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Esta coisa de estar triste e feliz (ou ode à amizade)

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As emoções atropelam-se para conseguirem lugar na carruagem. Depressa começam a rodopiar na montanha russa, bate o vento de frente, vento de medo apático.

É tão boa a sensação de repetir esta experiência: há que chamar de dádiva à possibilidade de me despedir outra vez com o coração a ferver. A despedida com sabor a certeza incerta, um lugar que sei que preciso de deixar mas que deixa em mim tanto de tão bom.

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É desta, Londres: vou-me embora

central parkSonho multiplicado esse, o de o trabalho me levar para aqueles lados. Trabalho também ele sonhado, lembrando-me que posso fazer algo por que o mundo agradece.

Nos dias de folga passeio com os laços do meu sangue, o Central Park pinta-se de vermelhos e amarelos-bronze num outono brindado a sol de verão. Despacha-te!, levanta o queixo, põe os ombros à vista e sorri com nostalgia que lá não tens disso.

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Carta de uma emigrante ao Santo António

Querido Santo António,

Vim à nossa Lisboa mais uma vez. (Vim, fui, estou, sou, sinto; nunca sei que verbo usar). Gosto de falar contigo sempre que me vejo a sobrevoar a nossa costa e as nossas sete colinas, inchada de orgulho para os branquinhos que ao meu lado no avião sussurram beautiful’s e wunderschön’s como quem lhes quer dizer: é minha!

Acompanhas-me nestas lides de emigrante europeia (ai o que seria de mim se transatlântica) há meia dúzia de anos. Já me viste tanto histérica como deprimida de por cá andar sobre a calçada que já não me é rotina. Essa calçada que piso sem pressas, que todos os restantes passos são vagarosos e põem a Maria Londres em memórias distantes. Até as escadas rolantes são mais lentas e ninguém nelas corre pela esquerda. Aliás: ninguém corre.

Cá (ou lá) as minhas pernas entram em repouso, que não caminho nem um décimo das milhas londrinas, e passo o tempo sentada – a comer ou no carro ou nos tais passos vagarosos. Vagarosos também os convívios, e que bem que sabe vir ter contigo no mês em que tudo se enche de sorrisos e tragos e passos de dança leves.

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Maria Londres. Da decisão de ficar

Escrevi muitíssimo sobre Leipzig, bastante sobre Bonn, um bom bocado sobre Bruxelas, pouco sobre Genebra e quase nada sobre Londres – pelo menos na proporção do tempo que cá passei, que já quase iguala o alemão.

Esta é a quinta cidade e o quarto país onde vivo desde que deixei a minha Maria Lisboa, e várias razões explicam a ausência de palavras (d)escritas sobre a minha vida aqui.

Primeiro – e como minha desculpa recorrente – porque em Londres não há tempo. Até os meus amigos mais energéticos dizem que saem daqui cansados. Há que aprender a comprar bilhetes de metro rapidamente, a encostar à direita nas escadas rolantes para que outros corram à esquerda, e a olhar cuidadosamente para trás se quisermos ultrapassar; vem mesmo gente disparada lá de cima. Há que aprender a atirar as compras do supermercado para o saco antes que o next-customer-please nos pise os sapatos (rasos, que em Londres os saltos altos vão num saco de plástico na mala). Andamos todos a correr porque aqui não sobra tempo para tudo, ou muito, ou nada. Escrever é vítima.

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Alimentar sem-abrigo

Já disse aqui aqui que não suporto ver fome e pessoas sem casa. É difícil falar disso sem soar hipócrita, que todos nós dizemos o mesmo e diariamente ignoramos mendigos pelo canto do olho, enquanto as moedas chocalham na carteira e os cartões se preparam para comprar lazer online.

Tenho tentado fazer alguma coisa para mudar de reacção à minha própria hipocrisia. Há um senhor de olhos muito azuis e pele muito doente que todas as manhãs – geladas há praticamente meio ano – está sentado em cima de uma pilha de jornais num túnel debaixo da grandiosa Tower Bridge, mesmo ao lado do meu trabalho. Todo ele é cabisbaixo, excepto o copo de cartão que estende aos transeuntes. Pergunto “would you like some food?” e oiço um “yes please” muito triste ainda não acabei a frase. Já lhe dei bananas e bolachas. Já me pediu para ver se o folhado que lhe deram tinha alho “because I’m terribly allergic”. Olhos azuis. Não sei que vida têm. Todos os dias.

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Voltar, novamente

De início amedrontado tudo lhe pareceu demasiado novo e desafiante. Como se não lhe pesasse nenhuma daquelas conquistas passadas, voltara a partir para um novo arranque, com novas pessoas, nova casa, nova rotina, novo percurso.

Ao fim de seis meses, um colega disse-lhe, em reacção a um comentário firme: “Olha ela agora, que no início era ai de mim que Londres assusta!”. Com os seus dois metros, as suas tight jeans amarelas, caracóis castanhos e sotaque mais do que inglês, percebeu depressa que conhecê-la era como ler Fernando Pessoa: primeiro estranha, depois entranha.

Estranhou, entranhou e entregou-se. Nunca pensou que fosse realmente viável, pelo menos a tão curto prazo, aprender a escrever sobre um dos seus grandes fascínios: saúde. Sim, que a saúde é o nosso bem mais precioso – tudo o resto depende de nós.

Todos os dias aprendia algo novo, nem que fosse uma palavra; trocou o frio continental pelo frio ameno, ventoso e chuvoso. O olhar sobre os londrinos que outrora vinha de fora transformou-se aos poucos, ele próprio, num olhar londrino. Quando regressava ao núcleo fervoroso da capital – coisa rara – percebia que já tinha perdido o estatuto daqueles turistas. Soube bem a constatação, que ela não gosta nada de guias.

E afinal o que fez ela ali? Viveu e aprendeu, como em paragens anteriores. E a verdade é que nunca planeou nada daquilo. Foi surgindo. Mas em casa continuava o discurso de admiração sobre alguém que ambiciona, cruza fronteiras e acaba por conquistar. Como se de nada mais precisasse.

A verdade, no entanto, é como dizia o brasileiro: “Não tendo, a gente se satisfaz. Tendo, a gente quer mais.”

As grandezas tornaram-se pequenas e a pequenez ganhou valor. Até a pequenez do seu país – e ainda bem. Tal como uma celebridade daquelas das revistas, por detrás do sorriso pode bem estar uma alma solitária que quer saltar para a multidão, fazer parte dela. O problema, vê-se, é que a multidão olha e reage como se ela se tivesse tornado numa anormal de sucesso, a quem não se precisa, ou pode, estender a mão.

Fecham-se os cadernos, gravam-se as bylines, desligam-se os gravadores. É hora de fazer a mala novamente. Desta vez não porque quisesse vir embora, mas porque a oportunidade com que sempre sonhara surgiu. E por acaso voltava a ser além-fronteiras. Será mais um arranque, com novas pessoas, nova casa, nova rotina. E um percurso que continua a ser delineado.

Não sabe onde vai parar, mas tem a certeza que a estrada não é recta.

É curva. E tende a curvar para trás.

 

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