Category: Traços diletantes (Page 1 of 14)

11 anos depois, sentir falta não significa que faça falta

Eu bem achava que, depois de voltar de vez (whatever that means), ia deixar-me de contar aniversários. Mas lá agora: é mais forte do que eu.

(Assim prepara a lenga-lenga, mas olha que a perspetiva é bem diferente.)

Faz hoje 11 anos que fui embora da minha Lisboa. E a diferença é que é dessa Lisboa que escrevo hoje.

Passei o biombo, fugi para o Norte europeu. Uma década depois estou a viver na minha alface-natal, na minha casinha, com o meu trabalho, os amigos de sempre, os amigos do meu novo Aqui e o contacto com os amigos de lá.

Há dias “sobre-ouvi” uma conversa entre uma rapariga portuguesa e uma holandesa. A portuguesa queixava-se que não sentia fazer parte de cá: “Os meus amigos só falam do seu dia-a-dia, falam uns dos outros, mas não falam do mundo nem de diferenças culturais. Eu não me identifico com isso e por isso sinto que não faço parte disto.”

A holandesa aconselhou-a a procurar pessoas que estivessem na mesma situação – e eu, automaticamente, levantei o braço e sorri.

Mas depois percebi que não sorri por estar na mesma situação. Sorri sim de empatia e nostalgia, por perceber que grande parte dessa angústia já lá vai. Chama-se adaptação, talvez; mas é irónico que eu tenha começado a dar a volta a essa angústia muito mais depressa e naturalmente do que algum dia previ.

Também eu entrei nas tais conversas, também eu desacelerei. Não perdi o mundo dentro de mim – e que grata estou por ter cá novos amigos que não são de cá – nem perdi o mundo que me brota da agenda (antes brotasse da carteira), pois sei que tenho de sair daqui. Mas hoje sei que quero ir saindo… e regressando. Por enquanto é este e o meu mundinho. Aquele que tanto tempo esteve longe da sua dona. Admitir que retrocedi liberta-me uma humildade que me faz sorrir de liberdade.

Sim, magoa-me a notícia de uma bomba no metro de Londres em hora de ponta tanto como se ainda lá estivesse. Sim, sinto falta da Londres que não me chateava a cabeça sobre quando vou casar ou ter filhos. Sim, sinto falta dos cachecóis e dos longos meses de folhas amarelas no chão. Sinto falta que as pessoas cheguem a horas e que as reuniões sejam produtivas, com hora marcada para começar e acabar. Sinto falta de andar com amigos nos transportes públicos, que em Lisboa só ando com desconhecidos.

E sinto uma falta danada de seguir para trás do biombo e apanhar aviões.

Mas sentir falta não significa que me faça falta. Falta fazia-me há 11 anos – a falta de viver tudo o que não conhecia e a falta de me conhecer. Hoje em dia arrepia-me a ideia de haver tantas pessoas que não tenham vivido noutros países, partilhado casa com estranhos, começado coisas grandes do zero.

Tal como deverá arrepiar outras pessoas espalhadas pelo mundo – e com razão – o facto de eu e tanta gente nunca termos feito isto ou aquilo. E por isso reservo-me a aceitar que cada um tem as oportunidades que connosco se cruzam, com base no que a vida nos tiver dado até então, e aquilo que somos e pensamos no momento de abraçar essas oportunidades.

Onze anos depois de cruzar o biombo, sozinha para a auto-descoberta, estou de regresso e rodeada de coisas boas do Mundo inteiro.

Cinco meses de Portugalidade

Não me lembrava de ter vivido tanta coisa em apenas cinco meses desde os tempos de Erasmus. E não me lembro da última vez que passei tanto tempo sem apanhar um avião.

Naquela tenra altura falava em apanhar o comboio para “ir ter comigo mesma”. Pois que aterrei de avião na minha terra precisamente para me encontrar de novo com este self amadurecidamente saltitante. Apesar do peso dos verbos voltar, estar, ficar, só agora olho para trás e reparo que mais tem sido um reboliço de areia a tentar assentar, molhar-se, enraizar-se.

E que bem que me tem sabido. Ver a minha Lisboa de prédios re-erguidos, de ruas e esplanadas cheias. Até o queixume que se me voltou do “antes é que era bom”, quando as casas tinham preços decentes. Só que não era bom coisa nenhuma -não me vou esquecer do aperto no coração que me davam as visitas de lá para cá às pinguinhas, trazendo histórias e ordenado e sorrisos fresquinhos, mas tudo o que ouvia era a crise e tudo o que via era a crise – nas ruas, nas arcadas, na calçada portuguesa molhada de tristeza. Tudo o que via era o meu silêncio envergonhado de quem saltara do barco que se afundava, achando que não tinha legitimidade para me queixar do que me custava do lado de lá. (Com os anos aprendi que toda a dor é legítima, mas isso é outra conversa.)

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Fecha-se o ciclo

Leipzig 2007-2017

Dizem que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Eu, que nem sou de riscos, resolvi vir parar a Leipzig dez anos depois do ano em que senti uma concentração tal de felicidade que parecia nem caber em mim.

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Arriscar, errar e humanizar: lições da Web Summit

A última semana em Lisboa foi o culminar de dezenas de conversas que iniciei no Social Impact Lab na Alemanha, uma incubadora de inovação social com um programa para startups portuguesas

Tendo em conta a força da user experience no mundo da tecnologia, é de lamentar que a Web Summit 2016, em Lisboa, não se tenha lembrado do utilizador. Pelo menos no início: filas enormes e desorganizadas, falta de informação e milhares de pessoas acima da capacidade.

Mas depressa senti que o formato desta Web Summit não fez mais do que espelhar a era em que vivemos: correria constante, conversas superficiais e falta de concentração mesmo em painéis de vinte minutos. Culpa-se o Twitter, a caixa de email em reprodução constante e o horário a dizer-nos para onde ir já a seguir.

Consegui fazer o trabalho de casa muito antes de 7 de novembro, graças à App da conferência. E assim, entre 35 sessões assistidas em modo multitasking, conversei com duas agências de comunicação, dois pacientes, quatro líderes de startups sociais, nove startups portuguesas na área da saúde, quatro incubadoras e três engenheiros.

O meu kit de sobrevivência para a Web Summit, descrito pela Mariana de Araújo Barbosa no jornal ECO

O meu kit de sobrevivência para a Web Summit, descrito pela Mariana de Araújo Barbosa no jornal ECO

O que a Web Summit me ensinou (ou ajudou a confirmar):

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Inspira, Verão

fim do dia na praia da carriagem

Praia da Carriagem, Costa Vicentina, Portugal

 

Brotam emoções más pelos poros relaxados pela luz de Julho. Postais formam-se ao deitar sobre a areia fofa, a mão e o antebraço quase negros em primeiro plano sobre as rochas negras-laminadas, depois a espuma, depois as ondas, depois o mar aberto até encontrar o azul mais claro lá de cima – esse mesmo, céu.

Transpiram-se emoções de Inverno à medida que se caminha e chapinha no fim do mar a dar à terra, com gente em redor que, no anonimato, partilha a mesma sede de Verão. E assim inspiramos em conjunto o ar salgado que queremos muito que nos fique cá dentro para nos aguentarmos daqui a uns meses.

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Portugalidade sobre os carris do Douro

Oriente-Campanhã

O sotaque da estação final não engana. Atiro a mochila para as costas, compro um petisco com medo de usar palavras de moura (na dúvida, respondo sempre “o meu pai nasceu aqui, não se zangue comigo!”) e aproximo-me da plataforma onde desta vez se lê Tua, esse nome que sempre me intrigou. Livro, caderno, caneta, portátil, água e música: estava prontíssima para o meu passeio isolado por esse troço histórico, mesmo a pedir reflexões de carangueja.

– Aqui está mais fresquinho… A menina tem este lugar ocupado? Não gosto de estar atafulhado ali à frente…

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