Category: Memórias (Page 1 of 3)

Fecha-se o ciclo

Leipzig 2007-2017

Dizem que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Eu, que nem sou de riscos, resolvi vir parar a Leipzig dez anos depois do ano em que senti uma concentração tal de felicidade que parecia nem caber em mim.

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Essa pressão de sermos gratos pelo que temos

“Aproveita a vida que ela é curta, agradece pelo que tens,
Deus castiga-te se te queixares demais, já viste tanta gente a morrer à fome?”

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Nasceste assim, criança feliz: de covinhas sorridentes, braços abertos e pneus acima do valor recommendado. Sorrias como quem já agradecia por essa vida perfeita de comer e dormir, no pico de um verão ainda sem buraco do ozono.

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O que somos, consoante onde estamos

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As notas de rodapé televisivas diziam que as resoluções de ano novo (ai a conveniência dos estrangeirismos atropelados) são emagrecer, ir ao ginásio e deixar de fumar. Parece-me tão obviamente português que me ponho a pensar qual seria a lista na Inglaterra que me adoptou: provavelmente viajar para algum país ainda desconhecido, mudar de trabalho e beber menos unidades alcoólicas por semana.

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Não, a velhice não é triste

A proteína do Alzheimer levou o cérebro do meu avô, mas não lhe levou o coração cheio de um passado feliz

Lia há dias o relato de um geriatra que examinava a sua paciente. Pedia-lhe que descrevesse a sua rotina, ao que respondeu com uma enumeração que cabia nos dedos de uma mão: as tarefas domésticas, a manutenção do jardim, o programa de televisão preferido.

Noutros casos, há os bancos de jardim. Há a senhora que meteu conversa comigo  em Madrid, ao jeito ibérico que já mal conheço. Depois de debitar o seu conhecimento de ex-linguista e de querer saber sobre o meu Portugal, a Itália da Vivi e a Holanda da Vivian, despediu-se das chicas muy lindas porque a filha, na Alemanha longínqua que me é familiar, ia fazer-lhe o telefonema diário não tarda: “Eu estou bem cá. O problema é a solidão.”

Para lá dos bancos de jardim, há as casas onde a mesma solidão faz pó. Há as burlas de quem, para supostamente ajudar, faz negócio. Ou há também – gosto de acreditar – aqueles com uma verdadeira vocação para cuidar dos que viveram mais do que nós, conseguindo traduzir as suas dificuldades físicas e mentais ao mesmo tempo que sorriem, melhorando-lhes o dia.

avo-lolitaO meu avô Lolita, com o lindo Alentejo no sangue, tinha doença de Alzheimer. A doença com que se fazem piadas injustas no dia-a-dia graças a uma interpretação simplista de que a memória deixa de funcionar.

A doença de Alzheimer é biológica, fruto da proteína que se desenvolve da maneira errada, sem sabermos ainda bem como ou porquê – já que só recentemente se percebeu o impacto económico que as demências têm e se começou a investir nelas. Uma proteína que percorre o cérebro labiríntico numa caminhada curiosa e de fome imprevisível, comendo a memória de curta duração, depois o sentido de orientação, a noção de espaço, o discírnio entre o que é socialmente aceitável – da higiene à sexualidade – até invadir os canais que deixam o corpo mover-se.

O resultado é uma pessoa que nos parece confusa e de expressão triste, que não nos reconhece. Como as muitas outras formas de demência, o Alzheimer nao é uma consequência da idade, e sim uma doença que mais gosta desse estrato etário.

Felizmente (aprendi-o na britânica Alzheimer’s Society, onde trabalhei durante dois anos), sei que o meu avô nunca perdeu as suas emoções. Se o cérebro sentiu as consequências da tal proteína, então também o coração sentiu o que se passava à sua volta: aquilo que estamos agradecidos por ter sido atenção, carinho, amor, profissionalismo e proximidade, mesmo à distância.

