Não me lembrava de ter vivido tanta coisa em apenas cinco meses desde os tempos de Erasmus. E não me lembro da última vez que passei tanto tempo sem apanhar um avião.

Naquela tenra altura falava em apanhar o comboio para “ir ter comigo mesma”. Pois que aterrei de avião na minha terra precisamente para me encontrar de novo com este self amadurecidamente saltitante. Apesar do peso dos verbos voltar, estar, ficar, só agora olho para trás e reparo que mais tem sido um reboliço de areia a tentar assentar, molhar-se, enraizar-se.

E que bem que me tem sabido. Ver a minha Lisboa de prédios re-erguidos, de ruas e esplanadas cheias. Até o queixume que se me voltou do “antes é que era bom”, quando as casas tinham preços decentes. Só que não era bom coisa nenhuma -não me vou esquecer do aperto no coração que me davam as visitas de lá para cá às pinguinhas, trazendo histórias e ordenado e sorrisos fresquinhos, mas tudo o que ouvia era a crise e tudo o que via era a crise – nas ruas, nas arcadas, na calçada portuguesa molhada de tristeza. Tudo o que via era o meu silêncio envergonhado de quem saltara do barco que se afundava, achando que não tinha legitimidade para me queixar do que me custava do lado de lá. (Com os anos aprendi que toda a dor é legítima, mas isso é outra conversa.)

Ser português é assim. Ter a reação pronta a sair da boca, dos braços, das peles eriçadas; não me interessa se avançámos ou recuámos, há sempre espaço para o queixume. E sorrio com ironia, afinal correm-me queixas pelas veias desde que me conheço.

Dizia eu, que bem que me tem sabido ver a minha Lisboa renascida. Tenho ciúmes, sim, das carteiras loiras abastadas e dos passos desacelerados a olhar de lado para a minha agenda cheia de burocracias de dar em louco. Mas isso não pode ser nada se comparado com o luxo de poder dormir uma sesta em casa quando o dia de praia se desfila lá fora, de não precisar de ver a previsão do tempo antes de me vestir de manhã, de ver gente a entrar no autocarro a dizer bom dia aos passageiros do quotidiano, de fazer yoga e meditação em jardins que antes eram droga e escuridão, de trazer o hábito nórdico de olhar para os dois lados antes de atravessar uma ciclovia, porque agora há ciclovias.

Em cinco meses comecei a trabalhar na área que me apaixonou em pequena e que se tornou realidade já em meio-adulta. Revi amigos com calma e voltei a dizer “a gente depois combina” ao fim de muitos anos. Fiz amigos estrangeiros, daqueles que procuram um chão para além de um tecto, e tento agora ser para eles o que os outros foram para mim. E recebi os amigos da minha vida estrangeira, porque agora já cá estou para os receber. Até lhes mostrei a nossa costa vicentina com vaidade descabida, sorrindo de orgulho e arfando de desespero por caminhar nas suas dunas para lá de cem quilómetros.

Em cinco meses também procurei desenfreadamente por aquela que viria a ser a minha primeira casinha na minha Casa-terra. Hoje escrevo de um bairro que bem me diziam parecer uma aldeia, e não oiço senão cães de rua a brincar com crianças. De (muitas) vez(es) em quando oiço o avião que traz de longe os outros como eu era, traz os turistas que antes iam para Espanha, traz o dinheiro que não parecia poder vir de outro lado. E traz quem volta, como eu, quando o timing da vida diz que cá é melhor. Contra todas as expectativas.

Hoje gasto horas de verão a descobrir caminhos de transportes e a explorar mercearias de rua como só fiz em calçadas nórdicas, com placas noutras línguas e ingredientes pouco frescos. Assinei mais contratos de fidelização num mês do que naqueles anos todos juntos.

Tudo porque a mente deu ordens para o corpo aqui aterrar.

For good?,” perguntavam há pouco. Ninguém pode dizer se é for good, que não somos bruxos para adivinhar o que lá vem. Mas que seja good, em todo o caso. E pelo menos cheirar, já cheira good, sim.

Cheira a Lisboa e arredores.