvez precisamente por isso, iluminaste-me.

Pela segunda vez.

Debora miranda Leipzig

Danke.

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5 Comments

  1. Carolina Vieira

    Ainda há dias escrevia algo sobre completar um ano de Madrid… e sim nada é como na primeira vez em que vivemos numa cidade… há 10 anos atras como bem dizias. As cidades mudam, as pessoas ja não as mesmas ou não estão iguais mas acima de tudo nós… nós mudamos e aquilo que queremos hoje é mais do que era… é menos material e a ver com essa dita carreira porque somos mais Mulheres com consciência de um lado que antes não tínhamos… ou geriamos de forma tão diferente! Força Debbie porque és uma Grande Mulher! Vale a pena acreditar…

  2. Débora Miranda

    é sempre muito bom ler quem nos entende! Beijinho grande

  3. Anónimo

    Adoro ir lendo o que escreves miuda! Eu, como bom nostalgico que sou, entendo-te perfeitamente. Pelo menos, em algumas coisas =) Nessa busca e tentativa de voltar a sentir e disfrutar tanto ou mais como no passado!! Porém, invariavelmente as coisas são sempre diferentes…não quer dizer que seja pior, mas sim tão somente distinto.

    Espero que sejas muito feliz, e que o regresso a casa seja tal como desejas. E qdo te apetecer vir passear a Madrid, avisa sff!

    Aquela enorme beijoca!!
    Litos

  4. Andreia Rocha

    Miúda, tu és uma lição de vida ! Sempre te conheci ´fora´, e por isso estou super feliz, que passados 10 anos tenha a oportunidade de te ter muito mais perto. O asfalto espera-nos 🙂 Beijinhos

  5. Anónimo

    Esta juventude válida vai mesmo mudar o Mundo mesmo que para mim já não o seja.
    Para os tais…. abençoada juventude.
    esteja onde estiver …., lutarei por vós.
    Abracao.

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