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Esta coisa de estar triste e feliz (ou ode à amizade)

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As emoções atropelam-se para conseguirem lugar na carruagem. Depressa começam a rodopiar na montanha russa, bate o vento de frente, vento de medo apático.

É tão boa a sensação de repetir esta experiência: há que chamar de dádiva à possibilidade de me despedir outra vez com o coração a ferver. A despedida com sabor a certeza incerta, um lugar que sei que preciso de deixar mas que deixa em mim tanto de tão bom.

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É desta, Londres: vou-me embora

central parkSonho multiplicado esse, o de o trabalho me levar para aqueles lados. Trabalho também ele sonhado, lembrando-me que posso fazer algo por que o mundo agradece.

Nos dias de folga passeio com os laços do meu sangue, o Central Park pinta-se de vermelhos e amarelos-bronze num outono brindado a sol de verão. Despacha-te!, levanta o queixo, põe os ombros à vista e sorri com nostalgia que lá não tens disso.

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Tenho um coração que ferve

Dizem que é de ter nascido naquele dia de Julho – que “os caranguejos têm as emoções à flor da pele”. Caramba, tudo me sensibiliza. A sensação de que não estou a aproveitar bem o tempo, o meu tempo, no sítio onde escolhi passá-lo por agora. As gargalhadas solitárias em reacção ao que as galinhas me dizem através de ecrãs, a confirmar que a amizade é mesmo além-fronteiras. O vídeo que me alivia – há amor verdadeiro sim – e as mensagens para Casa a confirmar-me a saudade diária do meu espaço de sempre.

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Maria londrina nova-iorquina

Vi Nova Iorque com as suas imponentes torres gémeas, que me apeteceu abraçar de anorak em puberdade. Senti-as amigas mais velhas a dizer-me que fazia bem em querer escrever para a vida (ou qualquer coisa assim).

Vi Nova Iorque sem torres, um Ground Zero de chão levantado e com ranhuras, qual terramoto provocado por uma dúzia de homens loucos. Elevavam-se as bandeiras orgulhosas do costume.

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Sexta-feira

Quem vem a Londres só por uns dias não se apercebe do que a sexta-feira tem de londrino. Os chefes – que os turistas não têm – apressam-se a despachar trabalho, olham impacientes para o relógio, fazem telefonemas no escritório de já-vou, trocam ideias sobre a escolha do pub para esta semana; se for uma ocasião especial, já estará marcado há uns meses.

À sexta-feira à tarde, a população activa de Londres atira-se para bares tradicionalmente britânicos, de madeira escura, de tapetes verde-escuros, de luzes aconchegantes. Mesas partilham-se com desconhecidos, homens cambaleantes de fato entornam cerveja, as inglesas de cabelo loiro-esparguete e vestidos curtos às flores pisam-nos sem querer e sorriem para trás de olhos revirados um hiper bem-educado sorray. O cliente do pub é uma pessoa feliz.

Quem por cá está de passagem e pára num pub à sexta-feira não se apercebe que a maioria dos grupos que ali convivem são de equipas de trabalho. Colegas que das nove às cinco se e-mailam profissionalmente, e das cinco à meia-noite partilham piadas e rotinas de uma vida pessoal. Que em Londres não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar uma família emprestada.

Quando não vamos ao pub com os colegas, vamos com os amigos. Fala-se de viagens, de onde vives agora, como está a correr o trabalho, e prometemos todos ver-nos mais vezes.

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Conformismo conquistado

CasaPela primeira vez em sete anos, completei um ano inteiro a viver na mesma casa. Por esta altura no ano passado, a Catarina ajudava-me a transportar sacos (muitos sacos) de casa para táxi para casa para quarto via escadas longas.

2012 foi um ano difícil no que diz respeito a alojamento. Foram cinco rondas de entrevistas, cinco quartos, cinco lares, cinco rotinas, habitua, desabitua. Não que não estivesse habituada, que já lá vão 18 casas desde Leipzig; mas no ano passado não houve tempo para apegos. Hoje, estou instalada numa casa vitoriana na zona este de Londres. Tenho-a sentido minha casa. Partilho-a com mais quatro pessoas, todas entre os vintes tardios e os trintas iniciais (eis a pobre tentativa de traduzir late twenties and early thirties). Uma gestora de projectos digitais na indústria publicitária, metade suíça e metade inglesa, que foi modelo durante 15 anos e cuja melhor amiga, cabeleireira, de vez em quando aparece cá em casa e corta-lhe o cabelo de boneca como nos velhos tempos. Um economista inglês de raízes indonésias que cozinha caril dia sim dia não – ou cozinhava, que agora infelizmente trabalha em Paris de segunda a sexta e não há restos para mim. Um outro jovem inglês de sorriso muito simpático, que pouco vemos porque o pouco tempo que está em casa passa-o no quarto, em processo criativo a pintar quadros que depois vende no mercado de Spitalfields. E finalmente a Nadine, uma alemã que fugiu da Alemanha por estar farta de alemães, mas que é alemã o suficiente para meter na cabeça uma coisa e cumpri-la à velocidade da luz. Quero comprar uma casa, vou comprar uma casa, fui ver umas casas, comprei uma casa, vou sair cá de casa.

A Nadine saiu de nossa casa ontem e logo depois entrou uma inglesa, professora de escola primária. Escolhemo-la entre as cerca de vinte pessoas que cá vieram visitar o quarto (incluindo um bombeiro que por aqui passou entre turnos, deixando toda a brigada à espera num camião de bombeiros estacionado à porta de nossa casa). Foi a primeira vez que tive o privilégio de estar do outro lado, a escolher. Para já, a Jessica é uma querida; e já esteve a cozinhar uns petiscos bem cheirosos nas suas primeiras 24 horas. Mas a Nadine, que era parte da nossa casa, saiu. Começou outra fase. E com ela sinto eu que entrei numa nova fase também.

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