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Essa pressão de sermos gratos pelo que temos

“Aproveita a vida que ela é curta, agradece pelo que tens,
Deus castiga-te se te queixares demais, já viste tanta gente a morrer à fome?”

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Nasceste assim, criança feliz: de covinhas sorridentes, braços abertos e pneus acima do valor recommendado. Sorrias como quem já agradecia por essa vida perfeita de comer e dormir, no pico de um verão ainda sem buraco do ozono.

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Amigas

Para quem não sabe, hoje é o Dia das Amigas.

Só soube da existência deste dia ao fim de muitos anos de partilha de experiência com elas. Mas nunca é tarde; e por isso hoje é a Elas que deixo estas palavras. Com as minhas amigas eu joguei à macaca, às escondidas, às barbies, mas também lhes puxei os cabelos e disse-lhes umas quantas vezes “nunca mais sou tua amiga”.

Uns tempos depois falei com elas sobre rapazes e ídolos de música. Passava fins-de-semana em casa delas ou elas vinham à minha e assim pertencíamos às famílias uma da outra por alguns dias. Depois a minha mãe ligava à mãe delas para agradecer, enquanto nós ríamos e conversávamos sobre assuntos leves e de pouca ou nenhuma responsabilidade – mas que nos ocupavam toda a atenção. Nessa altura não havia telemóveis nem chats na internet; gastávamos rios de dinheiro a falar ao telefone de casa até a minha irmã me obrigar a desligar para poder falar com o namorado.

Tive grandes amigas com quem me zanguei por razões estúpidas; até hoje mantemos silêncio não sei porquê.

Uns tempos depois deixei de ver as minhas amigas com tanta frequência e conheci outras, de outros meios, de outras cidades, de outras realidades. Fiz mais amigas. E depois fui deixando de ver essas amigas todos os dias, mas continuei a contar com elas. Cheguei a outras cidades e outros países e voltei a ter a sorte de sentir empatia por outras “elas”, de idades e línguas diferentes. Também ficaram minhas amigas.

Hoje em dia tenho amigas a casar nos quatro cantos do mundo.

Hoje estou longe de quase todas as minhas amigas mas faço tudo o que posso para que elas me sintam perto e disponível.

Hoje sei que o bom da Amizade é que, por mais que muitas delas cresçam, há sempre espaço para mais uma.

Desde criança

Desde criança que tenho cara de criança.

Em criança tinha 7 chuchas (sete!!!) e delirava se perdesse uma de vista. Adorava belinhas, aquelas bolachas redondinhas de chocolate. E tinha um triciclo, azul, lá no monte.

Em criança tinha medo da velha do quarto, que eu teimava que me aparecia na janela com uma vassoura na mão. E quando brincava, a minha irmã fazia-se de morta para me assustar. Depois desatava às gargalhadas na minha cara.

Em criança eu era maria-rapaz e não gostava de barbies. A Irmã Hall não me deixava entrar no colégio despenteada. Acho que era por isso que a Mãe e a Baba gostavam de me fazer de boneco, vestiam-me às riscas com bolas e punham-me baton.

Era uma criança brutinha quando queria. Traquinas. Eu e a Tatiana punhamos as couves no bolso da bata preta sem as Irmãs verem. Ainda hoje não gosto de couves cozidas.

Desde criança que sou viciada em KitKat. Esperava que a Baba comesse o dela e só então começava o meu, para não ficar com vontade de arrancar o dela das mãos.

No Dia da Criança pedia sempre uma caixa de lápis de cor da Caran D’Ache. Um ano recebi uma enorme, de madeira; tinha 80 lápis. Mas eu não queria usá-los, porque se tivesse de afiá-los, não iam ficar direitinhos na caixa. Desde criança que a minha irmã se irrita com as minhas manias poupadas e organizadas. Hoje chama-me alemã.

Quando era criança ia para Porto Covo, uma vila quase deserta. E para Vilamoura. A marina não tinha ninguém. E eu usava braçadeiras na praia. Na Costa da Caparica, eu e a Baba apanhávamos pulgas da areia que guardávamos em maços de tabaco. O areal não tinha fim.

Passávamos muito tempo no Minho, a andar de bicicleta e a tomar banhos gelados no rio. Fomos à Holanda de carro. E à DisneyWorld em Orlando. Mas a Baba lembra-se melhor do que eu.

Nos tempos de escola, o Pai e a Mãe ficavam em casa para eu e a Baba estudarmos.

É por isso que escrevo estas memórias aqui, de tão longe.

Fui uma criança feliz.

Amor às cores.

O amor é um pássaro verde

num campo azul

no alto da madrugada.

Vítor Barroca Moreira
9 anos

in A criança e a vida , colectânea de textos infantis, por Maria Rosa Colaço

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