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Fecha-se o ciclo

Leipzig 2007-2017

Dizem que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Eu, que nem sou de riscos, resolvi vir parar a Leipzig dez anos depois do ano em que senti uma concentração tal de felicidade que parecia nem caber em mim.

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Mundo à mesa

Convém lembrar-me a mim própria destas maravilhas tornadas rotina. Ontem um amigo uruguaio recebeu-nos em sua casa, onde vive com uma australiana, para uma noite de raclette alpina cozinhada pelo nosso amigo francês (aquele que já mencionei várias vezes neste blog, de nacionalidade confusa: o máximo que viveu num país foi no Senegal por quatro anos).

Então estávamos à mesa com França, Uruguai, Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, Portugal e Singapura. A sobremesa foram alfajores argentinos, e entre as garrafas de vinho estava uma da África do Sul. Onde por acaso o tal francês também já viveu.

Se tivesse havido carne de vaca no prato, quem sabe não tivéssemos tido a Roménia à mesa também.

Seis anos

Repito-me nesta enumeração de anos e de cidades, e na escrita cá de longe sobre lá em casa, ou vice-versa. Mas hoje, quanto mais não seja porque é a centésima vez que escrevo neste terceiro formato da diletante, tenho mesmo de partilhar.

Faz hoje seis anos que fui embora.

Que deixei de viver em Portugal, país onde hoje vou apenas em transição.

Seis geralmente não atrai, mas no meu caso é um número redondo, qual círculo. Andei em frente meia presa ao lá atrás, ao por que fui, ao como será depois dos seis. Agora os seis chegaram, ou aliás passaram, e com eles a luz verde para seguir. Sem querer, esperei. E quão irónico é constatar, chegando à meta final, que afinal os seis não estavam assim tão longínquos. Nem tão pouco me prometeram o que quer que fosse. Já não é preciso esperar.

Destes seis, dois foram neste monstro intrigante. Cidade que suga: tempo, espaço, vontade. Cidade de contrastes, de saltos altos aos trambolhões e batons borrados, olhos revirados do álcool a cada esquina. Esta cidade explode arte, cultura e música – que eu nunca absorvo porque tenho tempo para ver depois.

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Cá vai

O comentador anónimo que costuma assinar como “resposta dois”, três, quatro, de identidade intrigante, lamenta que eu não escreva há dois meses.

Pois a verdade é que, como diz o post anterior, as palavras já não saem como antes. Tantos neurónios gastos a aprender alemão, sem nunca ter posto o meu português de parte, para hoje a simplicidade do inglês se ter sobreposto às duas línguas que mais estimo.

É preciso fazer o esforço de fechar a nossa concha, deixar os horários dos transportes, a agenda e saltar lá para fora. Passear no nosso parque favorito e saborear o reflexo do sol frio na neve sobre a relva, os cães que espelham os donos, os lagos cristalizados, as caminhadas pensativas, as crianças em trenós, os casais de luvas dadas.

E é preciso reviver as tardes pelas quais me apaixonei em Leipzig: sentar-me num café e escrever.

Sorrir à senhora que owns a Kentish Canteen e pedir-lhe um bolo de limão e um chá de menta fresco. Preparar os dedos e dar-lhes ordens para escrever o que para aqui vai. Ao som das músicas nostálgico-deprimentes que estaria a ouvir em casa anyway.

Já passaram mais de cinco anos desde que tudo isto começou. É recorrente falar nestes termos, eu sei. Mas afinal somos a vida que levamos – e o meu “cá longe” é este. É hoje olhar pela janela e ver um autocarro vermelho de dois andares e lembrar-me que nestes cinco anos e meio vi canais, o Reno, o mar do Norte, o berço da Europa, o lago Léman.

Cinco anos que são ainda uma fase em processo, daquelas que todos temos. Fases com direito a recordações, que nos fazem olhar para trás e comparar com o que éramos antes. Depois, tendemos a fazer a análise errada: ou nos martirizamos demais pelo que não aconteceu (ou aconteceu mal), ou pensamos em se’s, ou planeamos o futuro e esquecemo-nos de aproveitar o today.

Estou há vários minutos a tentar escrever o próximo parágrafo. Acho que deixei de saber escrever o que para aqui vai.

 

Ir-landa

Para mim, viajar é cada vez menos marcar um ponto no mapa e ir visitar o que é suposto. Não tenho guias. E evito mapas, porque quem me conhece sabe que me perco de qualquer forma. Museus, só os que tem de ser. É injusto valorizar os museus dos outros se não conheço os meus praticamente desde que saí da escola. Este verão voltei ao Museu dos Coches. Uma prática a manter.

Para mim, viajar é cada vez mais sinónimo de visita e de recordação. É visitar quem foi família noutras fronteiras. E pisar um novo país é conhecer a forma como nele se vive, como as pessoas se dirigem umas às outras, como a crise se reflecte no seu dia-a-dia, como se reage ao bom ou ao mau tempo, como os jovens sobrevivem e pensam no seu futuro.

Eu e duas amigas norte-americanas, uma do Texas e outra do Iowa, apanhámos um táxi para o aeroporto antes das quatro da manhã. A Ryanair, uma autêntica feira no ar, não nos deixou compensar o sono. Viagem curta até ao país vizinho: Irlanda. Chegadas ao hostel, sem planos, vimos que haveria uma caminhada guiada por Dublin. Uma rapariga muito bonita, com um sotaque irlandês delicioso, contou-nos com emoção a história do seu país, claramente influenciada pelas histórias contadas pelo seu avô. Um país de independência recente e ainda muito ferido pela guerra civil entre católicos e protestantes.

