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Brexit? Não me levem a Europa que tão feliz me tem feito

Um pedido a poucas horas de se conhecer o resultado do voto

Cépticos, incluindo eu, de que a Europa em que a minha geração cresceu tenha futuro. It’s all fucked up, dizemos enquanto galgamos cervejas, como se não houvesse esperança. Eu, pessimista por natureza, vou na conversa, acreditando também que se isto ou aquilo acontecer vamos pelos ares.

Vamos pelos ares porque nos tornamos divididos, como se não nos valesse então nenhum avião para nos dizer que somos parte de uma União cheia de história e cujos benefícios tomamos hoje por garantidos. Vamos pelos ares qual bomba que não sabe o que foi este território há tão poucas décadas, dizimado por outras bombas, aleatórias, enviadas pelo ódio e por argumentos desfundamentados.

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O que somos, consoante onde estamos

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As notas de rodapé televisivas diziam que as resoluções de ano novo (ai a conveniência dos estrangeirismos atropelados) são emagrecer, ir ao ginásio e deixar de fumar. Parece-me tão obviamente português que me ponho a pensar qual seria a lista na Inglaterra que me adoptou: provavelmente viajar para algum país ainda desconhecido, mudar de trabalho e beber menos unidades alcoólicas por semana.

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O nariz inglês

O ser humano está permanentemente insatisfeito. Talvez por isso eu acabe sempre por me queixar de alguma coisa. O azedume na Alemanha passou agora para terras de sua Majestade e ganhei tendência para dizer que os alemães eram muito melhores em muitas coisas do que os britânicos. Haja paciência para mim.

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Para que fique claro, estou consciente que generalizar é um erro, mas aposto que também eles criam a sua própria imagem em relação a nós.

Os alemães podem enervar qualquer ser espontâneo q.b. com a sua paranóia por horas, agendas e desprezo por cerimónias se for preciso ser frontal, franco e directo (para não perder tempo, esse bem precioso que deve ter sido inventado por eles). Já os britânicos são paranóicos com as boas maneiras e banalizam os termos “I’m sooo sorry” ou “that’s brilliant”, para no fim – sobretudo eles – se arrastarem em coma alcoólico, saltos altos nas mãos e pé descalço sobre a calçada molhada. Ah, isso de chuparem os dedos depois de comerem com as mãos e logo a seguir limparem-se à roupa é comum ao norte em geral. Hábitos de guerra, talvez?

Mas o que mais me intriga é a abertura ao estrangeiro. “Ausländer” soava-me muito mais pejorativo do que “foreigners” e no entanto é em solo britânico que parece haver mais desinteresse em relação aos estrangeiros. Londres pode não ser representativo do Reino Unido (e nem os milhões em Londres se deixam representar em meia dúzia de palavras), mas também me baseio nos ingleses com quem tenho convivido – e que vêm dos cantos recônditos do país para Londres, onde ao que parece já fiz mais amigos do que eles.

Quando eu cheguei a Leipzig, na Alemanha, de olhos e ouvidos esbugalhados para assimilar aquela língua-come-tostas, ouvia permanentemente perguntas sobre o meu país solarengo, como dizer esta ou aquela palavra em português, como é o governo em Portugal. De homens, mulheres, novos e velhos.

Aqui? Aqui quando comento que até as portas abrem do lado esquerdo, recebo como reacção um “really? Is it different in Europe?”.

Talvez eles queiram mesmo manter o seu estatuto de ilha.

(E alguém ao meu lado no metro olha intrigado para o que estou a escrever).

Mas tenho a dizer que isso só lhes fica mal, pois esquecem-se da quantidade astronómica de “foreigners” que dá vida – e dinheiro – à capital deles.

Ao fim de três anos de vida alemã eu estava cansada de repetir o mesmo discurso: por que vim para a Alemanha, onde aprendi a falar alemão, como é o trabalho na Deutsche Welle e qual é a taxa de desemprego em Portugal. Aqui? Aqui não me lembro de nenhum britânico me ter abordado para perguntar o que quer que fosse sobre a minha cultura sem eu primeiro fazer algum comentário. E mesmo que eles não gostassem de Portugal “for some strange reason”, eu até podia ser uma fonte de informação sobre a Alemanha ou Bruxelas… mas nem isso.

A semana passada foi curricularmente diferente: “Public Administration week”, que é como quem diz uma semana intensa de politica para todos os que estão a fazer “cursos domésticos”. Eu tive de ir. Em quatro dias de aulas, duas modestas horas foram dedicadas à União Europeia e relações internacionais. Deixo-vos com uma mini-réplica, o mais fiel que consegui fazer, do momento que mais me arrepiou até agora neste meu novo país, protagonizado pela professora, uma conceituada jornalista de politica:

“O eurocepticismo é uma característica forte do nosso governo. Se hoje tivéssemos um referendo a sugerir sair da União Europeia, tenho a certeza que a resposta seria sim. Não estou a dizer que isso seria certo ou errado, mas nós geralmente não queremos contribuir para o orçamento europeu. (…) Não abdicamos da libra esterlina, o que veio a revelar-se sensato depois do que vimos acontecer com a moeda única europeia. O euro não acabou, mas isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde.”

Mas os alemães é que são arrogantes.

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