Category: Traços diletantes (Page 1 of 14)

Cinco meses de Portugalidade

Não me lembrava de ter vivido tanta coisa em apenas cinco meses desde os tempos de Erasmus. E não me lembro da última vez que passei tanto tempo sem apanhar um avião.

Naquela tenra altura falava em apanhar o comboio para “ir ter comigo mesma”. Pois que aterrei de avião na minha terra precisamente para me encontrar de novo com este self amadurecidamente saltitante. Apesar do peso dos verbos voltar, estar, ficar, só agora olho para trás e reparo que mais tem sido um reboliço de areia a tentar assentar, molhar-se, enraizar-se.

E que bem que me tem sabido. Ver a minha Lisboa de prédios re-erguidos, de ruas e esplanadas cheias. Até o queixume que se me voltou do “antes é que era bom”, quando as casas tinham preços decentes. Só que não era bom coisa nenhuma -não me vou esquecer do aperto no coração que me davam as visitas de lá para cá às pinguinhas, trazendo histórias e ordenado e sorrisos fresquinhos, mas tudo o que ouvia era a crise e tudo o que via era a crise – nas ruas, nas arcadas, na calçada portuguesa molhada de tristeza. Tudo o que via era o meu silêncio envergonhado de quem saltara do barco que se afundava, achando que não tinha legitimidade para me queixar do que me custava do lado de lá. (Com os anos aprendi que toda a dor é legítima, mas isso é outra conversa.)

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Fecha-se o ciclo

Leipzig 2007-2017

Dizem que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Eu, que nem sou de riscos, resolvi vir parar a Leipzig dez anos depois do ano em que senti uma concentração tal de felicidade que parecia nem caber em mim.

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Arriscar, errar e humanizar: lições da Web Summit

A última semana em Lisboa foi o culminar de dezenas de conversas que iniciei no Social Impact Lab na Alemanha, uma incubadora de inovação social com um programa para startups portuguesas

Tendo em conta a força da user experience no mundo da tecnologia, é de lamentar que a Web Summit 2016, em Lisboa, não se tenha lembrado do utilizador. Pelo menos no início: filas enormes e desorganizadas, falta de informação e milhares de pessoas acima da capacidade.

Mas depressa senti que o formato desta Web Summit não fez mais do que espelhar a era em que vivemos: correria constante, conversas superficiais e falta de concentração mesmo em painéis de vinte minutos. Culpa-se o Twitter, a caixa de email em reprodução constante e o horário a dizer-nos para onde ir já a seguir.

Consegui fazer o trabalho de casa muito antes de 7 de novembro, graças à App da conferência. E assim, entre 35 sessões assistidas em modo multitasking, conversei com duas agências de comunicação, dois pacientes, quatro líderes de startups sociais, nove startups portuguesas na área da saúde, quatro incubadoras e três engenheiros.

O meu kit de sobrevivência para a Web Summit, descrito pela Mariana de Araújo Barbosa no jornal ECO

O meu kit de sobrevivência para a Web Summit, descrito pela Mariana de Araújo Barbosa no jornal ECO

O que a Web Summit me ensinou (ou ajudou a confirmar):

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Inspira, Verão

fim do dia na praia da carriagem

Praia da Carriagem, Costa Vicentina, Portugal

 

Brotam emoções más pelos poros relaxados pela luz de Julho. Postais formam-se ao deitar sobre a areia fofa, a mão e o antebraço quase negros em primeiro plano sobre as rochas negras-laminadas, depois a espuma, depois as ondas, depois o mar aberto até encontrar o azul mais claro lá de cima – esse mesmo, céu.

Transpiram-se emoções de Inverno à medida que se caminha e chapinha no fim do mar a dar à terra, com gente em redor que, no anonimato, partilha a mesma sede de Verão. E assim inspiramos em conjunto o ar salgado que queremos muito que nos fique cá dentro para nos aguentarmos daqui a uns meses.

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Portugalidade sobre os carris do Douro

Oriente-Campanhã

O sotaque da estação final não engana. Atiro a mochila para as costas, compro um petisco com medo de usar palavras de moura (na dúvida, respondo sempre “o meu pai nasceu aqui, não se zangue comigo!”) e aproximo-me da plataforma onde desta vez se lê Tua, esse nome que sempre me intrigou. Livro, caderno, caneta, portátil, água e música: estava prontíssima para o meu passeio isolado por esse troço histórico, mesmo a pedir reflexões de carangueja.

– Aqui está mais fresquinho… A menina tem este lugar ocupado? Não gosto de estar atafulhado ali à frente…

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Rio 2016: Desculpa e obrigada, Brasil 

Marinheiros portugueses representados na abertura do Rio 2016 (Foto Ivan Alvaradas / Reuters)Marinheiros portugueses representados na abertura do Rio 2016 (Foto Ivan Alvaradas / Reuters)

Caravelas portuguesas representadas na abertura dos Jogos Olímpicos 2016, Rio de Janeiro (Foto Ivan Alvaradas / Reuters)

Lembro-me com muita clareza das aulas de História, em Lisboa, onde se falava de grandiosidade, de mapas cor-de-rosa, de património, de conquista e dominância – tudo sob a égide desse grande título, “Descobrimentos”.

Mais tarde, a família que tenho no Brasil levou-me lá duas vezes: São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e paradas pelo caminho – incluindo a Paraty que nos faz viajar num tempo português que já não existe mas sim.

Ao ouvir repetidamente “Oi?” quando conversávamos por espaços paulistas, em 2000, o nosso encanto pelo Brasil das novelas foi-se dissipando para dar lugar àquele de que a família nos contava: primos pré-adolescentes vítimas de bullying por serem portugueses, esses da padaria e do bigode. Valeu-lhes a mudança de escola quando o sotaque já brasileiro abafava humilhações.

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