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Maria Londres. Da decisão de ficar

Escrevi muitíssimo sobre Leipzig, bastante sobre Bonn, um bom bocado sobre Bruxelas, pouco sobre Genebra e quase nada sobre Londres – pelo menos na proporção do tempo que cá passei, que já quase iguala o alemão.

Esta é a quinta cidade e o quarto país onde vivo desde que deixei a minha Maria Lisboa, e várias razões explicam a ausência de palavras (d)escritas sobre a minha vida aqui.

Primeiro – e como minha desculpa recorrente – porque em Londres não há tempo. Até os meus amigos mais energéticos dizem que saem daqui cansados. Há que aprender a comprar bilhetes de metro rapidamente, a encostar à direita nas escadas rolantes para que outros corram à esquerda, e a olhar cuidadosamente para trás se quisermos ultrapassar; vem mesmo gente disparada lá de cima. Há que aprender a atirar as compras do supermercado para o saco antes que o next-customer-please nos pise os sapatos (rasos, que em Londres os saltos altos vão num saco de plástico na mala). Andamos todos a correr porque aqui não sobra tempo para tudo, ou muito, ou nada. Escrever é vítima.

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Bom de Bonn

Julias und Deboras Wohngemeinschaft

Absorvida pelo tal azedume, hoje recordei que Bonn teve tempos muitíssimo alegres. A  Julia Thoelen é a jovem alemã da minha idade, que sem me conhecer me escolheu entre muitos candidatos alemães para viver com ela, a partir de Janeiro de 2008 via Internet, só porque eu sou natural de uma cidade que ela adora e porque lhe disse que a melhor amiga alemã que fiz nos tempos de Leipzig também se chamava Julia . Sem me conhecer, foi buscar-me ao aeroporto de Colónia e levou-me para todas as festas e encontros com os amigos. Os sonhos eram mais ténues, simplesmente existia a vontade de continuar no país onde tinha sido tão feliz enquanto Erasmus. E numa Alemanha ocidental tão diferente, o ano de 2008 teve de facto muito de “bonn”.

***

Quase dois anos depois, o cinzento pesa como chumbo na mesma cidade. A Julia casou, mudou-se para Düsseldorf onde ainda hoje me recebe com a mesma magia, e com ela, de alguma forma, levou todos os amigos alemães que me tinham sido apresentados. Hoje recordámos os velhos tempos em Colónia. Sem que eu pudesse contestar, uma garrafa de vinho veio para a mesa e muitas perguntas de interesse pela minha vida-sem-fronteiras deram-me dor de cabeça para responder, afinal, alemão é língua que pouco falo hoje em dia. Sem problema – ela será sempre a minha professora mais paciente. E é com poucas pessoas que sinto o que a Julia me transmite: o verdadeiro sentido de Amizade, ainda que por vezes seja muito à sua maneira, quiçá necessário apontá-la na agenda.

Qualquer lugar depende das pessoas que o pisam, mas sobretudo daquelas que se cruzam no nosso caminho. Hoje relembrei que é possível, sim, ser feliz na Renânia do Norte – Vestefália.

Como nos velhos tempos, regressei à noite de Köln Süd para a metrópole de Bonn, no comboio Rhein-Express cheio como sempre. Sorridente, desta vez sem vontade de bater nos alemães carrancudos.

Um, dois, três Felizes Anos Novos

Setembro de 2006. Eis a viragem na minha vida, a partida para o tal Erasmus, tudo tudo tudo novo, aprendi a comunicar numa língua nova e senti a evolução diária. Foi tudo tão rápido. Conheci gente de todo o mundo, fiz amigos de diferentes países, chorei com a partida, alimentei clichés que afinal eram mesmo verdadeiros.

Voltei frustrada para a minha Lisboa, trabalhei de graça, questionei o jornalismo outrora tão sonhado, e regressei à Alemanha quase que por acaso, involuntariamente. Fruto de uma candidatura quase de olhos fechados, porque sabia lá eu o que queria. Nova cidade, Bonn e Leipzig parecem não pertencer ao mesmo país. Deixei de estudar, passei a trabalhar por dois meses.

Apaixonei-me pela rádio, aprendi muito e por isso quis ficar. Candidatei-me para tudo o que era sítio com a minha nova amiga Bettina, desde rádios comerciais em Berlim a apoio em serviços de catering ali na Renânia do Norte. Até que consegui a opotunidade de traduzir o website de uma agência de viagens “à nêv” de alemão para português. Aprendi umas coisas de marketing, conheci o verdadeiro ambiente de trabalho alemão, rígido – para não esquecer o “a Débora não vem hoje?” por ver o meu lugar vazio às 09:03. Foram seis meses difíceis, a Primavera e o Verão inteirinhos numa rotina desgastante e triste, a bicicleta para a estação, o comboio para Colónia, o eléctrico até essa grande empresa em expansão que em nada me preenchia. Mas tinha colegas de várias nacionalidades, muito queridos, também eles ficaram amigos. Muitas vezes saía à sexta-feira e corria para a rádio, onde trabalhava com gosto, madrugadas muitas, quem corre por gosto não cansa.

Mas eu cansei-me. Desisti – e fiz bem. Dediquei-me à rádio por mais uns meses, e estava feliz com isso. Decidi ficar… até que um e-mail me dá conta de uma vaga em Bruxelas, na máquina da Europa, por cinco meses. A candidatura também tinha sido enviada meio por acaso, nas curtíssimas férias de Verão em casa. Partiria dali a 2 meses. Recomeçou a correria. Cancelei tudo, despedi-me da Alemanha, deixei a custo a quarta casa que tive em Bonn num único ano.

Apanhei o TGV apertado para uma nova cidade, um novo país, duas novas línguas e aquilo a que acabei por chamar um segundo Erasmus. Se no primeiro dia não conhecia ninguém, ao fim de uma semana já tinha a memória do telemóvel cheia de novos contactos, nomes estranhos vindos da Croácia, da Dinamarca, da própria Bélgica. Novos amigos, duas casas, novas vivências, lista infindável de aprendizagens, muitos sorrisos e fotografias que os recordam. Tenho tantas saudades como as que tenho de Leipzig.

Mas tal como Leipzig, também Bruxelas terminou. No dia em que fiz 24 anos regressei a Casa, onde fiquei merecidamente dois meses. Decidi regressar a Bonn. A mesma cidade, nova casa. A mesma língua, novo ambiente. Deixou de haver novidade. Mas ficou a calma maturidade conquistada, sem querer, nas onze casas onde vivi nestes últimos três anos que tanto trouxeram à minha vida.

Para 2010? Só agradeço. E que todos tivessem as alegrias que, entre momentos de angústia, solidão e muito medo, aquele Norte me tem dado. Resta saber por quanto tempo.

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