Tag: autocarro

Da montanha ao deserto em 29 horas

A pasmaceira de Iruya incluiu a busca por qualquer tipo de instrumento digital com acesso à internet que nos permitisse marcar transporte e alojamento para a nossa próxima paragem – a nada mais nada menos do que 1600 quilómetros dali.

Pois que em vão batemos à porta do único cybercafé da vila, com pouca luz e muitas moscas, meia dúzia de computadores-canhão de há 20 anos atrás. “No hay internet, chicas”. Conta-nos que a antena caiu. “Mañana“. É.

Fiámo-nos na folha de papel que a señora do quiosque nos mostrou, com horários de todos os autocarros que saíam daquele fim do mundo e arredores em direcção ao sul. Só não sabíamos se o papel também tinha 20 anos, pero bueno, não tínhamos alternativa.

Read More

Altitude

Acordar em Tilcara é como acordar no campo, no deserto e na montanha ao mesmo tempo. Sabe bem vestir roupas leves e sentir uma brisa matinal fresca, enquanto se saboreiam torradas com doce de leite e um chá (não de coca, apesar das folhas à mercê).

Cedo nos encontrámos com o guia local que nos acompanharia nessa manhã numa caminhada até às Cuevas del Wayra, a 2900 metros de altura, para ver o arco-íris da Quebrada de Humahuaca.

Uma caminhada que se revelou subida, dura, tórrida e seca, porém imponente e genuína. Para quem começa a saborear as maravilhas da meditação, a experiência auditiva foi – tal como em Iguaçú, por razões diferentes – a mais marcante. O raspar dos sapatos nas pedras do chão. Respiração ofegante. Brisa leve a chocar nos ouvidos. Água a balançar na garrafa. Sons que, se imobilizados, mergulham corpo e alma num som-a-nada sem descrição.

 

Read More

Meu Norte

Ta-ta-ta-rrra-ta-ta, ta-ta-rrrra-ta-ta, ta-ta-rrrra-ta-ta

Ao som do ritmo latino-repetitivo da cabine do motorista chegámos a Salta, capital da região com o mesmo nome. Ficámos especialmente felizes com a proximidade de novo alojamento – e eis que três posts depois tomámos banho!

Deixámo-nos levar pela descrição do hostel com piscina (ou um tanque pouco limpo), que nos trouxe um dormitório para quatro de dimensões modestas, janela para um átrio e por isso escasso em brisas, mas uma ventoinha velha que nos salvou a respiração e abafou qualquer possível ressonar das argentinas das camas de baixo. Nas várias casas-de-banho que tivemos a oportunidade de conhecer toma-se banho ao lado da sanita, com a boca do chuveiro quase em cima da mesma, e um limpa-vidros ao canto para varrer a água.

Não obstante, aquele banho fez disparar os meus níveis de felicidade.

Read More

Rumo à estrada

Toca a tirar as mochilas do depósito, onde tantas outras aguardam pelos seus donos para partir em novas aventuras. O rapaz que nos abre essa sala (luxo o desse hostel, que a maioria dos seguintes tinha apenas uma arrecadação sequer sem porta) fala o suficiente para eu lhe adivinhar o sotaque: “yeah I’m Australian”. Quando pergunto o que faz ele ali, remata-me com um sorridente “eu faço o que quero!”. Por outras palavras, um dos muitos backpackers que decidem parar por umas semanas, ganhar uns trocos e seguir viagem.

O check-out já estava feito, mas o ar molhado pela terra das cataratas pedia outro banho, até porque não sabíamos quando voltaríamos a ver um duche. Abre cadeado, tira toalha, toma banho, seca corpo, fecha mala, tranca cadeado, para chegarmos lá  fora de tal forma peganhentas que podíamos saltar directas para a piscina outra vez.

Despedimo-nos dessa piscina (a mesma que nos molhara os pés na noite anterior a ver as estrelas ao sabor de cerveza Quilmes), dizendo adeus ao casal australiano que ainda tomava banhos de sol, e à Alicia, argentina de meia-idade que partilhou o dormitório connosco, controladora de alimentos, a desfrutar ali das suas férias individuais antes que todo o dinheiro restante fosse gasto a levar a filha à Disneyland na Florida.

Read More

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén