Tag: Leipzig

Fecha-se o ciclo

Leipzig 2007-2017

Dizem que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Eu, que nem sou de riscos, resolvi vir parar a Leipzig dez anos depois do ano em que senti uma concentração tal de felicidade que parecia nem caber em mim.

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Maria Londres. Da decisão de ficar

Escrevi muitíssimo sobre Leipzig, bastante sobre Bonn, um bom bocado sobre Bruxelas, pouco sobre Genebra e quase nada sobre Londres – pelo menos na proporção do tempo que cá passei, que já quase iguala o alemão.

Esta é a quinta cidade e o quarto país onde vivo desde que deixei a minha Maria Lisboa, e várias razões explicam a ausência de palavras (d)escritas sobre a minha vida aqui.

Primeiro – e como minha desculpa recorrente – porque em Londres não há tempo. Até os meus amigos mais energéticos dizem que saem daqui cansados. Há que aprender a comprar bilhetes de metro rapidamente, a encostar à direita nas escadas rolantes para que outros corram à esquerda, e a olhar cuidadosamente para trás se quisermos ultrapassar; vem mesmo gente disparada lá de cima. Há que aprender a atirar as compras do supermercado para o saco antes que o next-customer-please nos pise os sapatos (rasos, que em Londres os saltos altos vão num saco de plástico na mala). Andamos todos a correr porque aqui não sobra tempo para tudo, ou muito, ou nada. Escrever é vítima.

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Seis anos

Repito-me nesta enumeração de anos e de cidades, e na escrita cá de longe sobre lá em casa, ou vice-versa. Mas hoje, quanto mais não seja porque é a centésima vez que escrevo neste terceiro formato da diletante, tenho mesmo de partilhar.

Faz hoje seis anos que fui embora.

Que deixei de viver em Portugal, país onde hoje vou apenas em transição.

Seis geralmente não atrai, mas no meu caso é um número redondo, qual círculo. Andei em frente meia presa ao lá atrás, ao por que fui, ao como será depois dos seis. Agora os seis chegaram, ou aliás passaram, e com eles a luz verde para seguir. Sem querer, esperei. E quão irónico é constatar, chegando à meta final, que afinal os seis não estavam assim tão longínquos. Nem tão pouco me prometeram o que quer que fosse. Já não é preciso esperar.

Destes seis, dois foram neste monstro intrigante. Cidade que suga: tempo, espaço, vontade. Cidade de contrastes, de saltos altos aos trambolhões e batons borrados, olhos revirados do álcool a cada esquina. Esta cidade explode arte, cultura e música – que eu nunca absorvo porque tenho tempo para ver depois.

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Diletante em Genebra

Acaba de arrancar um estágio no Boletim da Organização Mundial de Saúde, na Suíça. Para quem já mudou de poiso tantas vezes pode parecer simples estes novos arranques, mas não é bem assim. Nos primeiros dias a prioridade é encher o frigorífico, que na primeira manhã comi à colher um pacote de geleia de morango – sim, dos pequenos de hotel. Era o que havia. Assim que pude, comprei umas bolachinhas na lojinha mais próxima, das poucas abertas a um domingo. Por mais de três francos.

Aliás, nestes meus relatos suíços, “franco” há-de ser a palavra de ordem.

A melhor descrição que tenho para já é que Genebra reúne o verde e os eléctricos de Leipzig, o bairrismo requintado de Bona, e o toque francês de Bruxelas.

Só por isso já acolhe.

 

Um, dois, três Felizes Anos Novos

Setembro de 2006. Eis a viragem na minha vida, a partida para o tal Erasmus, tudo tudo tudo novo, aprendi a comunicar numa língua nova e senti a evolução diária. Foi tudo tão rápido. Conheci gente de todo o mundo, fiz amigos de diferentes países, chorei com a partida, alimentei clichés que afinal eram mesmo verdadeiros.

Voltei frustrada para a minha Lisboa, trabalhei de graça, questionei o jornalismo outrora tão sonhado, e regressei à Alemanha quase que por acaso, involuntariamente. Fruto de uma candidatura quase de olhos fechados, porque sabia lá eu o que queria. Nova cidade, Bonn e Leipzig parecem não pertencer ao mesmo país. Deixei de estudar, passei a trabalhar por dois meses.

Apaixonei-me pela rádio, aprendi muito e por isso quis ficar. Candidatei-me para tudo o que era sítio com a minha nova amiga Bettina, desde rádios comerciais em Berlim a apoio em serviços de catering ali na Renânia do Norte. Até que consegui a opotunidade de traduzir o website de uma agência de viagens “à nêv” de alemão para português. Aprendi umas coisas de marketing, conheci o verdadeiro ambiente de trabalho alemão, rígido – para não esquecer o “a Débora não vem hoje?” por ver o meu lugar vazio às 09:03. Foram seis meses difíceis, a Primavera e o Verão inteirinhos numa rotina desgastante e triste, a bicicleta para a estação, o comboio para Colónia, o eléctrico até essa grande empresa em expansão que em nada me preenchia. Mas tinha colegas de várias nacionalidades, muito queridos, também eles ficaram amigos. Muitas vezes saía à sexta-feira e corria para a rádio, onde trabalhava com gosto, madrugadas muitas, quem corre por gosto não cansa.

Mas eu cansei-me. Desisti – e fiz bem. Dediquei-me à rádio por mais uns meses, e estava feliz com isso. Decidi ficar… até que um e-mail me dá conta de uma vaga em Bruxelas, na máquina da Europa, por cinco meses. A candidatura também tinha sido enviada meio por acaso, nas curtíssimas férias de Verão em casa. Partiria dali a 2 meses. Recomeçou a correria. Cancelei tudo, despedi-me da Alemanha, deixei a custo a quarta casa que tive em Bonn num único ano.

Apanhei o TGV apertado para uma nova cidade, um novo país, duas novas línguas e aquilo a que acabei por chamar um segundo Erasmus. Se no primeiro dia não conhecia ninguém, ao fim de uma semana já tinha a memória do telemóvel cheia de novos contactos, nomes estranhos vindos da Croácia, da Dinamarca, da própria Bélgica. Novos amigos, duas casas, novas vivências, lista infindável de aprendizagens, muitos sorrisos e fotografias que os recordam. Tenho tantas saudades como as que tenho de Leipzig.

Mas tal como Leipzig, também Bruxelas terminou. No dia em que fiz 24 anos regressei a Casa, onde fiquei merecidamente dois meses. Decidi regressar a Bonn. A mesma cidade, nova casa. A mesma língua, novo ambiente. Deixou de haver novidade. Mas ficou a calma maturidade conquistada, sem querer, nas onze casas onde vivi nestes últimos três anos que tanto trouxeram à minha vida.

Para 2010? Só agradeço. E que todos tivessem as alegrias que, entre momentos de angústia, solidão e muito medo, aquele Norte me tem dado. Resta saber por quanto tempo.

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