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Trabalho na sociedade de Alzheimer. “Onde é que trabalhas mesmo?”

Foi esta a reacção anedótica que tive ao longo dos últimos 20 meses, sempre que falava sobre o meu trabalho. E antes que me deixe afundar na informação do novo desafio, fica o pequeno relato da minha contribuição para o mundo nesta área.

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25 de Abril

É dia de comemorar o fim de uma ditadura que eu nunca conheci e por isso nunca vou julgar. É feriado no meu país e fala-se em Liberdade.

Eu estou a trabalhar; uso uma curta pausa para escrever isto. Há oito feriados por ano no Reino Unido. Todos eles colados aos fins-de-semana, a dificultar as idas a Casa. Mas ainda assim eu posso ir a Casa, com o meu dinheiro, e aproveitar o que o meu País tem de bom. E tenho o privilégio de saber que depois de lá ir regresso ao trabalho.

É verdade que esse regresso se faz muitas vezes à chuva. Mas hoje faz sol e cheira a pólen, de cravos e afins.

Estou grata por isso.

De baixo

Dá vergonha de nós mesmos apressar o passo quando alguém se curva ao nosso lado, sentado no chão, enrolado numa manta suja que faz à frente uma pequena cova a aconchegar moedas. Vai uma vida inteira naquela cabeça, azares múltiplos e adversidades que já não sabe como gerir. Dá vontade de nos curvarmos a fazer perguntas, a querer saber do que precisa e como podemos ajudar. Mas parece que a sociedade nos puxa para trás, não nos deixa pegar nestas pessoas e trazê-las para casa, adoptá-las para sempre ou simplesmente oferecer-lhes uma sopa quente e ouvidos de amigo por um serão. Como já não é Natal, não há desculpa para boas acções. Então apressamos o passo quando esse alguém pede esmola em silêncio, ao nosso lado, abaixo de nós, cabisbaixo, triste, infeliz. Fingimos que não vemos, concentramo-nos na música que nos entra nos ouvidos por um aparelho cujo preço lhe teria pago muitas refeições. Aconchegamos as mãos nos bolsos como gente estúpida e egoísta que não se lembra que enquanto as nossas mãos estão frias todo o corpo dele está gelado. Uns passos à frente o pensamento negativo esvai-se, porque o telefone toca – e o dia prossegue. Mais tarde fala-se em crise e limiar da pobreza, mas esquece-se a história humana que cada corpo curvado acarreta.

Desviar os olhos de um mendigo é desprezá-lo, e tudo o que um mendigo mais tem e menos precisa é de desprezo.

E depois?

Depois vimos para casa escrever sobre eles. Enquanto eles congelam lá fora.

“Somos um pequeno e desgraçado país”

Por Clara Ferreira Alves

Somos um pequeno e desgraçado país. Não somos pequenos e desgraçados porque sempre fomos; afinal não somos o Haiti, não somos a Bolívia, não somos a Serra Leoa, não somos o Uganda, não somos a Moldávia, não somos a Guiné; não somos assim porque nos fizeram assim, não fomos colonizados, não descendemos de escravos, não fomos deportados, explorados, invadidos, vencidos. A União Soviética não nos pisou com bota cardada e a Alemanha não nos ocupoiu. Tivemos um ditador e tivemos a revolução sem sangue e a criação da democracia e dos partidos. Tivemos os fundos europeus e a absorção de um milhão de retornados. Tivemos colónias, ouro, escravos e uma história que não nos envergonha. Temos uma longa e estabelecida nacionalidade. Temos a coragem e o génio de ter escapado a Castela. Temos a miscigenação, a lírica e a épica. Temos as descobertas e a geração de Aviz. Temos uma identidade e uma cultura, temos uma língua falada por milhões. Temos 800 km de praia e sol.

Temos muitas razões para sermos felizes. E não somos. Somos um pequeno, desgraçado e deprimido país que se queixa por tudo e por nada, que se detesta e detesta o sucesso alheio, que aniquila a qualidade e promove a incompetência, que deixou que a administração pública fosse tomada de assalto por parasitas partidários, por gestores imorais e por políticos corruptos ou que fecham os olhos e promovem a corrupção como forma de manutenção do poder. Somos um país sem esperança onde nada avança e nada acontece, como escrevia o poeta Ruy Belo.

