Tag: Bruxelas

O terror empático

Je suis sick of this shit
Fiquei grudada à televisão no 11 de Setembro. A distância não impediu o meu peito adolescente de tremer nem a minha cabeça de fazer o luto por pessoas que não conhecia. Por causa de uns tais de terroristas.

Cresci, ocidental e pré-jornalista, a ver na televisão um Médio Oriente amarelo-seco com turbantes e barbas associados a gente doida. A mesma televisão que depois me contou sobre Londres e Madrid, numa era jornalística com imagens profissionais. Cidadã de um país no canto da Europa e de educação católica, quase fui forçada a ver a realidade muçulmana como diferente, estranha, longínqua.

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Maria Londres. Da decisão de ficar

Escrevi muitíssimo sobre Leipzig, bastante sobre Bonn, um bom bocado sobre Bruxelas, pouco sobre Genebra e quase nada sobre Londres – pelo menos na proporção do tempo que cá passei, que já quase iguala o alemão.

Esta é a quinta cidade e o quarto país onde vivo desde que deixei a minha Maria Lisboa, e várias razões explicam a ausência de palavras (d)escritas sobre a minha vida aqui.

Primeiro – e como minha desculpa recorrente – porque em Londres não há tempo. Até os meus amigos mais energéticos dizem que saem daqui cansados. Há que aprender a comprar bilhetes de metro rapidamente, a encostar à direita nas escadas rolantes para que outros corram à esquerda, e a olhar cuidadosamente para trás se quisermos ultrapassar; vem mesmo gente disparada lá de cima. Há que aprender a atirar as compras do supermercado para o saco antes que o next-customer-please nos pise os sapatos (rasos, que em Londres os saltos altos vão num saco de plástico na mala). Andamos todos a correr porque aqui não sobra tempo para tudo, ou muito, ou nada. Escrever é vítima.

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Troca de hemisférios

Bolo de limão à janela, cachecóis e bebidas quentes separados por uma mesa e um vidro, virados para o céu cujo tom não interessa para agora. Caso não saibam, é assim que eu gosto de escrever. (Podem refrescar memórias aqui.)

Foi há quase um ano que uma visita a Bruxelas decidiu o que se passou nas últimas semanas. Eu queria ir à Austrália e a Viviana queria ir à Índia. Queríamos ir juntas, mas não aos mesmos sítios. Gritámos ao seu flatmate croata que nos trouxesse o mapa mundo – prática comum nas casas desta gente globalizada – e sentámo-nos em cima dele à procura de um destino. O Brasil não seria justo porque “tu falas a língua e eu não”, e eis que o dedo desliza democraticamente para a Argentina.

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Os sites de viagens pregam partidas, sendo a mais conhecida a dos preços reduzidos se o click for feito a meio da semana. Se marcarmos duas viagens individuais em vez de uma viagem para duas, também se poupam umas libras (ou euros, ou pesos, ou dólares, que em quatro moedas se viveram três semanas, mas já lá vamos).

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Começou com garrafas de vinho vazias a promessas de coisas melhores, que nunca andamos satisfeitos. Uns dias de ressaca e o avião – o primeiro de vinte desde então, logo eu que deles desgosto – lá regressou ao monstro. O monstro já era mais apetecível, soube bem re-ouvir o mind the gap, há coisas do diabo.

Um ano de vivências de escritório, a avaliar pelo número de horas. Um ano a tentar perceber como se mantém a sanidade mental a comunicar entre cientistas de renome internacional e visão nacional, e programadores de uma ciência tão nobre como a das células humanas. (Eles também deviam ser doutores.)

