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Paremos de fingir que está sempre tudo bem

(read in English)

…e falemos sobre saúde mental. Basta de partilhar cores e sorrisos, de ler sobre conquistas e viagens de sonho. Há momentos cinzentos que precisam de ser gritados – que a vida é mesmo assim e a dor partilhada custa menos

É só com a postura de hoje que consigo meter mãos à obra, ou dedos às teclas. Por isso conto um episódio já recente que muito me marcou, quando fui a uma conferência em Gainesville, uma pequena cidade universitária no Norte da Florida, Estados Unidos, no Inverno que passou.

Foram quatro dias apertados, dois deles de viagem; talvez daí tenha sido tudo tão intenso. O meu estado era já de maior clareza sobre mim mesma, sensível a histórias que inspiram, a pessoas, músicas e espaços.

debora miranda na conferência frank, onde se partilham exemplos de como a comunicação pode melhorar o mundoEsta é uma conferência pouco convencional: chama-se frank e junta profissionais que acreditam que a comunicação, quando bem feita, pode melhorar o mundo. Sendo ela muito humana e sobretudo num estilo muito norte-americano, deixei-me levar pelas experiências genuínas de dezenas de pessoas – e ferveu-me a necessidade de também lançar ao ar os meus pensamentos. Talvez assim se fizesse empatia.

A fervura foi tal que, num dos três voos de regresso (Gainesville – Miami – Londres – Lisboa), depois de meses a lutar para que as palavras me saíssem, escrevi:

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África

Histórias de família em era de guerra colonial em Moçambique. Histórias de família recém-criada, embarcada para Cabo Verde ao arranque dos anos 80. Histórias de família contadas à mesa ao longo de vinte e muitos anos. Ao fim de vinte e muitos anos, fui eu pisar solo africano pela primeira vez. Vinte e muitos anos atrasada.

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América

Como em quase tudo, também o olhar amadurece com o tempo. Quando era adolescente o sotaque americano maravilhava-me, sob memórias daquela viagem longínqua ao paraíso infantil nos trópicos da Florida.

Lembro-me de aprender a andar de patins entre os carros psicadélicos de Miami beach, das barbatanas de golfinhos ou tubarões que avistámos quando nadávamos a muitos metros da costa, do bafo estranhamente húmido à saída do aeroporto, da chuva torrencial que caiu de repente junto aos foguetões da Nasa, da placa anunciando Portuguese-men-of-war na ponta de Key West, dos crocodilos camuflados nos pântanos, de outros animais tropicais, das praias de areia branca e água quente e cristalina.

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Vinte anos depois Miami pode não ter mudado, mas é um lugar mudado aos meus olhos. É o expoente máximo de um sonho americano que hoje desponta relações de amor-ódio.

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Da cidade que nunca dorme III: Alimentação e incoerência reciclam-se

French Toasts: Aquilo por que mais esperei. Pão de forma frito em ovo, barrado com manteiga, polvilhado com açúcar em pó e mergulhado num banho de Syrup. Uma bomba. De felicidade.

As french toasts pesam na consciência, não só pela quantidade de calorias que possuem (não sei, não quero saber e tenho horror a quem sabe), mas pelo lixo que produzem. Senão, vejamos um pequeno-almoço num café comum em Midtown onde, sublinhe-se, nos sentámos a comer:

O chocolate quente vem num copo de papel, com tampa de plástico. O café vem num copo de papel, com tampa de plástico e dois pacotes de açúcar. A omelete vem numa embalagem de plástico, tapada com tampa de plástico. As french toasts vêm numa embalagem de plástico. Os talheres são de plástico. Os guardanapos de papel são vários. Peço o syrup, que não me entregam em frasco, mas sim em duas pequenas embalagens de plástico como se fosse molho de batatas fritas. E tudo isto é-nos entregue à mesa. No fim, com sede de reciclagem, pedimos um copo de água: vem um copo de plástico, tampa de plástico e palhinha embalada em papel.

Para as excepções há desculpas e até soluções. Mas quando se faz destes hábitos a regra, o caso é ridículo, grave e preocupante. Em noventa por cento dos cafés deste tipo, não deve sequer haver máquina de lavar loiça. Talvez nem água. Come-se e deita-se o que resta para o lixo – um lixo comum. As simpáticas canecas do Starbucks, que pelo menos na Alemanha servem para servir bebidas a quem consome dentro do café,  nos Estados Unidos não saem da prateleira de vendas. Quem bebe um café dentro do Starbucks, bebe-o num copo de plástico e com tampa, não vá fazer frio lá dentro.

Talvez o peso na consciência só diminua com o prazer de beber um café, sentada à janela de vidro, vendo a correria de Manhattan lá fora.

“Não é à toa que os Estados Unidos são os maiores poluidores do mundo”. Obama desiludiu em Copenhaga. Mas antes que justifiquem a vaga de sismos, de cheias e de neve com as alterações climáticas, Washington dá ajudas gastronómicas a quem (sobre)vive catástrofes naturais.

Compre já: mil e um tratamentos, livros, vitaminas, exercícios e marcas para emagrecer. O norte-americano aposta mais no tratamento e menos na prevenção. A televisão está contaminada pela epidemia dos anúncios de televendas anti-peso dos anos 90. Um atraso difícil de acreditar, para quem pisa o chão de uma potência mundial.

Em Nova Iorque esquece-se que existe tabaco; se alguém estiver a fumar, estará provavelmente escondido. Mas a obesidade cruza as suas ruas perpendiculares e a fast food é um amigo sempre à disposição.

Spice Market: Um restaurante de tons e paladares orientais no cativante bairro de Greenwich Village.

Depois de ouvirmos o “how are you?” do porteiro, da responsável pelas reservas e do senhor do bengaleiro, descansamos no banco do bar enquanto esperamos por um amigo. A carteira só deixou entrar num espaço assim por uma vez, na semana de encanto em Nova Iorque. Por isso vamos desfrutar: um copo de vinho branco para cada. “Let me see your I.D.’s, please”. Para mim o gesto já é automático, mas a minha irmã, enquanto tira o passaporte da mala, sente-se ferver de intriga. “Is it because of the age?”…

A empregada aponta para mim e rosna “Yes, SHE looks REAAAALLLLLLY YOUNG.”

Na América não se pode vender álcool a menores de 21 anos, mas pode-se conduzir aos 16. E não vamos falar de armas de fogo.

Depois de fazer as contas com o meu B.I., a empregada sorri e entrega-me o copo. Há dias em que estes episódios me fazem comichão, mas naquela noite foi-me indiferente. Afinal, I’m a young girl in New York City.

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