Category: Malas feitas (Page 1 of 6)

11 anos depois, sentir falta não significa que faça falta

Eu bem achava que, depois de voltar de vez (whatever that means), ia deixar-me de contar aniversários. Mas lá agora: é mais forte do que eu.

(Assim prepara a lenga-lenga, mas olha que a perspetiva é bem diferente.)

Faz hoje 11 anos que fui embora da minha Lisboa. E a diferença é que é dessa Lisboa que escrevo hoje.

Passei o biombo, fugi para o Norte europeu. Uma década depois estou a viver na minha alface-natal, na minha casinha, com o meu trabalho, os amigos de sempre, os amigos do meu novo Aqui e o contacto com os amigos de lá.

Há dias “sobre-ouvi” uma conversa entre uma rapariga portuguesa e uma holandesa. A portuguesa queixava-se que não sentia fazer parte de cá: “Os meus amigos só falam do seu dia-a-dia, falam uns dos outros, mas não falam do mundo nem de diferenças culturais. Eu não me identifico com isso e por isso sinto que não faço parte disto.”

A holandesa aconselhou-a a procurar pessoas que estivessem na mesma situação – e eu, automaticamente, levantei o braço e sorri.

Mas depois percebi que não sorri por estar na mesma situação. Sorri sim de empatia e nostalgia, por perceber que grande parte dessa angústia já lá vai. Chama-se adaptação, talvez; mas é irónico que eu tenha começado a dar a volta a essa angústia muito mais depressa e naturalmente do que algum dia previ.

Também eu entrei nas tais conversas, também eu desacelerei. Não perdi o mundo dentro de mim – e que grata estou por ter cá novos amigos que não são de cá – nem perdi o mundo que me brota da agenda (antes brotasse da carteira), pois sei que tenho de sair daqui. Mas hoje sei que quero ir saindo… e regressando. Por enquanto é este e o meu mundinho. Aquele que tanto tempo esteve longe da sua dona. Admitir que retrocedi liberta-me uma humildade que me faz sorrir de liberdade.

Sim, magoa-me a notícia de uma bomba no metro de Londres em hora de ponta tanto como se ainda lá estivesse. Sim, sinto falta da Londres que não me chateava a cabeça sobre quando vou casar ou ter filhos. Sim, sinto falta dos cachecóis e dos longos meses de folhas amarelas no chão. Sinto falta que as pessoas cheguem a horas e que as reuniões sejam produtivas, com hora marcada para começar e acabar. Sinto falta de andar com amigos nos transportes públicos, que em Lisboa só ando com desconhecidos.

E sinto uma falta danada de seguir para trás do biombo e apanhar aviões.

Mas sentir falta não significa que me faça falta. Falta fazia-me há 11 anos – a falta de viver tudo o que não conhecia e a falta de me conhecer. Hoje em dia arrepia-me a ideia de haver tantas pessoas que não tenham vivido noutros países, partilhado casa com estranhos, começado coisas grandes do zero.

Tal como deverá arrepiar outras pessoas espalhadas pelo mundo – e com razão – o facto de eu e tanta gente nunca termos feito isto ou aquilo. E por isso reservo-me a aceitar que cada um tem as oportunidades que connosco se cruzam, com base no que a vida nos tiver dado até então, e aquilo que somos e pensamos no momento de abraçar essas oportunidades.

Onze anos depois de cruzar o biombo, sozinha para a auto-descoberta, estou de regresso e rodeada de coisas boas do Mundo inteiro.

Portugalidade sobre os carris do Douro

Oriente-Campanhã

O sotaque da estação final não engana. Atiro a mochila para as costas, compro um petisco com medo de usar palavras de moura (na dúvida, respondo sempre “o meu pai nasceu aqui, não se zangue comigo!”) e aproximo-me da plataforma onde desta vez se lê Tua, esse nome que sempre me intrigou. Livro, caderno, caneta, portátil, água e música: estava prontíssima para o meu passeio isolado por esse troço histórico, mesmo a pedir reflexões de carangueja.

– Aqui está mais fresquinho… A menina tem este lugar ocupado? Não gosto de estar atafulhado ali à frente…

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Esta coisa de estar triste e feliz (ou ode à amizade)

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As emoções atropelam-se para conseguirem lugar na carruagem. Depressa começam a rodopiar na montanha russa, bate o vento de frente, vento de medo apático.

É tão boa a sensação de repetir esta experiência: há que chamar de dádiva à possibilidade de me despedir outra vez com o coração a ferver. A despedida com sabor a certeza incerta, um lugar que sei que preciso de deixar mas que deixa em mim tanto de tão bom.

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É desta, Londres: vou-me embora

central parkSonho multiplicado esse, o de o trabalho me levar para aqueles lados. Trabalho também ele sonhado, lembrando-me que posso fazer algo por que o mundo agradece.

Nos dias de folga passeio com os laços do meu sangue, o Central Park pinta-se de vermelhos e amarelos-bronze num outono brindado a sol de verão. Despacha-te!, levanta o queixo, põe os ombros à vista e sorri com nostalgia que lá não tens disso.

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Sol na cabeça

Arrifana

Enquanto os pés secos do pó e da areia esfregam os lençóis à procura do canto inexplorado da cama, o sono é interrompido por um breve momento de olho piscado que se pergunta onde está. Ao ouvir o som das ondas a bater na costa, lembro-me que estou em porto seguro.

O acordar é leve, sem máquinas a fazer barulhos modernos indesejados; os pés enfiam-se nos mesmos chinelos que me dão dois passos até à porta da mini-casa de onde a costa vicentina me diz bom dia como quem me estende pão fresco. Enfio os óculos escuros nos olhos ainda entreabertos e sorrio à vida. Tenho trinta anos há dez dias; a liberdade de que me falavam parece, mesmo, existir.

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A tal Suíça saudável

O trabalho fez-me viajar outra vez. Não atravessei continentes, mas em menos de duas horas regressei ao lugar que me cumpriu um sonho há pouco (ou muito?) tempo. O bairrismo que me recordara Leipzig, os sons francófonos misturados com a bolha europeia de Bruxelas, os preços ainda mais exorbitantes que os de Londres.

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