Um ano em mesquinhices de dia-a-dia de escritório é suficiente para deixar escorregar a lembrança de que se trabalha pela tal causa. Felizmente, telefonemas e emails de voluntários acima dos 60 anos deram o tal abanão, como quem diz: “estás aí porque eu dou dinheiro para vocês investigarem por que raio a minha mulher teve de chegar àquele estado”. Há duas semanas, um dos nossos voluntários de 92 anos dizia-me ao telefone num inglês académico que gostava de poder ajudar mais, mas está de tal forma ancião que já nem pode guiar. Sabia lá ele que só o telefonema já me acordou à bofetada.

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Um, dois, três Felizes Anos Novos

Setembro de 2006. Eis a viragem na minha vida, a partida para o tal Erasmus, tudo tudo tudo novo, aprendi a comunicar numa língua nova e senti a evolução diária. Foi tudo tão rápido. Conheci gente de todo o mundo, fiz amigos de diferentes países, chorei com a partida, alimentei clichés que afinal eram mesmo verdadeiros.

Voltei frustrada para a minha Lisboa, trabalhei de graça, questionei o jornalismo outrora tão sonhado, e regressei à Alemanha quase que por acaso, involuntariamente. Fruto de uma candidatura quase de olhos fechados, porque sabia lá eu o que queria. Nova cidade, Bonn e Leipzig parecem não pertencer ao mesmo país. Deixei de estudar, passei a trabalhar por dois meses.

Apaixonei-me pela rádio, aprendi muito e por isso quis ficar. Candidatei-me para tudo o que era sítio com a minha nova amiga Bettina, desde rádios comerciais em Berlim a apoio em serviços de catering ali na Renânia do Norte. Até que consegui a opotunidade de traduzir o website de uma agência de viagens “à nêv” de alemão para português. Aprendi umas coisas de marketing, conheci o verdadeiro ambiente de trabalho alemão, rígido – para não esquecer o “a Débora não vem hoje?” por ver o meu lugar vazio às 09:03. Foram seis meses difíceis, a Primavera e o Verão inteirinhos numa rotina desgastante e triste, a bicicleta para a estação, o comboio para Colónia, o eléctrico até essa grande empresa em expansão que em nada me preenchia. Mas tinha colegas de várias nacionalidades, muito queridos, também eles ficaram amigos. Muitas vezes saía à sexta-feira e corria para a rádio, onde trabalhava com gosto, madrugadas muitas, quem corre por gosto não cansa.

Mas eu cansei-me. Desisti – e fiz bem. Dediquei-me à rádio por mais uns meses, e estava feliz com isso. Decidi ficar… até que um e-mail me dá conta de uma vaga em Bruxelas, na máquina da Europa, por cinco meses. A candidatura também tinha sido enviada meio por acaso, nas curtíssimas férias de Verão em casa. Partiria dali a 2 meses. Recomeçou a correria. Cancelei tudo, despedi-me da Alemanha, deixei a custo a quarta casa que tive em Bonn num único ano.

Apanhei o TGV apertado para uma nova cidade, um novo país, duas novas línguas e aquilo a que acabei por chamar um segundo Erasmus. Se no primeiro dia não conhecia ninguém, ao fim de uma semana já tinha a memória do telemóvel cheia de novos contactos, nomes estranhos vindos da Croácia, da Dinamarca, da própria Bélgica. Novos amigos, duas casas, novas vivências, lista infindável de aprendizagens, muitos sorrisos e fotografias que os recordam. Tenho tantas saudades como as que tenho de Leipzig.

Mas tal como Leipzig, também Bruxelas terminou. No dia em que fiz 24 anos regressei a Casa, onde fiquei merecidamente dois meses. Decidi regressar a Bonn. A mesma cidade, nova casa. A mesma língua, novo ambiente. Deixou de haver novidade. Mas ficou a calma maturidade conquistada, sem querer, nas onze casas onde vivi nestes últimos três anos que tanto trouxeram à minha vida.

Para 2010? Só agradeço. E que todos tivessem as alegrias que, entre momentos de angústia, solidão e muito medo, aquele Norte me tem dado. Resta saber por quanto tempo.

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