Category: Observadora compulsiva (Page 1 of 6)

Portugalidade sobre os carris do Douro

Oriente-Campanhã

O sotaque da estação final não engana. Atiro a mochila para as costas, compro um petisco com medo de usar palavras de moura (na dúvida, respondo sempre “o meu pai nasceu aqui, não se zangue comigo!”) e aproximo-me da plataforma onde desta vez se lê Tua, esse nome que sempre me intrigou. Livro, caderno, caneta, portátil, água e música: estava prontíssima para o meu passeio isolado por esse troço histórico, mesmo a pedir reflexões de carangueja.

– Aqui está mais fresquinho… A menina tem este lugar ocupado? Não gosto de estar atafulhado ali à frente…

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Si mesma

Totnes

Branco, silêncio, ausência. Adesivo na boca, só saía o que é preciso, a linha na malfadada lista, de malfadada a gratificante. Quem diria que este lugar lhe faria perceber como a lista é precisa, é intrínseca, é parte de si?

Tocam as notas saltitantes, fazem-na saltar também entre o antes e o depois, o ano que passou e os tempos que lembra desde que se conhece, as listas, os saltos, a forma como sempre foi. O mesmo tempo que vai dançando, diz ele. Não lhe tem dado atenção, mas sabe bem como a sua dança a incomodava. Agora percebe-o porquê, mas ainda faz pouco para parar a tendência. Com calma vamos lá.

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Tenho um coração que ferve

Dizem que é de ter nascido naquele dia de Julho – que “os caranguejos têm as emoções à flor da pele”. Caramba, tudo me sensibiliza. A sensação de que não estou a aproveitar bem o tempo, o meu tempo, no sítio onde escolhi passá-lo por agora. As gargalhadas solitárias em reacção ao que as galinhas me dizem através de ecrãs, a confirmar que a amizade é mesmo além-fronteiras. O vídeo que me alivia – há amor verdadeiro sim – e as mensagens para Casa a confirmar-me a saudade diária do meu espaço de sempre.

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Ano ante ano

Sou de meses; e no último do ano ė-me costume olhar séria pela janela e começar a rebobinar.

Começou na Argentina, choque térmico de 50 graus que obrigava à relativização. Por vezes só precisamos de mudar de latitude – ou de hemisfério – para pensar sob outra perspectiva. Talvez tenha passado de vez para o lado dos nórdicos, que dividem a vida entre o trabalho no frio e as férias no calor. Mas que não se trabalhe só para poder viajar, que trabalhar naquilo com que se sonhou – saúde – e ainda por cima por uma boa causa, não dá remorso.

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Maria londrina nova-iorquina

Vi Nova Iorque com as suas imponentes torres gémeas, que me apeteceu abraçar de anorak em puberdade. Senti-as amigas mais velhas a dizer-me que fazia bem em querer escrever para a vida (ou qualquer coisa assim).

Vi Nova Iorque sem torres, um Ground Zero de chão levantado e com ranhuras, qual terramoto provocado por uma dúzia de homens loucos. Elevavam-se as bandeiras orgulhosas do costume.

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Carta de uma emigrante ao Santo António

Querido Santo António,

Vim à nossa Lisboa mais uma vez. (Vim, fui, estou, sou, sinto; nunca sei que verbo usar). Gosto de falar contigo sempre que me vejo a sobrevoar a nossa costa e as nossas sete colinas, inchada de orgulho para os branquinhos que ao meu lado no avião sussurram beautiful’s e wunderschön’s como quem lhes quer dizer: é minha!

Acompanhas-me nestas lides de emigrante europeia (ai o que seria de mim se transatlântica) há meia dúzia de anos. Já me viste tanto histérica como deprimida de por cá andar sobre a calçada que já não me é rotina. Essa calçada que piso sem pressas, que todos os restantes passos são vagarosos e põem a Maria Londres em memórias distantes. Até as escadas rolantes são mais lentas e ninguém nelas corre pela esquerda. Aliás: ninguém corre.

Cá (ou lá) as minhas pernas entram em repouso, que não caminho nem um décimo das milhas londrinas, e passo o tempo sentada – a comer ou no carro ou nos tais passos vagarosos. Vagarosos também os convívios, e que bem que sabe vir ter contigo no mês em que tudo se enche de sorrisos e tragos e passos de dança leves.

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