Ainda que muitos digam que sim, a doença nunca permitiu que o meu avô deixasse de ser humano. A proteína teimosa não o deixava lembrar-se do seu passado, mas o passado nunca o deixou: memórias antigas da sua vida feliz, da sua-companheira-minha-avó. Quiçá a tal proteína tenha sido apenas birra por a avó ter ido mais cedo; mas o seu passado, juntos, ficou com os dois, onde quer que estejam.

O Alzheimer pode tirar-nos a capacidade de lembrar, mas a capacidade de sentir – essa nunca. Não preciso de evidência científica para acreditar nisso.

E mais: não é por sabermos o fado do Alzheimer que devemos assumir uma morte lenta e desligada da realidade: se nos vamos repentinamente, não temos tempo de nos despedirmos – mas pelo menos não sofremos; se sabemos que nos vamos, achamos a lucidez cruel – mas temos a oportunidade de nos despedirmos; se pensamos na demência como um fenómeno natural da idade, vão-se os dementes e “foi melhor assim” – mas deixaram uma vida completa para trás. O que tem isso de triste?

Recentemente, ao meu lado num dos aviões que costumam dar-me corda aos dedos, ia sentado um casal também ele “de idade avançada”, certamente moderno para a geração pré low cost: ela alemã, ele inglês. Têm-se um ao outro há umas décadas, imaginei. Os gestos dele eram mais vagarosos, o olhar perto demais das letras da revista. Ela ajudava-o a tirar objectos da mala. Mas, quando o avião pregou fundo para levantar, foi ela quem lhe agarrou a mão em busca de segurança.

Digam-me que não sei nada sobre a velhice, nesse jeito paternalista com que ouvi a vida toda, “quando tiveres a minha idade, vais perceber”. Para mim a velhice tem tanto, senão mais, de bonito quanto de triste.

Quem dera às gerações jovens de hoje terem a capacidade de investir no futuro, de aceitar incondicionalmente, de acreditar no companheirismo, de ver o compromisso como um tesouro para a vida. Triste sim é o mundo novo onde a solidão é a escolha, onde ficar com alguém é uma forca, onde o matrimónio “aconteça o que quiser” não é mais que um contrato que se quebra. Se é que sequer nele se arrisca.

Até ao dia em que percebemos que nos sentimos sós, como a senhora de Madrid: com a diferença de que seremos umas décadas mais novos. Triste é, então, vir a ter Alzheimer e nem dar por isso, como se não houvesse memórias de vidas partilhadas.

A proteína do Alzheimer levou o cérebro do meu avô, mas não lhe levou o coração cheio de um passado feliz.

 

(Um beijinho aos meus quatro avós, agora juntos lá em cima a olhar por nós)

Maria londrina nova-iorquina

Vi Nova Iorque com as suas imponentes torres gémeas, que me apeteceu abraçar de anorak em puberdade. Senti-as amigas mais velhas a dizer-me que fazia bem em querer escrever para a vida (ou qualquer coisa assim).

Vi Nova Iorque sem torres, um Ground Zero de chão levantado e com ranhuras, qual terramoto provocado por uma dúzia de homens loucos. Elevavam-se as bandeiras orgulhosas do costume.

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Nós.

Lágrimas de alívio, de lembranças bonitas, de vassouras varrendo os maus momentos. Sabes quando ela, depois de também tanto sofrer, deu pulos de alegria a gritar “sou livre, sou livre!” ? É isso.

Tanta gente fez força para que este momento chegasse. Dá dó pensar nas vezes em que essas vozes ecoaram, ecoaram, ecoaram, e nunca se fizeram ouvir. Talvez porque também elas tinham uma réstia de esperança.

O senso comum dita que os psicólogos não nos dão respostas, só perguntas. A força individual tem de vingar sozinha e trazer respostas só com a ajuda de si mesma.

Eis que essa força chegou, determinada, numa visita relâmpago. Nas visitas relâmpago não há espaço senão para reagir com espontaneidade, sem calculismos, sem reler conversas, sem entrar em jogos. Há que aceitá-las e tirar o melhor partido delas. Olhando para trás sabemos que a tal determinação já lá estava há algum tempo, mas era forçada. E à força não resultou.

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