Tag: medicina

Deixemo-nos de merdinhas

Ainda estou em réstias da explosão de emoções daquele dia. Orgulho, admiração, negação, gratidão, culpa, compaixão, determinação.

Acordei já mentalizada para a nova rotina de vários dias: aquecer panelas de água para tomar banho – que casas vitorianas têm tanto de bonito e trendy como de problemático. Depois enfiei-me no metro a hora de ponta chuvosa, com a mochila monstruosa da minha irmã hippie para dar a uma amiga – que em Londres é comum distribuir-se baggage allowance pelos viajantes-e-seus-amigos e assim poupar uns trocos.

Com as costas feitas num oito disse o habitual “morning!” aos meus colegas, fui pôr a massa no frigorífico, sentei-me à secretária e comecei o meu último dia de trabalho na Alzheimer’s Society. Vinte meses sobre os quais escrevo depois.

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Memória

O Verão foi de tal forma longo, tinha-se esquecido de como era o resultado da sua secura: folhas secas, amarelas, verdes, cor-de-laranja berrante. Já não via tal cenário há coisa de – pois – um ano.

A correria foi de tal forma longa, tinha-se esquecido do resultado de não se deixar parar, para pensar, para escrever.

Agora que o Verão e a correria acabaram é tempo de escrever sobre essa secura. O cheiro a Outono é demasiado especial para não ser mencionado. São meses que correm sem que se lhes dê o devido valor, talvez porque os dias vão encurtando.

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Voltar, novamente

De início amedrontado tudo lhe pareceu demasiado novo e desafiante. Como se não lhe pesasse nenhuma daquelas conquistas passadas, voltara a partir para um novo arranque, com novas pessoas, nova casa, nova rotina, novo percurso.

Ao fim de seis meses, um colega disse-lhe, em reacção a um comentário firme: “Olha ela agora, que no início era ai de mim que Londres assusta!”. Com os seus dois metros, as suas tight jeans amarelas, caracóis castanhos e sotaque mais do que inglês, percebeu depressa que conhecê-la era como ler Fernando Pessoa: primeiro estranha, depois entranha.

Estranhou, entranhou e entregou-se. Nunca pensou que fosse realmente viável, pelo menos a tão curto prazo, aprender a escrever sobre um dos seus grandes fascínios: saúde. Sim, que a saúde é o nosso bem mais precioso – tudo o resto depende de nós.

Todos os dias aprendia algo novo, nem que fosse uma palavra; trocou o frio continental pelo frio ameno, ventoso e chuvoso. O olhar sobre os londrinos que outrora vinha de fora transformou-se aos poucos, ele próprio, num olhar londrino. Quando regressava ao núcleo fervoroso da capital – coisa rara – percebia que já tinha perdido o estatuto daqueles turistas. Soube bem a constatação, que ela não gosta nada de guias.

E afinal o que fez ela ali? Viveu e aprendeu, como em paragens anteriores. E a verdade é que nunca planeou nada daquilo. Foi surgindo. Mas em casa continuava o discurso de admiração sobre alguém que ambiciona, cruza fronteiras e acaba por conquistar. Como se de nada mais precisasse.

A verdade, no entanto, é como dizia o brasileiro: “Não tendo, a gente se satisfaz. Tendo, a gente quer mais.”

As grandezas tornaram-se pequenas e a pequenez ganhou valor. Até a pequenez do seu país – e ainda bem. Tal como uma celebridade daquelas das revistas, por detrás do sorriso pode bem estar uma alma solitária que quer saltar para a multidão, fazer parte dela. O problema, vê-se, é que a multidão olha e reage como se ela se tivesse tornado numa anormal de sucesso, a quem não se precisa, ou pode, estender a mão.

Fecham-se os cadernos, gravam-se as bylines, desligam-se os gravadores. É hora de fazer a mala novamente. Desta vez não porque quisesse vir embora, mas porque a oportunidade com que sempre sonhara surgiu. E por acaso voltava a ser além-fronteiras. Será mais um arranque, com novas pessoas, nova casa, nova rotina. E um percurso que continua a ser delineado.

Não sabe onde vai parar, mas tem a certeza que a estrada não é recta.

É curva. E tende a curvar para trás.

 

A caminho da Saúde

Desde pequenina, sempre gostei de espreitar pela varanda lá de casa. A Irene, como sempre, tomava conta de nós: “não te podes pendurar, senão cais lá abaixo.” E eis que eu respondo muito naturalmente: “Não faz mal, a Mãe é médica!”

Devia ter uns cinco anos.

A minha paixão pela medicina é antiga, mas durante muito tempo foi recalcada. Acho que me passou pela cabeça estudá-la, mas depressa desisti. Muitas vezes as aulas de física, química e ciências não entravam bem no meu cérebro. Até porque, por maior que seja este fascínio, a minha grande paixão sempre foi escrever.

Hoje tenho o privilégio de estar a estudar formas de escrever sobre medicina, saúde, ciências, meio ambiente. O jornalismo é muitas vezes ingrato, há muita pressão – em termos de tempo, fontes e princípios. Factores que muitas vezes se sobrepõem à qualidade do conteúdo. E mesmo quando acreditamos ter produzido bom conteúdo, facilmente esquecemos. Porque o mundo não pára e por isso o jornalismo também não.

Desafio-me a parar o ritmo alucinante deste curso e a rever por momentos o que tenho feito nos últimos meses. O sentimento geral é de aprendizagem útil, realização profissional e desenvolvimento de ideias. Novos sonhos.

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A medicina à medida de cada um

(…)

Quando alinhava estas reflexões veio-me à ideia que entro agora na última década em que irei exercer em pleno o ofício que aprendi há 40 anos. Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa. É que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, perca a sua face humana, que esqueça a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, ainda se não descobriu o modo de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão.

João Lobo Antunes, neurocirurgião

in Revista Única, EXPRESSO, 31.12.2009

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