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Seis anos

Repito-me nesta enumeração de anos e de cidades, e na escrita cá de longe sobre lá em casa, ou vice-versa. Mas hoje, quanto mais não seja porque é a centésima vez que escrevo neste terceiro formato da diletante, tenho mesmo de partilhar.

Faz hoje seis anos que fui embora.

Que deixei de viver em Portugal, país onde hoje vou apenas em transição.

Seis geralmente não atrai, mas no meu caso é um número redondo, qual círculo. Andei em frente meia presa ao lá atrás, ao por que fui, ao como será depois dos seis. Agora os seis chegaram, ou aliás passaram, e com eles a luz verde para seguir. Sem querer, esperei. E quão irónico é constatar, chegando à meta final, que afinal os seis não estavam assim tão longínquos. Nem tão pouco me prometeram o que quer que fosse. Já não é preciso esperar.

Destes seis, dois foram neste monstro intrigante. Cidade que suga: tempo, espaço, vontade. Cidade de contrastes, de saltos altos aos trambolhões e batons borrados, olhos revirados do álcool a cada esquina. Esta cidade explode arte, cultura e música – que eu nunca absorvo porque tenho tempo para ver depois.

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Dentro do Tubo – II

Um flash de ontem, quando ia a caminho de Notting Hill, na Central Line. À minha frente, da direita para a esquerda, sentados:

– uma rapariga com ar doce segura um ramo gigante de flores que quase lhe tapa a cara

– um rapaz que devia vir de Shoreditch, de headphones nos ouvidos e um ar muito trendy

– um quarentão gordo de fato de treino e ar de quem não tomou banho

– uma chinoca pequenina, querida, de meia-idade, que simplesmente… fala sozinha numa língua estranha

– uma jovem trabalhadora pronta para aterrar em Notting Hill, impecável da cabeça aos pés, a ler no seu iPad.

Histórias de vida numa carruagem a muitos metros de profundidade.

Dentro do tubo

Dou de caras com o Sneijder à saída do metro. Espera, é só um anúncio da Nike. Passo tão depressa por ele como pelas pessoas que correm. No tube não podemos parar, porque somos atropelados. Os corredores claustrofóbicos a não sei quantos metros de profundidade são para quem já os conhece; eu diria que Angel, Old Street e King’s Cross já me estão na palma da mão.

O Oyster Card (sim, um passe com nome de ostra e caro como as ostras: 18 libras por semana, e é preço de estudante) passa em gesto automático pelas trancas. Música nos ouvidos enquanto entro nas intermináveis escadas rolantes lá para baixo, de manhã. Gente, muita gente. Stand on the right: se tens pressa, dá um passo à esquerda e desce a correr. Muitas vezes é o caso.


Mapa do metro de Londres

 

De tão maquinal que se tornou o metro de Londres, surgiu uma profissão nova. Em hora de ponta, quando chegamos a ter de esperar por dois comboios (tudo bem que só se esperam dois minutos) até conseguirmos entrar numa carruagem, há um senhor ou uma senhora na plataforma a falar ao altifalante. Fico com vontade de tirar os headphones. É um gesto humano numa atmosfera impessoal: “senhores passageiros, por favor deixem as pessoas sair antes de entrarem na carruagem, aproveitem todo o espaço dentro da carruagem, por favor não sejam impacientes, dentro de dois minutos virá outro comboio, não forcem as portas”.






De repente a mesma voz diz: Mind the closing doors please, stay clear of the closing doors please… PLEASE LEAVE THE DOORS ALONE!!... – e um suspiro sorridente ecoa na plataforma.

Ou, num outro caso, a voz é feminina: Mind the closing doors please, stay clear of the closing doors… well done, I will see you tomorrow.

Seja Michael Jackson, Sting ou Carlos do Carmo a tocar aos meus ouvidos, os olhos não param de observar quem me rodeia: este de fato e gravata a ler o London Evening Standard, aquela de roupa vintage a pôr baton, aquele gordo com uma mala gigante a caminho do aeroporto, tantos a ler o Metro, tantos a jogar tetris nos seus iphones e androids, ou a despachar emails no blackberry até terem rede “lá em cima” para os enviar, poucos sorrisos, pouco ar puro, muita sensação de sufoco e vontade de chegar a casa.

Quando, no fundo, quase ninguém identifica Londres como “casa”.

Sobem-se e descem-se escadas rolantes, vira-se à esquerda para a northern line, à direita para a picadilly, hesita-se entre east e westbound, o percurso traçado na cabeça. Que em Londres não há tempo a perder, mas há que ter sempre cuidado com as portas, não vão elas entalar-nos as costas.

Londres é rotina urbana que tanto repugna como fascina. Dá-me saudades de Nova Iorque.


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