(Dez)assettando

Começaste no Senegal, com ela dançante. Viste como os passos africanos, aos pés dela, já queriam soltá-la?

O pico do teu inverno ainda foi passado na Alemanha de outros tempos, para que ela pudesse despedir-se, prontíssima a deixar o Norte de vez. E assim regressou: com a cabeça cheia para comunicar saúde e os dedos prontos à procura do quarto tornado casa. Dezenas de visitas num único mês, dezenas de contas feitas, dezenas de papéis lidos e assinados a tremer. Chave enfim na mão e um sorriso rasgado de tranquilidade: de volta à terra, quietinha.

Foi treinando os novos percursos entre a casamarela e os corredores da saúde portuguesa, reparando com satisfação que pode sim ter as rotinas do Norte na sua Lisboa. Pelo meio, caminhou a costa do seu querido Alentejo e sente, até hoje, o ar revigorante daqueles dias.

Os pés dançantes, entretanto, foram deslizando a outrora vontade de dormir cedo. Os novos grupos, os estrangeiros em casa, os afrobailes a transpirar a ribeira lisboeta, os amigos que lhe elogiaram o novo semblante, os verões quentes e longos que ela já desconhecia.

Nesse verão foram muitos os passos novos, alguns os tropeções e as escorregadelas – para cair sem estatelar, para levantar com a ajuda da mão do passado e recusar o que não se merece.

E, com o bem que se fez, eis que a dança mais ingénua a galardoou, batucando-lhe a cabeça para que percebesse de vez que é do simples que brotam as coisas boas. É ao natural que devemos ser-nos. E é dessa vida leve-leve que devemos beber.

Antes de terminares, ela voltou a pisar a terra moçambicana com que tanto sonhava. O lugar das histórias de infância que filtraram o mau e contaram apenas o macaco Chico, as piadas, os 50ºC de Tete. Ao pisar essa mesma terra quase 50 anos mais tarde, sorriu de orgulho como há muito não a víamos sorrir.

E continua a sorrir, agora que terminas. De África metida na pele, no frio irlandês, recordando o início de toda esta – aquela – jornada de malas feitas.

Olhando para trás de ti, vemos um círculo ironicamente perfeitinho. O mesmo que ela sabia (e lhe diziam) que viria a fechar-se e que ela teimava em perguntar quando: sempre carangueja, de cabeça posta mais atrás e mais à frente de onde deveria estar.

No fecho desse círculo, quando os pés já são menos chumbo e dão os passos ao ritmo certo (nem muito atrás nem muito à frente), as tais coisas boas acontecem.

E assim, enquanto os passos deslizam, ela sussurra-te ao ouvido:

Obrigada, 2017. Que bem que me dançaste.

Previous

11 anos depois, sentir falta não significa que faça falta

3 Comments

  1. Mammadji

    Que lindo!

  2. Mais uma saborosa leitura que nos leva para cada momento em cada lugar. Parabéns “miúda” de sorriso franco e energia contagiante

  3. Lindo lindo, Débora! Continue a dançar, agora com os pés mais leves!

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén