Category: Aprendizagem alheia (Page 1 of 6)

Arriscar, errar e humanizar: lições da Web Summit

A última semana em Lisboa foi o culminar de dezenas de conversas que iniciei no Social Impact Lab na Alemanha, uma incubadora de inovação social com um programa para startups portuguesas

Tendo em conta a força da user experience no mundo da tecnologia, é de lamentar que a Web Summit 2016, em Lisboa, não se tenha lembrado do utilizador. Pelo menos no início: filas enormes e desorganizadas, falta de informação e milhares de pessoas acima da capacidade.

Mas depressa senti que o formato desta Web Summit não fez mais do que espelhar a era em que vivemos: correria constante, conversas superficiais e falta de concentração mesmo em painéis de vinte minutos. Culpa-se o Twitter, a caixa de email em reprodução constante e o horário a dizer-nos para onde ir já a seguir.

Consegui fazer o trabalho de casa muito antes de 7 de novembro, graças à App da conferência. E assim, entre 35 sessões assistidas em modo multitasking, conversei com duas agências de comunicação, dois pacientes, quatro líderes de startups sociais, nove startups portuguesas na área da saúde, quatro incubadoras e três engenheiros.

O meu kit de sobrevivência para a Web Summit, descrito pela Mariana de Araújo Barbosa no jornal ECO

O meu kit de sobrevivência para a Web Summit, descrito pela Mariana de Araújo Barbosa no jornal ECO

O que a Web Summit me ensinou (ou ajudou a confirmar):

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Rio 2016: Desculpa e obrigada, Brasil 

Marinheiros portugueses representados na abertura do Rio 2016 (Foto Ivan Alvaradas / Reuters)Marinheiros portugueses representados na abertura do Rio 2016 (Foto Ivan Alvaradas / Reuters)

Caravelas portuguesas representadas na abertura dos Jogos Olímpicos 2016, Rio de Janeiro (Foto Ivan Alvaradas / Reuters)

Lembro-me com muita clareza das aulas de História, em Lisboa, onde se falava de grandiosidade, de mapas cor-de-rosa, de património, de conquista e dominância – tudo sob a égide desse grande título, “Descobrimentos”.

Mais tarde, a família que tenho no Brasil levou-me lá duas vezes: São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e paradas pelo caminho – incluindo a Paraty que nos faz viajar num tempo português que já não existe mas sim.

Ao ouvir repetidamente “Oi?” quando conversávamos por espaços paulistas, em 2000, o nosso encanto pelo Brasil das novelas foi-se dissipando para dar lugar àquele de que a família nos contava: primos pré-adolescentes vítimas de bullying por serem portugueses, esses da padaria e do bigode. Valeu-lhes a mudança de escola quando o sotaque já brasileiro abafava humilhações.

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Essa pressão de sermos gratos pelo que temos

“Aproveita a vida que ela é curta, agradece pelo que tens,
Deus castiga-te se te queixares demais, já viste tanta gente a morrer à fome?”

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Nasceste assim, criança feliz: de covinhas sorridentes, braços abertos e pneus acima do valor recommendado. Sorrias como quem já agradecia por essa vida perfeita de comer e dormir, no pico de um verão ainda sem buraco do ozono.

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Brexit? Não me levem a Europa que tão feliz me tem feito

Um pedido a poucas horas de se conhecer o resultado do voto

Cépticos, incluindo eu, de que a Europa em que a minha geração cresceu tenha futuro. It’s all fucked up, dizemos enquanto galgamos cervejas, como se não houvesse esperança. Eu, pessimista por natureza, vou na conversa, acreditando também que se isto ou aquilo acontecer vamos pelos ares.

Vamos pelos ares porque nos tornamos divididos, como se não nos valesse então nenhum avião para nos dizer que somos parte de uma União cheia de história e cujos benefícios tomamos hoje por garantidos. Vamos pelos ares qual bomba que não sabe o que foi este território há tão poucas décadas, dizimado por outras bombas, aleatórias, enviadas pelo ódio e por argumentos desfundamentados.

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Ser português

Ser português é pedir um ramo de salsa ao vizinho e ficar lá meia hora a conversar. Ser português é falar alto na rua e nos restaurantes sem notar. Ser Português é ter o melhor jogador de futebol do mundo e não gostar muito dele até vir alguém de fora criticar. Ser português é ter na guelra o sangue quente arrefecido por uma ditadura. Ser português é ter poesia de revolução e fazê-la sem violência e de cravo na mão. Ser português é comer chouriço assado na lareira com mais prazer do que ir ao restaurante gourmet. Ser português é revoltarmo-nos quando nos dizem que o limite passa de 0,5 para 0,2, porque ser português é beber vinho, cerveja e agua-ardente.

Ser português é ter orgulho em sê-lo mesmo quando se diz o contrário. É ir lá fora e falar de fado, da comida, da praia, de tudo o que nos orgulhamos quando temos saudades. Ser português é ter saudades. É ter saudades do sol, das sopas da avo, dos cafés e cigarros na esplanada com os amigos. Ser português é ter saudades e não esquecer. É ser nostálgico mas ter amnésia selectiva de 4 em 4 anos e queixar-se que está tudo na mesma.

Ser português é desenrascar. É encontrar caminho sem perguntar. Ser português é pedir indicações e ter logo a ajuda de vários estranhos. Ser português é tentar a borla seja do que for. Ser português é oferecer só porque se simpatizou com alguém. Ser português é ter os melhores lá fora porque é lá fora que se faz o melhor. Ser português é ter o mar no horizonte e nunca olhar para terra, é seguir em frente até o mar acabar, é descobrir, sonhar e inventar.”

E ser português é isso. Ser português é ser muita coisa.

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Não, a velhice não é triste

A proteína do Alzheimer levou o cérebro do meu avô, mas não lhe levou o coração cheio de um passado feliz

Lia há dias o relato de um geriatra que examinava a sua paciente. Pedia-lhe que descrevesse a sua rotina, ao que respondeu com uma enumeração que cabia nos dedos de uma mão: as tarefas domésticas, a manutenção do jardim, o programa de televisão preferido.

Noutros casos, há os bancos de jardim. Há a senhora que meteu conversa comigo  em Madrid, ao jeito ibérico que já mal conheço. Depois de debitar o seu conhecimento de ex-linguista e de querer saber sobre o meu Portugal, a Itália da Vivi e a Holanda da Vivian, despediu-se das chicas muy lindas porque a filha, na Alemanha longínqua que me é familiar, ia fazer-lhe o telefonema diário não tarda: “Eu estou bem cá. O problema é a solidão.”

Para lá dos bancos de jardim, há as casas onde a mesma solidão faz pó. Há as burlas de quem, para supostamente ajudar, faz negócio. Ou há também – gosto de acreditar – aqueles com uma verdadeira vocação para cuidar dos que viveram mais do que nós, conseguindo traduzir as suas dificuldades físicas e mentais ao mesmo tempo que sorriem, melhorando-lhes o dia.

avo-lolitaO meu avô Lolita, com o lindo Alentejo no sangue, tinha doença de Alzheimer. A doença com que se fazem piadas injustas no dia-a-dia graças a uma interpretação simplista de que a memória deixa de funcionar.

A doença de Alzheimer é biológica, fruto da proteína que se desenvolve da maneira errada, sem sabermos ainda bem como ou porquê – já que só recentemente se percebeu o impacto económico que as demências têm e se começou a investir nelas. Uma proteína que percorre o cérebro labiríntico numa caminhada curiosa e de fome imprevisível, comendo a memória de curta duração, depois o sentido de orientação, a noção de espaço, o discírnio entre o que é socialmente aceitável – da higiene à sexualidade – até invadir os canais que deixam o corpo mover-se.

O resultado é uma pessoa que nos parece confusa e de expressão triste, que não nos reconhece. Como as muitas outras formas de demência, o Alzheimer nao é uma consequência da idade, e sim uma doença que mais gosta desse estrato etário.

Felizmente (aprendi-o na britânica Alzheimer’s Society, onde trabalhei durante dois anos), sei que o meu avô nunca perdeu as suas emoções. Se o cérebro sentiu as consequências da tal proteína, então também o coração sentiu o que se passava à sua volta: aquilo que estamos agradecidos por ter sido atenção, carinho, amor, profissionalismo e proximidade, mesmo à distância.

Ainda que muitos digam que sim, a doença nunca permitiu que o meu avô deixasse de ser humano. A proteína teimosa não o deixava lembrar-se do seu passado, mas o passado nunca o deixou: memórias antigas da sua vida feliz, da sua-companheira-minha-avó. Quiçá a tal proteína tenha sido apenas birra por a avó ter ido mais cedo; mas o seu passado, juntos, ficou com os dois, onde quer que estejam.

O Alzheimer pode tirar-nos a capacidade de lembrar, mas a capacidade de sentir – essa nunca. Não preciso de evidência científica para acreditar nisso.

E mais: não é por sabermos o fado do Alzheimer que devemos assumir uma morte lenta e desligada da realidade: se nos vamos repentinamente, não temos tempo de nos despedirmos – mas pelo menos não sofremos; se sabemos que nos vamos, achamos a lucidez cruel – mas temos a oportunidade de nos despedirmos; se pensamos na demência como um fenómeno natural da idade, vão-se os dementes e “foi melhor assim” – mas deixaram uma vida completa para trás. O que tem isso de triste?

Recentemente, ao meu lado num dos aviões que costumam dar-me corda aos dedos, ia sentado um casal também ele “de idade avançada”, certamente moderno para a geração pré low cost: ela alemã, ele inglês. Têm-se um ao outro há umas décadas, imaginei. Os gestos dele eram mais vagarosos, o olhar perto demais das letras da revista. Ela ajudava-o a tirar objectos da mala. Mas, quando o avião pregou fundo para levantar, foi ela quem lhe agarrou a mão em busca de segurança.

Digam-me que não sei nada sobre a velhice, nesse jeito paternalista com que ouvi a vida toda, “quando tiveres a minha idade, vais perceber”. Para mim a velhice tem tanto, senão mais, de bonito quanto de triste.

Quem dera às gerações jovens de hoje terem a capacidade de investir no futuro, de aceitar incondicionalmente, de acreditar no companheirismo, de ver o compromisso como um tesouro para a vida. Triste sim é o mundo novo onde a solidão é a escolha, onde ficar com alguém é uma forca, onde o matrimónio “aconteça o que quiser” não é mais que um contrato que se quebra. Se é que sequer nele se arrisca.

Até ao dia em que percebemos que nos sentimos sós, como a senhora de Madrid: com a diferença de que seremos umas décadas mais novos. Triste é, então, vir a ter Alzheimer e nem dar por isso, como se não houvesse memórias de vidas partilhadas.

A proteína do Alzheimer levou o cérebro do meu avô, mas não lhe levou o coração cheio de um passado feliz.

 

(Um beijinho aos meus quatro avós, agora juntos lá em cima a olhar por nós)

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