Tag: adolescência

Deixemo-nos de merdinhas

Ainda estou em réstias da explosão de emoções daquele dia. Orgulho, admiração, negação, gratidão, culpa, compaixão, determinação.

Acordei já mentalizada para a nova rotina de vários dias: aquecer panelas de água para tomar banho – que casas vitorianas têm tanto de bonito e trendy como de problemático. Depois enfiei-me no metro a hora de ponta chuvosa, com a mochila monstruosa da minha irmã hippie para dar a uma amiga – que em Londres é comum distribuir-se baggage allowance pelos viajantes-e-seus-amigos e assim poupar uns trocos.

Com as costas feitas num oito disse o habitual “morning!” aos meus colegas, fui pôr a massa no frigorífico, sentei-me à secretária e comecei o meu último dia de trabalho na Alzheimer’s Society. Vinte meses sobre os quais escrevo depois.

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América

Como em quase tudo, também o olhar amadurece com o tempo. Quando era adolescente o sotaque americano maravilhava-me, sob memórias daquela viagem longínqua ao paraíso infantil nos trópicos da Florida.

Lembro-me de aprender a andar de patins entre os carros psicadélicos de Miami beach, das barbatanas de golfinhos ou tubarões que avistámos quando nadávamos a muitos metros da costa, do bafo estranhamente húmido à saída do aeroporto, da chuva torrencial que caiu de repente junto aos foguetões da Nasa, da placa anunciando Portuguese-men-of-war na ponta de Key West, dos crocodilos camuflados nos pântanos, de outros animais tropicais, das praias de areia branca e água quente e cristalina.

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Vinte anos depois Miami pode não ter mudado, mas é um lugar mudado aos meus olhos. É o expoente máximo de um sonho americano que hoje desponta relações de amor-ódio.

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O homem do disco

Era noite de Natal em Benfica, as malas estavam preparadas para o dia seguinte. Dentro dela levavas um presente fresco: um CD precioso que te acompanhava para perto de uma realidade que, de tão desconhecida, te fascinava já em tenra idade. Querias saber como era a vida lá do lado da América.

Não havia iPads, não havia iPhones, não havia Twitter, não havia Facebook, nem sequer máquinas fotográficas digitais. Cada rolo fotográfico era cuidadosamente guardado. Nada se partilhava senão com quem estava fisicamente à nossa volta ou com aqueles que, próximos e interessados, se juntavam a nós à mesa no regresso.

Nem sonhando que um dia um tal de iPod iria aparecer, tu estavas entusiasmadíssima com a ideia de substituir o leitor de cassetes da tua irmã por aquele a que tu chamavas “o homem do disco”. O precioso discman que compraste em Nova Iorque acompanhou-te durante largos anos. Em eras longínquas à dos iPhones, cada play era um gasto de bateria, cada música era ouvida do início até ao fim, e cada álbum era saboreado como um todo, estimulando o nosso espírito crítico. Não à mercê de playlists que desenhamos hoje consoante o nosso humor.

Ansiosa por colocar o teu novo CD no teu novo discman cinzento, mal sabias que o som que te entrava nos ouvidos te traria memórias desta nitidez quase 15 anos mais tarde.

Ouviste esta e outras músicas naquele andar alto do hotel, ouviste-as nos táxis com aqueles motoristas barbudos, ouviste-as nas lojas enquanto se faziam compras, e ouviste-as ao longo daquelas ruas engolidas por arranha-céus, decoradas com luzes amarelas pequeninas. Apitaste ao passar no controlo de segurança de uma das torres gémeas, porque trazias o discman no bolso do anorak. Quando subiste lá acima foi uma das raras vezes em que o teu discman perdeu importância.

Naquela cidade fez muito frio; foi a primeira vez na tua vida que sentiste temperaturas negativas. E assim te rendeste ao norte.

O ano de 1997 estava a acabar, e a tua vida a começar.

Foi ao som do teu discman que te apaixonaste pela cidade que iria mudar-te para sempre.


Amigas

Para quem não sabe, hoje é o Dia das Amigas.

Só soube da existência deste dia ao fim de muitos anos de partilha de experiência com elas. Mas nunca é tarde; e por isso hoje é a Elas que deixo estas palavras. Com as minhas amigas eu joguei à macaca, às escondidas, às barbies, mas também lhes puxei os cabelos e disse-lhes umas quantas vezes “nunca mais sou tua amiga”.

Uns tempos depois falei com elas sobre rapazes e ídolos de música. Passava fins-de-semana em casa delas ou elas vinham à minha e assim pertencíamos às famílias uma da outra por alguns dias. Depois a minha mãe ligava à mãe delas para agradecer, enquanto nós ríamos e conversávamos sobre assuntos leves e de pouca ou nenhuma responsabilidade – mas que nos ocupavam toda a atenção. Nessa altura não havia telemóveis nem chats na internet; gastávamos rios de dinheiro a falar ao telefone de casa até a minha irmã me obrigar a desligar para poder falar com o namorado.

Tive grandes amigas com quem me zanguei por razões estúpidas; até hoje mantemos silêncio não sei porquê.

Uns tempos depois deixei de ver as minhas amigas com tanta frequência e conheci outras, de outros meios, de outras cidades, de outras realidades. Fiz mais amigas. E depois fui deixando de ver essas amigas todos os dias, mas continuei a contar com elas. Cheguei a outras cidades e outros países e voltei a ter a sorte de sentir empatia por outras “elas”, de idades e línguas diferentes. Também ficaram minhas amigas.

Hoje em dia tenho amigas a casar nos quatro cantos do mundo.

Hoje estou longe de quase todas as minhas amigas mas faço tudo o que posso para que elas me sintam perto e disponível.

Hoje sei que o bom da Amizade é que, por mais que muitas delas cresçam, há sempre espaço para mais uma.

Adolescência

Nesta fase da vida tão intensa e, para muitos, insuportável, há sempre espaço para fanatismos.

A maioria das minhas amigas gostava dos Backstreet Boys. Pois eu venerava os Hanson, aqueles três rapazes loiros que cantavam “MMMBop” e que pareciam umas meninas. Tinham 9, 12 e 15 anos na altura.

Os Hanson da era Mmmbop, “usados” até para publicidade a leite

Eu defendia-os na escola, quando aparecia com os meus dossiers forrados de fotografias deles e era gozada por “gostar de meninas.”

Eu passava parte das minhas férias a organizar cadernos com a tradução das músicas deles. Implorava por revistas americanas importadas, que custavam uma fortuna, porque tinha fotografias e novidades que a Internet quase inexistente da altura não me trazia a casa.

Eu tinha sempre uma cassete dentro do vídeo, pronta a gravar quaisquer segundos de fama que passavam na MTV.

Cheguei a escrever-lhes uma carta a prometer amor eterno. E fui a um encontro de fãs no Parque das Nações, onde cerca de 30 raparigas histéricas juntaram cartas e fotos para lhes enviar, por encomenda, juntamente com o pedido de um concerto em Portugal. Era triste vê-los dar concertos em tantas cidades espanholas e aprender palavras portugesas no Brasil, mas nunca tê-los visto ao vivo. Quando ia a Espanha, corria para um tal El Corte Inglès e uma tal Fnac e comprava todas as cassetes de vídeo deles que encontrava.

Comprei o livro de pautas das músicas do primeiro álbum deles, “Middle of Nowhere”, e aprendi a tocar no piano as minhas músicas preferidas. Ainda hoje consigo tocar de cor duas delas.

Quanto estive em Nova Iorque, em 1997, olhava para as ruas à noite e imaginava-os, ali, a gravar o videoclip da música “Weird”. Senti-me tão mais perto deles…!

Era especialmente apaixonada pelo vocalista principal, Taylor Hanson. Gostava de acreditar que ele facilmente se apaixonaria por mim e que íamos casar e viver em Tulsa, Oklahoma. Como iria conhecê-lo, isso era só um detalhe.

Jordan Taylor Hanson

Durante anos troquei correspondência com a Gisely, uma jovem brasileira tão ou mais fanática que eu, que descobri na Internet – porque ela escrevia “novelas” onde entravam pessoas comuns e os três irmãos.

Fomos amigas durante vários anos. Até que um dia ela se desiludiu com o grupo, porque o Taylor se tinha casado…

Milhares de corações se partiram nessa época em todo o mundo e – facto comprovado – muitas raparigas passaram de fãs a inimigas número um. A longa espera por novos álbuns, enquanto os irmãos dedicavam mais tempo à sua vida privada, levou ao desinteresse de muitos – ou muitas.

Hoje acordei com uma “Nostalgia Hanson” e devorei vídeos deles. Os três irmãos estão casados, o mais novo Zac tem um filho, o mais velho Isaac tem dois, e o “homem da minha vida” tem, com 27 anos, nada mais nada menos do que… quatro filhos.

Taylor e Natalie Hanson com os seus 4 filhos

Lançaram novos álbuns, que dificilmente passaram as fronteiras americanas. Dedicaram-se a uma causa – “Take the Walk” – fazendo caminhadas com fãs, visitando países africanos como Moçambique e lançando acções que em muito já contribuíram na luta contra a pobreza e a SIDA.

É muito triste ter vivido este fanatismo sem nunca ter podido vê-los ao vivo. Quase como que querendo tornar a minha adolescência mais feliz, podia tornar-me jornalista de música e ir atrás deles para conseguir uma entrevista.

É difícil descrever os sentimentos que vivi durante aqueles anos por causa de três crianças que nem sabem da minha existência. Mas mesmo assim, desejo a todos os adolescentes que passem por um fanatismo como este. Não deixa de ser uma aprendizagem. E aos pais: se virem as filhas a chorar por uma coisa destas, não subestimem. É mais importante do que parece.

Zac, Taylor e Isaac Hanson

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