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P’ra inglês ver

Insisto em perguntar-me por que razão foram tão poucas as vezes que escrevi aqui desde que vim para Londres, em Setembro de 2010. Culpei o mestrado, uma autêntica gravidez de nove meses que não deixou sequer disponibilidade para explorar o novo poiso.

Mesmo assim, depois do intervalo em Genebra, o regresso a Londres não me trouxe aqui, às letras, aos desabafos, às observações que sempre fazia. No fundo ainda as faço – mas não as escrevo.

Estou indecisa se é o hábito de me enraizar em novas rotinas que me fez cair os braços – ou se é a própria terra de sua majestade que me bloqueou a inspiração.

Sorrio com frequência pela ironia de ter tido tanta vontade de fugir da Alemanha, e agora valorizar tanto o que tomei por garantido lá e ainda procuro aqui.

Várias vezes sou criticada por generalizar demasiado os povos. Não o faço por mal. Sou apaixonada por diferenças culturais e baseio as minhas opiniões nas pessoas que conheci ao longo destes cinco anos e meio. Há quem generalize sem sair da sua concha. Generalizar ajuda-me – e sublinho sempre que, por mais que desgoste de uma nacionalidade, tenho muitos amigos que a vestem. E o mesmo podem eles pensar de mim.

Partilhei casa com alemães, franceses, holandeses, belgas, eslovacos, italianos. Mas foi no meio dos alemães que mais procurei  integrar-me, pela hospitalidade, pelo interesse, pelo meu dever enquanto procurava no país deles as oportunidades que o meu não me deu, pelos três anos em que o país deles foi a minha casa. E integrei-me bem.

Aqui a sensação foi muito diferente. Nunca o disse com todas as letras, na esperança de mudar de ideias, mas tempo suficiente passou. Os ingleses não se interessam. E isso tira a maioria da cor neste tempo em que transito.

O meu mestrado era considerado doméstico, por ter mais estudantes nacionais do que internacionais. Desde logo perdi aquele berço europeu e internacional que tão bem me acolheu em Bruxelas, na Alemanha, em Genebra.

Quis à força integrar-me entre os ingleses pois também eles me estavam a dar uma oportunidade, também o país deles se tornou na minha casa. Mas desde o primeiro dia do meu curso senti esse desconforto de simplesmente ninguém querer saber. Nunca antes tinha valorizado tanto as perguntas que os alemães que conheci me faziam constantemente: de onde eu era, e por que estava na Alemanha, Deutsche Welle ah sim?, e o que fazes mesmo? para África? Quantos países mesmo falam português? E como está a vida em Portugal? E onde aprendeste a falar alemão? E como se diz isto em português? E que outras línguas falas? Eu também já vivi aqui e acolá.

Justifiquei o desinteresse com a natureza de Londres, cosmopolita e de portas abertas ao mundo. Para um londrino é tão normal conviver com estrangeiros como com a chuva.

Mas aos poucos apercebi-me que a maioria dos meus colegas de mestrado não eram londrinos. E que esses e outros ingleses que ia conhecendo eram viajados, mas turistas; e teimam em dizer “vocês, Europeus”; e que o que eu pudesse dizer sobre essa Europa era sempre uma afirmação e muito raramente a resposta a uma pergunta.

O rótulo internacional de Londres pregou-me uma rasteira – a mim e a todos os que gostam de se sentir bem-vindos, de responder sobre o lugar de onde vêm, porque é a ele que pertencerão para sempre.

Ainda assim eu gosto de estar aqui. Os meus amigos, europeus, ingleses, portugueses, mundiais, fazem a minha família cá longe. O meu trabalho preenche-me. Faz-me magicar sobre o que ainda quero fazer.

E tiro o chapéu ao humor britânico,  que tão bem faria aos alemães. Acaba por compensar a falta daqueles sorrisos de pertença – aos quais me tinha habituado sem dar conta.

Boca aberta à porta fechada

Fala-se de eleições regionais na Alemanha. À mesa, escuto comentários conservadores. Uns mais à direita que outros; ainda assim, todos à direita. Como portuguesa e jornalista imparcial às minhas convicções políticas, meramente ouvi.

– Eu voto em quem quiser mandar os Turcos embora. Se alguém for contra os asiáticos, também voto.

Como portuguesa e jornalista imparcial, observo, desde a minha chegada a esta aldeia anexada à cidade com a segunda maior comunidade turca do país, o azeite em água que representa a Turquia na Alemanha. Não se mistura. Venho de um país onde a imigração é dado adquirido e quase passa despercebida, se nos lembrarmos que cabo-verdianos e brasileiros falam a nossa língua e partilham connosco muitas semelhanças culturais.

Mas turcos e alemães? Da fisionomia à religião, o choque é controverso demais para ter uma abordagem fácil, que eu não quero fazer.

À mesa:

– Eu adoro os persas. São inteligentes, trabalhadores e falam alemão. Mas quantos turcos falam alemão? Quantas famílias turcas vivem à conta do Estado?

– Somos um país cristão, não muçulmano.

Como jornalista imparcial, atiço a discussão, lembrando como a Holanda, a Suíça e a França são apenas alguns exemplos de países que começam a revoltar-se à direita. Como portuguesa a viver na Alemanha, admito parcialmente que não deve ser fácil ver dois povos que convivem a cada esquina e que no entanto não se misturam.

Uma prostituta alemã em Berlim dizia, numa reportagem de Renate Krieger: “não vou para a cama com turcos”.

À mesa, oiço a frase: “Odeio turcos. Mas não posso dizer nada por causa da maldita guerra.”

Porta aberta, boca fechada.

Brilho

De repente há Quem lhe abra os olhos, esses sem brilho.

Não sabe sequer se o isolamento foi voluntário, mas sabe que precisou do seu cantinho. Um cantinho que venera e que não é compatível com a necessidade de o deixar um dia.

Necessidade urgente, pois não é justo continuar a alimentar tão azedamente a imagem que criou sobre o país que a acolheu e que tanto elogiou, valorizou e valoriza. O país que lhe deu voz – literalmente -, que lhe abriu os tais horizontes, que a “abriu para o mundo”, como lhe disseram. Que lhe entregou tantas Amizades de mão beijada. E por isso não é justo acordar com a frustração de que o seu cantinho tenha residência exactamente no sítio com o qual perdeu empatia. Mais do que injustiça, seria ingratidão.

Adorava olhá-los a pedalar na bicicleta, porque nem o frio lhes rouba os hábitos saudáveis. Admirava o interesse deles pelo estrangeiro, sempre a perguntar de onde ela era e o que fazia. Vibrava com a língua. Brincava com a neve. Relaxava com a ordem.

Hoje, diz que são masoquistas por fazerem desporto sob temperaturas negativas. Perdeu a paciência para contar a sua história em alemão, vezes sem conta. Passou a preferir o inglês ao alemão. Escorrega na neve e diz asneiras. A ordem irrita-a: quer chegar ao metro e abanar as pessoas para que a olhem nos olhos, para que sorriam e, principalmente, para que falem. Com ela. Mesmo que logo a seguir ela perca a vontade de conversar.

Ouviu a história da amiga brasileira que, à conversa alegre com um compatriota no comboio, ficou perplexa depois de ouvir um homem lhes rosnar “a propósito, aqui na Alemanha fala-se baixo”.

O encanto esvaneceu-se. Pela rotina, pelo povo, pelo país. Mas logo se apercebe que perdeu também o encanto pela rotina mediática da sua Pátria e pela pequenez do seu povo. E aí, faz-se luz: talvez o problema esteja nela, não nos países.

É no isolamento do seu cantinho que começou a ouvir-se, em silêncio. Corpo e alma dizem-lhe que é hora de mudar, porque esta Alemanha que a acolheu, com todas as qualidades das quais todo o Português desconfia, simplesmente não merece este azedume.

Esta falta de brilho.

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