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Sexta-feira

Quem vem a Londres só por uns dias não se apercebe do que a sexta-feira tem de londrino. Os chefes – que os turistas não têm – apressam-se a despachar trabalho, olham impacientes para o relógio, fazem telefonemas no escritório de já-vou, trocam ideias sobre a escolha do pub para esta semana; se for uma ocasião especial, já estará marcado há uns meses.

À sexta-feira à tarde, a população activa de Londres atira-se para bares tradicionalmente britânicos, de madeira escura, de tapetes verde-escuros, de luzes aconchegantes. Mesas partilham-se com desconhecidos, homens cambaleantes de fato entornam cerveja, as inglesas de cabelo loiro-esparguete e vestidos curtos às flores pisam-nos sem querer e sorriem para trás de olhos revirados um hiper bem-educado sorray. O cliente do pub é uma pessoa feliz.

Quem por cá está de passagem e pára num pub à sexta-feira não se apercebe que a maioria dos grupos que ali convivem são de equipas de trabalho. Colegas que das nove às cinco se e-mailam profissionalmente, e das cinco à meia-noite partilham piadas e rotinas de uma vida pessoal. Que em Londres não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar uma família emprestada.

Quando não vamos ao pub com os colegas, vamos com os amigos. Fala-se de viagens, de onde vives agora, como está a correr o trabalho, e prometemos todos ver-nos mais vezes.

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Irmãmente

Eu fui andando primeiro porque calhou.

É engraçado como nessa altura se viam olhares de dúvida lá em baixo, ainda perto, será que ela consegue?, olhares que de alguma forma incentivavam. Subindo aos poucos, cada passo era dado com cautela e observação, por vezes com descuido ou desconcentração, sempre em distâncias curtas, e sempre perguntando lá para trás: que tal estou?

Dizem que devagar se vai ao longe. Já o meu longe mais parecia isolamento, que quanto mais subia, mais silenciavam as tais vozes do incentivo. A multidão que antes me ouvia e observava foi-se dispersando; talvez tenham achado que eu estava bem entregue e seguiram por isso o seu caminho. Mas os que sabiam os meus passos pequeninos e custosos, tão pouquinhos e tão preciosos, seguiram o seu caminho sem se dispersar. Hoje, sempre que paro e olho para trás, o sorriso que se me esboça é de orgulho, gratidão – e uma angústia que só eu sei.

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Chamada à terra

Apesar de ter sido a melhor viagem de autocarro (com direito a bife a bordo e casa-de-banho com cheiro a rosas), não deixou de ter um sabor amargo – por ser a última.

O mesmo com a chegada a Buenos Aires. Não chegou a azáfama da hora de ponta de uma metrópole a acordar devagar para o novo ano no pico do seu verão. Não chegaram as promessas de amor eterno do muchacho que nos levou de táxi até ao hostel, nem chegou termos enfim dado entrada no único quarto privado da nossa viagem. Buenos Aires cheirava a despedida e pronto.

Nem de propósito, decidimos remar contra a maré. Literalmente: na manhã seguinte estávamos num barco a caminho do Uruguai.

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P’ra inglês ver

Insisto em perguntar-me por que razão foram tão poucas as vezes que escrevi aqui desde que vim para Londres, em Setembro de 2010. Culpei o mestrado, uma autêntica gravidez de nove meses que não deixou sequer disponibilidade para explorar o novo poiso.

Mesmo assim, depois do intervalo em Genebra, o regresso a Londres não me trouxe aqui, às letras, aos desabafos, às observações que sempre fazia. No fundo ainda as faço – mas não as escrevo.

Estou indecisa se é o hábito de me enraizar em novas rotinas que me fez cair os braços – ou se é a própria terra de sua majestade que me bloqueou a inspiração.

Sorrio com frequência pela ironia de ter tido tanta vontade de fugir da Alemanha, e agora valorizar tanto o que tomei por garantido lá e ainda procuro aqui.

Várias vezes sou criticada por generalizar demasiado os povos. Não o faço por mal. Sou apaixonada por diferenças culturais e baseio as minhas opiniões nas pessoas que conheci ao longo destes cinco anos e meio. Há quem generalize sem sair da sua concha. Generalizar ajuda-me – e sublinho sempre que, por mais que desgoste de uma nacionalidade, tenho muitos amigos que a vestem. E o mesmo podem eles pensar de mim.

Partilhei casa com alemães, franceses, holandeses, belgas, eslovacos, italianos. Mas foi no meio dos alemães que mais procurei  integrar-me, pela hospitalidade, pelo interesse, pelo meu dever enquanto procurava no país deles as oportunidades que o meu não me deu, pelos três anos em que o país deles foi a minha casa. E integrei-me bem.

Aqui a sensação foi muito diferente. Nunca o disse com todas as letras, na esperança de mudar de ideias, mas tempo suficiente passou. Os ingleses não se interessam. E isso tira a maioria da cor neste tempo em que transito.

O meu mestrado era considerado doméstico, por ter mais estudantes nacionais do que internacionais. Desde logo perdi aquele berço europeu e internacional que tão bem me acolheu em Bruxelas, na Alemanha, em Genebra.

Quis à força integrar-me entre os ingleses pois também eles me estavam a dar uma oportunidade, também o país deles se tornou na minha casa. Mas desde o primeiro dia do meu curso senti esse desconforto de simplesmente ninguém querer saber. Nunca antes tinha valorizado tanto as perguntas que os alemães que conheci me faziam constantemente: de onde eu era, e por que estava na Alemanha, Deutsche Welle ah sim?, e o que fazes mesmo? para África? Quantos países mesmo falam português? E como está a vida em Portugal? E onde aprendeste a falar alemão? E como se diz isto em português? E que outras línguas falas? Eu também já vivi aqui e acolá.

Justifiquei o desinteresse com a natureza de Londres, cosmopolita e de portas abertas ao mundo. Para um londrino é tão normal conviver com estrangeiros como com a chuva.

Mas aos poucos apercebi-me que a maioria dos meus colegas de mestrado não eram londrinos. E que esses e outros ingleses que ia conhecendo eram viajados, mas turistas; e teimam em dizer “vocês, Europeus”; e que o que eu pudesse dizer sobre essa Europa era sempre uma afirmação e muito raramente a resposta a uma pergunta.

O rótulo internacional de Londres pregou-me uma rasteira – a mim e a todos os que gostam de se sentir bem-vindos, de responder sobre o lugar de onde vêm, porque é a ele que pertencerão para sempre.

Ainda assim eu gosto de estar aqui. Os meus amigos, europeus, ingleses, portugueses, mundiais, fazem a minha família cá longe. O meu trabalho preenche-me. Faz-me magicar sobre o que ainda quero fazer.

E tiro o chapéu ao humor britânico,  que tão bem faria aos alemães. Acaba por compensar a falta daqueles sorrisos de pertença – aos quais me tinha habituado sem dar conta.

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