Category: Saúde mental

Mais uma pessoa que morreu. Por desespero

Vítima ou não de suicídio, esta era mais uma das caras que escondia pesadelos por detrás de sorrisos – e que ninguém esperava que desaparecesse assim, aos 30 anos. Temos de acabar com isto

Há duas semanas, uma amiga que acompanhou a minha depressão chamou-me a atenção para o Facebook de um colega que tivemos em Londres. Fiquei surpreendida, mas sobretudo animada quando vi mais esta voz a erguer-se no meio da escuridão das redes sociais: o Ian admitia que os homens, como ele, deviam falar mais sobre a sua saúde mental e agradeceu publicamente a ajuda dos seus amigos mais próximos, por permitirem que ele ainda estivesse “cá”.

Hoje fico a saber que o Ian já não está “cá”.

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Mãos no ar: quem sabe prestar primeiros socorros psicológicos?

Neste Dia Mundial da Saúde Mental a Organização Mundial de Saúde pediu-nos para saber agir sobre sinais de alerta. A prestação de socorros psicológicos passa por iniciar uma conversa, saber ouvir e saber o que não se deve dizer – mesmo quando a intenção é a melhor.

  • Prepara um café ou um chá para o teu amigo ou colega antes de começar a conversa. Como te sentes? Há quanto tempo estás assim? Tens recorrido a alguém que te possa ajudar?
  • Mantém um tom positivo, pergunta como podes ajudar ou sugere formas de apoio (por exemplo, uma consulta com o médico de família)
  • Ouve com empatia. Não critiques nem julgues, mesmo que o que estiveres a ouvir seja muito diferente da tua realidade
Guia para ter 10 minutos de conversa com alguém sobre a sua saúde mental

Guia da organização Mental Health First Aid para ter 10 minutos de conversa com alguém sobre a sua saúde mental

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É preciso falar sobre depressão (então por que não começar pela minha)

(read in English)

A depressão tem sintomas, ora óbvios ora subtis. Mas não deve ser à toa que a palavra sintoma tem por lá escondido o verbo sentir

Escrevo desde que me conheço. Para toda a gente ou só para mim, para grupos ou uma pessoa de cada vez. Há quem precise de correr, de cozinhar, de não estar em casa, de ver amigos todos os dias; eu sempre precisei de escrever, mesmo que nem eu própria me lesse.

Durante dois anos, perdi a vontade de fazer uma das coisas que mais me dava prazer. Perdi a conta às vezes em que aconcheguei a almofada atrás de mim e pus o portátil ao colo, para poucos minutos depois fechar tudo e descer a almofada porque não saíra mais do que uma linha. Tentei com cadernos antigos e novos, canetas boas, tentei à noite e de manhã, tentei com velas e com música, em casa e em cafés, de viagem ou onde calhasse. Tentei fugir num inverno em retiro para uma aldeia no sul de uma ilha, quatro dias em que o plano era só escrever.

E não saía nada.

Nada.

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Paremos de fingir que está sempre tudo bem

(read in English)

…e falemos sobre saúde mental. Basta de partilhar cores e sorrisos, de ler sobre conquistas e viagens de sonho. Há momentos cinzentos que precisam de ser gritados – que a vida é mesmo assim e a dor partilhada custa menos

É só com a postura de hoje que consigo meter mãos à obra, ou dedos às teclas. Por isso conto um episódio já recente que muito me marcou, quando fui a uma conferência em Gainesville, uma pequena cidade universitária no Norte da Florida, Estados Unidos, no Inverno que passou.

Foram quatro dias apertados, dois deles de viagem; talvez daí tenha sido tudo tão intenso. O meu estado era já de maior clareza sobre mim mesma, sensível a histórias que inspiram, a pessoas, músicas e espaços.

debora miranda na conferência frank, onde se partilham exemplos de como a comunicação pode melhorar o mundoEsta é uma conferência pouco convencional: chama-se frank e junta profissionais que acreditam que a comunicação, quando bem feita, pode melhorar o mundo. Sendo ela muito humana e sobretudo num estilo muito norte-americano, deixei-me levar pelas experiências genuínas de dezenas de pessoas – e ferveu-me a necessidade de também lançar ao ar os meus pensamentos. Talvez assim se fizesse empatia.

A fervura foi tal que, num dos três voos de regresso (Gainesville – Miami – Londres – Lisboa), depois de meses a lutar para que as palavras me saíssem, escrevi:

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Por detrás do Obrigada (ou sair à rua quando a chuva passa)

(read in English)

Faz amanhã um ano que eu desfrutava de um dos dias mais felizes da minha vida. Juntavam-se os meus dois mundos, o de lá e o de cá, comemorando três décadas de vida num dia de verão mais-que-perfeito.

Aos carros que vieram das minhas raízes lisboetas juntaram-se aviões oriundos de Dortmund, de Berlim, de Londres e de Bruxelas, com gentes francesas, alemãs, portuguesas, uruguaias, americanas, inglesas, irlandesas, italianas.

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(e não foi só isto!)

Para os caranguejos (e mais ainda para os caranguejos-pessimistas) é difícil aceitar a felicidade plena, mesmo que por um dia, como se tivesse mesmo de haver uma armadilha à espreita. Essa nervosa aceitação tem por isso mais sabor quando, olhando em volta, não se encontra armadilha nenhuma. Pelo contrário: aprecia-se a nuvem sob a qual meses se viveu, esquecendo as cores da infância, das paixões, do estrangeirismo. E enfim se sorri genuinamente.

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Enfim, derramar

DSC09997Desta vez são boas as razões por que os ombros sobem involuntariamente, o peito sobe e desce com pressa, as pernas e as mãos se inquietam. Tirem-me daqui agora que eu tenho de deitar cá para fora, com aquela vontade de antes.

Hoje sentiu-se hora disso. Talvez porque o eléctrico me transportou para outros tempos germânicos: as bicicletas a deslizar sossegadas junto aos carris, os cafés de mesas vazias porque não moram aqui milhões, o ar estranhamente limpo, o tempo sossegado. Essa cidade suíça de pouca graça, visitada em trabalho, contrastou com a familiaridade e a segurança que ainda sinto em qualquer cidadezinha assim, europeia-central, monótona de tão funcional, com sua língua, limpeza e as mesmas regras que me fizeram fugir.

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