Sai-se da pátria e regressa-se à pátria e as notícias são as mesmas; é como se o mundo girasse e nós parados. À espera do apocalipse. Tudo nos diz que amanhã será pior e toda a gente nos pede mais sacrifícios, mais penúria e mais infelicidade. É impossível levantar um país de vencidos ou convencê-lo a fazer alguma coisa por si. Leio as notícias sobre o extraordinário salário de António Mexia, da EDP, de 3,1 milhões anuais, e penso o que pensa uma pessoa normal: não vale a pena. Os velhos morrem de frio no Inverno porque não têm dinheiro para pagar “a luz” e o senhor energia tem um salário igual ao dos melhores 200 gestores americanos. Numa empresa falsamente privatizada que floresce num regime de monopólio e em que o Estado é o maior accionista. E aquilo é o salário, fora os benefícios e os cartões. Fora as reformas e as pensões. A permanente resignação perante a imoralidade é que nos torna passivos, fracos, assustados, irresolutos e cúmplices da delapidação do nosso dinheiro. E um governo socialista autorizou isto e promoveu isto. E pior do que isto. não se trata de premiar o mérito, trata-se de premiar a estupidez. Porque deixamos isto passar.

Imagine-se que nos acontecia uma verdadeira desgraça. Quando Wall Street veio por aí abaixo eu estava em NY e fui a Wall Street. Vi banqueiros e financeiros saírem de cabeça coberta por jornais a meterem-se nos buracos do metro, envergonhados. Insultados. O mundo pensou que era o fim do seu mundo. Que o sistema capitalista tinha acabado. Etc. O capitalismo não acabou, nem vai acabar. Regenerou-se no que foi obrigado. A linguagem e a política que Obama adoptou tiveram efeitos. A América sai da crise, com os seus desempregados. A seu modo, brutal, corrige as falhas. Ali, a política ainda conta e o sistema de justiça funciona (com erros e defeitos) e faz funcionar a democracia. Acima de tudo, os americanos acreditam na América e têm o optimismo do copo meio cheio. A América, um grande e engraçado país, não perde tempo em lamúrias. Já se fazem piadas sobre o 11 de Setembro e sobre o crash das bolsas e dos bancos. A América reconstrói-se todos os dias e recomeça. Analisar a vitória política de Obama com o seu Plano de Saúde é uma lição de política, tanto para os republicanos como para os democratas.

A América é um país que corre para a excelência e que rejeita a mediocridade. E a um ciclo de mediocridade segue-se um de excelência porque a rota corrige automaticamente. O sistema autocorrige-se na passagem do tempo. As torres que vão surgir no WTC serão as mais altas do mundo. Esta dose de megalomania é saudável porque toda a gente precisa de símbolos e modelos. Em Portugal, deixámos de ter símbolos e não temos modelos. O português mais influente é um jogador de futebol. O segundo mais influente é um treinador de futebol. E ponto final. Temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem história ludibriada por autodidactas ou por rapazes com cursos tirados no estrangeiro que chegam a Portugal com um objectivo: enriquecer. Enriquecer à sombra do partido, do padrinho na banca e do Estado. De nós. E a justiça trata de si e dos seus privilégios. Somos um pequeno e desgraçado país.

In revista Única, Expresso, 10/04/2010

Mãe Merkel e os seus 5 porquinhos

Era uma vez uma mãe de cinco porquinhos. Chamava-se Merkel, era generosa e intransigente.

Um dia, começou a estranhar o facto de os seus cinco porquinhos se queixarem com tanta frequência de não terem dinheiro.

Porquinho P: Mãe, preciso de um telemóvel novo.

Porquinho I-1: Mãe, estou sem dinheiro sequer para beber umas Guinness!

Porquinho I-2: Mãe, ainda dá para jantar fora de vez em quando, mas já nem saio à noite com os meus amigos…

Porquinho G: Mãe, emprestas-me dinheiro? Estou a dever a um amigo…

Porquinho S: Mãe, a minha semanada já nem chega para um pratinho de tapas.