Nessa noite, chegámos ao quarto do hostel que tínhamos deixado vazio e sentimos um odor abominável que indicava a presença de alguém a ocupar uma das oito camas. Eis o preço a pagar para poupar dinheiro numa cidade em que uma pint de Guinness custa cinco euros. Na manhã seguinte, a personagem acorda: um punk nauseabundo, mas simpático: “agasalhem-se, que vem aí uma tempestade.” E então reparamos na presença de outra personagem no quarto, chegada a meio da noite em pés de lã, ao estilo da sua nacionalidade: austríaco, timidamente alegre nas suas primeiras horas de Erasmus. Primeiro, lembrou-me da sorte que tem em começar os melhores meses da sua vida. Depois, lembrou-me Viena.

Em poucas horas, estavam à mesa a minha família irlandesa de Leipzig, um austríaco que se inspirou nas nossas histórias, duas norte-americanas de Londres e o meu ombro italiano em Bruxelas. Viajar é visitar lembranças.

Se Dublin é, para muitos, uma cidade desinteressante ou insípida, para mim é muito acolhedora. Uma cidade que, esquecendo o vento de chuva gelada quase constante, nos convida a habitá-la. Como uma aldeia grande, limpa, desenvolvida e cheia de pessoas bem-dispostas. E Dublin é perto do resto da Irlanda, daquele verde imenso por onde um dia hei-de caminhar.

A lembrar como a Irlanda foi empatia, lá longe na antiga Alemanha oriental.

Julho 2007

 

In Ireland you’re grant.

 

Um, dois, três Felizes Anos Novos

Setembro de 2006. Eis a viragem na minha vida, a partida para o tal Erasmus, tudo tudo tudo novo, aprendi a comunicar numa língua nova e senti a evolução diária. Foi tudo tão rápido. Conheci gente de todo o mundo, fiz amigos de diferentes países, chorei com a partida, alimentei clichés que afinal eram mesmo verdadeiros.

Voltei frustrada para a minha Lisboa, trabalhei de graça, questionei o jornalismo outrora tão sonhado, e regressei à Alemanha quase que por acaso, involuntariamente. Fruto de uma candidatura quase de olhos fechados, porque sabia lá eu o que queria. Nova cidade, Bonn e Leipzig parecem não pertencer ao mesmo país. Deixei de estudar, passei a trabalhar por dois meses.

Apaixonei-me pela rádio, aprendi muito e por isso quis ficar. Candidatei-me para tudo o que era sítio com a minha nova amiga Bettina, desde rádios comerciais em Berlim a apoio em serviços de catering ali na Renânia do Norte. Até que consegui a opotunidade de traduzir o website de uma agência de viagens “à nêv” de alemão para português. Aprendi umas coisas de marketing, conheci o verdadeiro ambiente de trabalho alemão, rígido – para não esquecer o “a Débora não vem hoje?” por ver o meu lugar vazio às 09:03. Foram seis meses difíceis, a Primavera e o Verão inteirinhos numa rotina desgastante e triste, a bicicleta para a estação, o comboio para Colónia, o eléctrico até essa grande empresa em expansão que em nada me preenchia. Mas tinha colegas de várias nacionalidades, muito queridos, também eles ficaram amigos. Muitas vezes saía à sexta-feira e corria para a rádio, onde trabalhava com gosto, madrugadas muitas, quem corre por gosto não cansa.

Mas eu cansei-me. Desisti – e fiz bem. Dediquei-me à rádio por mais uns meses, e estava feliz com isso. Decidi ficar… até que um e-mail me dá conta de uma vaga em Bruxelas, na máquina da Europa, por cinco meses. A candidatura também tinha sido enviada meio por acaso, nas curtíssimas férias de Verão em casa. Partiria dali a 2 meses. Recomeçou a correria. Cancelei tudo, despedi-me da Alemanha, deixei a custo a quarta casa que tive em Bonn num único ano.

Apanhei o TGV apertado para uma nova cidade, um novo país, duas novas línguas e aquilo a que acabei por chamar um segundo Erasmus. Se no primeiro dia não conhecia ninguém, ao fim de uma semana já tinha a memória do telemóvel cheia de novos contactos, nomes estranhos vindos da Croácia, da Dinamarca, da própria Bélgica. Novos amigos, duas casas, novas vivências, lista infindável de aprendizagens, muitos sorrisos e fotografias que os recordam. Tenho tantas saudades como as que tenho de Leipzig.

Mas tal como Leipzig, também Bruxelas terminou. No dia em que fiz 24 anos regressei a Casa, onde fiquei merecidamente dois meses. Decidi regressar a Bonn. A mesma cidade, nova casa. A mesma língua, novo ambiente. Deixou de haver novidade. Mas ficou a calma maturidade conquistada, sem querer, nas onze casas onde vivi nestes últimos três anos que tanto trouxeram à minha vida.

Para 2010? Só agradeço. E que todos tivessem as alegrias que, entre momentos de angústia, solidão e muito medo, aquele Norte me tem dado. Resta saber por quanto tempo.

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