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Sexta-feira

Quem vem a Londres só por uns dias não se apercebe do que a sexta-feira tem de londrino. Os chefes – que os turistas não têm – apressam-se a despachar trabalho, olham impacientes para o relógio, fazem telefonemas no escritório de já-vou, trocam ideias sobre a escolha do pub para esta semana; se for uma ocasião especial, já estará marcado há uns meses.

À sexta-feira à tarde, a população activa de Londres atira-se para bares tradicionalmente britânicos, de madeira escura, de tapetes verde-escuros, de luzes aconchegantes. Mesas partilham-se com desconhecidos, homens cambaleantes de fato entornam cerveja, as inglesas de cabelo loiro-esparguete e vestidos curtos às flores pisam-nos sem querer e sorriem para trás de olhos revirados um hiper bem-educado sorray. O cliente do pub é uma pessoa feliz.

Quem por cá está de passagem e pára num pub à sexta-feira não se apercebe que a maioria dos grupos que ali convivem são de equipas de trabalho. Colegas que das nove às cinco se e-mailam profissionalmente, e das cinco à meia-noite partilham piadas e rotinas de uma vida pessoal. Que em Londres não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar uma família emprestada.

Quando não vamos ao pub com os colegas, vamos com os amigos. Fala-se de viagens, de onde vives agora, como está a correr o trabalho, e prometemos todos ver-nos mais vezes.

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Conformismo conquistado

CasaPela primeira vez em sete anos, completei um ano inteiro a viver na mesma casa. Por esta altura no ano passado, a Catarina ajudava-me a transportar sacos (muitos sacos) de casa para táxi para casa para quarto via escadas longas.

2012 foi um ano difícil no que diz respeito a alojamento. Foram cinco rondas de entrevistas, cinco quartos, cinco lares, cinco rotinas, habitua, desabitua. Não que não estivesse habituada, que já lá vão 18 casas desde Leipzig; mas no ano passado não houve tempo para apegos. Hoje, estou instalada numa casa vitoriana na zona este de Londres. Tenho-a sentido minha casa. Partilho-a com mais quatro pessoas, todas entre os vintes tardios e os trintas iniciais (eis a pobre tentativa de traduzir late twenties and early thirties). Uma gestora de projectos digitais na indústria publicitária, metade suíça e metade inglesa, que foi modelo durante 15 anos e cuja melhor amiga, cabeleireira, de vez em quando aparece cá em casa e corta-lhe o cabelo de boneca como nos velhos tempos. Um economista inglês de raízes indonésias que cozinha caril dia sim dia não – ou cozinhava, que agora infelizmente trabalha em Paris de segunda a sexta e não há restos para mim. Um outro jovem inglês de sorriso muito simpático, que pouco vemos porque o pouco tempo que está em casa passa-o no quarto, em processo criativo a pintar quadros que depois vende no mercado de Spitalfields. E finalmente a Nadine, uma alemã que fugiu da Alemanha por estar farta de alemães, mas que é alemã o suficiente para meter na cabeça uma coisa e cumpri-la à velocidade da luz. Quero comprar uma casa, vou comprar uma casa, fui ver umas casas, comprei uma casa, vou sair cá de casa.

A Nadine saiu de nossa casa ontem e logo depois entrou uma inglesa, professora de escola primária. Escolhemo-la entre as cerca de vinte pessoas que cá vieram visitar o quarto (incluindo um bombeiro que por aqui passou entre turnos, deixando toda a brigada à espera num camião de bombeiros estacionado à porta de nossa casa). Foi a primeira vez que tive o privilégio de estar do outro lado, a escolher. Para já, a Jessica é uma querida; e já esteve a cozinhar uns petiscos bem cheirosos nas suas primeiras 24 horas. Mas a Nadine, que era parte da nossa casa, saiu. Começou outra fase. E com ela sinto eu que entrei numa nova fase também.

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Dias longos de verão feliz

O verão começou, ainda que tímido; não percebo com que legitimidade lhe tiraram a letra maiúscula. O meu verão – de, por enquanto, menos de 48 horas – tem sido bastante feliz. Duas semanas de trabalho novo, ideias, desafios, aprendizagens, vontades e tudo o que descreverei depois. (Sabem, eu gosto de deixar algumas coisas para “depois”.)

Surge o fim-de-semana para explorar terraços de verão quando as nuvens dão tréguas, meio na dúvida. Vou parar à casa da minha nova chefe, lá no faroeste da Maria Londres, em consequência de convite após – repito – duas semanas de trabalho. Uma chefe de sorriso contagiante, sangue indiano, educação britânico-norte-americana, marido de San Diego que conheceu durante uma vida nómada entre as Filipinas e Manhattan. Eis que estamos à-mesa-à-americana, prato vegetariano ao colo, acompanhados de um economista de saúde dinamarquês e um geek de startups com três-quase-quatro-passaportes (sendo que o original é jamaicano e eu perdi a sequência das restantes histórias).

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Alimentar sem-abrigo

Já disse aqui aqui que não suporto ver fome e pessoas sem casa. É difícil falar disso sem soar hipócrita, que todos nós dizemos o mesmo e diariamente ignoramos mendigos pelo canto do olho, enquanto as moedas chocalham na carteira e os cartões se preparam para comprar lazer online.

Tenho tentado fazer alguma coisa para mudar de reacção à minha própria hipocrisia. Há um senhor de olhos muito azuis e pele muito doente que todas as manhãs – geladas há praticamente meio ano – está sentado em cima de uma pilha de jornais num túnel debaixo da grandiosa Tower Bridge, mesmo ao lado do meu trabalho. Todo ele é cabisbaixo, excepto o copo de cartão que estende aos transeuntes. Pergunto “would you like some food?” e oiço um “yes please” muito triste ainda não acabei a frase. Já lhe dei bananas e bolachas. Já me pediu para ver se o folhado que lhe deram tinha alho “because I’m terribly allergic”. Olhos azuis. Não sei que vida têm. Todos os dias.

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Irmãmente

Eu fui andando primeiro porque calhou.

É engraçado como nessa altura se viam olhares de dúvida lá em baixo, ainda perto, será que ela consegue?, olhares que de alguma forma incentivavam. Subindo aos poucos, cada passo era dado com cautela e observação, por vezes com descuido ou desconcentração, sempre em distâncias curtas, e sempre perguntando lá para trás: que tal estou?

Dizem que devagar se vai ao longe. Já o meu longe mais parecia isolamento, que quanto mais subia, mais silenciavam as tais vozes do incentivo. A multidão que antes me ouvia e observava foi-se dispersando; talvez tenham achado que eu estava bem entregue e seguiram por isso o seu caminho. Mas os que sabiam os meus passos pequeninos e custosos, tão pouquinhos e tão preciosos, seguiram o seu caminho sem se dispersar. Hoje, sempre que paro e olho para trás, o sorriso que se me esboça é de orgulho, gratidão – e uma angústia que só eu sei.

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Chamada à terra

Apesar de ter sido a melhor viagem de autocarro (com direito a bife a bordo e casa-de-banho com cheiro a rosas), não deixou de ter um sabor amargo – por ser a última.

O mesmo com a chegada a Buenos Aires. Não chegou a azáfama da hora de ponta de uma metrópole a acordar devagar para o novo ano no pico do seu verão. Não chegaram as promessas de amor eterno do muchacho que nos levou de táxi até ao hostel, nem chegou termos enfim dado entrada no único quarto privado da nossa viagem. Buenos Aires cheirava a despedida e pronto.

Nem de propósito, decidimos remar contra a maré. Literalmente: na manhã seguinte estávamos num barco a caminho do Uruguai.

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