A mãe Merkel olha para os cinco porquinhos, intrigada. Sabe que tem sido uma mãe ausente, mas sempre ajudou os seus filhos. Sabe que eles estudam, mas também sabe que podiam esforçar-se mais. Fitando os olhos dos cinco porquinhos, respondeu:

Chegou a hora de vocês serem mais responsáveis. Sempre que precisaram de alguma coisa, eu ajudei. Mas não vos vejo a poupar, algo que vos ensinei desde pequeninos.

Tu, I-1, que já tiveste tanto dinheiro, o que se passou para perderes tudo?

E vocês, I-2 e S, sempre vos tomei como tão bons exemplos por saberem distinguir trabalho de diversão… também me vão desiludir?

Quanto a ti, G, estou farta de te dizer para não pedires dinheiro emprestado a toda a gente. Já nem sabes quanto deves a quem! Sabias que isso é muito feio?

E tu, P, não te rias do teu irmão, que qualquer dia vais pelo mesmo caminho. Ou julgas que eu não sei que tens a mania das grandezas e gastas dinheiro em parvoíces?

Os cinco porquinhos olharam para a mãe, assustados. Não sabendo responder às suas perguntas, pediram em uníssuno:

– Vá láááááá….!

A mãe estava determinada.

– Não. Desta vez não me convencem. Já falei com o vosso pai, que apesar de ser um vadio, é responsável.

O porquinho P interrompeu:

– O Nicolas não é meu pai!

A mãe levantou a voz:

– Vou fingir que não ouvi isso. Bom, eu falei com ele e decidimos que de uma vez por todas vocês têm de aprender a organizar-se. Juntem-se, façam uma vaquinha, peçam desculpa a quem devem dinheiro, pode ser que eles deixem passar, ou façam o que vos apetecer. Como costuma dizer o vosso irmão P,  “desenrasquem-se”. Vocês são maiores e vacinados, por isso toca a trabalhar. Comigo não contem mais.

A mãe Merkel dirigiu-se para a porta da rua, deixando os cinco porquinhos desnorteados. Antes de bater com a porta e sair, rematou:

– Ou peçam dinheiro ao vosso querido avô, que nunca vos nega nada. Mas por favor não deixem os outros netos dele saberem, senão depois quem ouve sou eu.

Da Cidade que Nunca Dorme I: A crise dos 20 dólares

[Porque há doze anos vivia-se a era pré-Bush, pré-terrorismo e pré-crise e porque o olhar amadureceu também doze anos.]


A forma mais calma e menos consumista de passear por China Town é de headphones nos ouvidos, música preferencialmente bem alta. Caso contrário, até a atravessar a passadeira somos bombardeados com um, dois, três chineses  a sussurrar alto “Rolex? Handbag? Watches?”.

Para o turista, US$ 20 é a palavra de ordem. Vinte dólares para entrar no Smalls Jazz Club, vinte dólares para ver a exposição do Tim Burton no Museu de Arte Moderna MoMA, vinte dólares para tomar um pequeno-almoço americano, vinte dólares para subir ao topo to Empire State Building, vinte dólares por duas sandes e dois cafés no Starbucks.

Há doze anos, as limousines eram uma constante nas ruas de Manhattan. Doze anos depois, ainda que comuns, foram assumidamente comidas pela crise.

O Cartão de Crédito, a Tax e a Tip são a praga mais irritante da economia norte-americana. O chip, o pin e a assinatura do cartão são perfeitamente ignorados; para pagar, basta literalmente passar cartão. Imagine-se o pânico quando deixei a carteira vermelha camuflada na toalha vermelha de um restaurante indiano. Já o IVA e a gorjeta são a camuflagem do capitalismo no seu expoente máximo: se 20 dólares já parece muito, imagine-se as taxas. E nem se imagine a cara furiosa do motorista do autocarro para o aeroporto JFK (que conduziu à velocidade da luz e quase nos partiu as malas ao atirá-las para a bagageira) quando não lhe demos umas notas para a mão como os outros: “you gotta have money! Everybody gives a tip! That’s no good, ma’am!”

A tecnologia impera. No metro, todos mantêm uma relação unilateral e concentrada com os seus smart phones e leitores mp3. Se até há pouco tempo telefones-bebés estavam na moda, agora a moda é americana: quanto maior, mais visível – melhor. E ao pedir indicações a uma jovem mãe sobre a estação de metro mais próxima, eis que ela pega no seu iphone, faz-lhe umas festas e responde “orange line, next street to the right”.

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