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Sexta-feira

Quem vem a Londres só por uns dias não se apercebe do que a sexta-feira tem de londrino. Os chefes – que os turistas não têm – apressam-se a despachar trabalho, olham impacientes para o relógio, fazem telefonemas no escritório de já-vou, trocam ideias sobre a escolha do pub para esta semana; se for uma ocasião especial, já estará marcado há uns meses.

À sexta-feira à tarde, a população activa de Londres atira-se para bares tradicionalmente britânicos, de madeira escura, de tapetes verde-escuros, de luzes aconchegantes. Mesas partilham-se com desconhecidos, homens cambaleantes de fato entornam cerveja, as inglesas de cabelo loiro-esparguete e vestidos curtos às flores pisam-nos sem querer e sorriem para trás de olhos revirados um hiper bem-educado sorray. O cliente do pub é uma pessoa feliz.

Quem por cá está de passagem e pára num pub à sexta-feira não se apercebe que a maioria dos grupos que ali convivem são de equipas de trabalho. Colegas que das nove às cinco se e-mailam profissionalmente, e das cinco à meia-noite partilham piadas e rotinas de uma vida pessoal. Que em Londres não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar uma família emprestada.

Quando não vamos ao pub com os colegas, vamos com os amigos. Fala-se de viagens, de onde vives agora, como está a correr o trabalho, e prometemos todos ver-nos mais vezes.

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Dias longos de verão feliz

O verão começou, ainda que tímido; não percebo com que legitimidade lhe tiraram a letra maiúscula. O meu verão – de, por enquanto, menos de 48 horas – tem sido bastante feliz. Duas semanas de trabalho novo, ideias, desafios, aprendizagens, vontades e tudo o que descreverei depois. (Sabem, eu gosto de deixar algumas coisas para “depois”.)

Surge o fim-de-semana para explorar terraços de verão quando as nuvens dão tréguas, meio na dúvida. Vou parar à casa da minha nova chefe, lá no faroeste da Maria Londres, em consequência de convite após – repito – duas semanas de trabalho. Uma chefe de sorriso contagiante, sangue indiano, educação britânico-norte-americana, marido de San Diego que conheceu durante uma vida nómada entre as Filipinas e Manhattan. Eis que estamos à-mesa-à-americana, prato vegetariano ao colo, acompanhados de um economista de saúde dinamarquês e um geek de startups com três-quase-quatro-passaportes (sendo que o original é jamaicano e eu perdi a sequência das restantes histórias).

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Dentro do Tubo – II

Um flash de ontem, quando ia a caminho de Notting Hill, na Central Line. À minha frente, da direita para a esquerda, sentados:

– uma rapariga com ar doce segura um ramo gigante de flores que quase lhe tapa a cara

– um rapaz que devia vir de Shoreditch, de headphones nos ouvidos e um ar muito trendy

– um quarentão gordo de fato de treino e ar de quem não tomou banho

– uma chinoca pequenina, querida, de meia-idade, que simplesmente… fala sozinha numa língua estranha

– uma jovem trabalhadora pronta para aterrar em Notting Hill, impecável da cabeça aos pés, a ler no seu iPad.

Histórias de vida numa carruagem a muitos metros de profundidade.

Dentro do tubo

Dou de caras com o Sneijder à saída do metro. Espera, é só um anúncio da Nike. Passo tão depressa por ele como pelas pessoas que correm. No tube não podemos parar, porque somos atropelados. Os corredores claustrofóbicos a não sei quantos metros de profundidade são para quem já os conhece; eu diria que Angel, Old Street e King’s Cross já me estão na palma da mão.

O Oyster Card (sim, um passe com nome de ostra e caro como as ostras: 18 libras por semana, e é preço de estudante) passa em gesto automático pelas trancas. Música nos ouvidos enquanto entro nas intermináveis escadas rolantes lá para baixo, de manhã. Gente, muita gente. Stand on the right: se tens pressa, dá um passo à esquerda e desce a correr. Muitas vezes é o caso.


Mapa do metro de Londres

 

De tão maquinal que se tornou o metro de Londres, surgiu uma profissão nova. Em hora de ponta, quando chegamos a ter de esperar por dois comboios (tudo bem que só se esperam dois minutos) até conseguirmos entrar numa carruagem, há um senhor ou uma senhora na plataforma a falar ao altifalante. Fico com vontade de tirar os headphones. É um gesto humano numa atmosfera impessoal: “senhores passageiros, por favor deixem as pessoas sair antes de entrarem na carruagem, aproveitem todo o espaço dentro da carruagem, por favor não sejam impacientes, dentro de dois minutos virá outro comboio, não forcem as portas”.






De repente a mesma voz diz: Mind the closing doors please, stay clear of the closing doors please… PLEASE LEAVE THE DOORS ALONE!!... – e um suspiro sorridente ecoa na plataforma.

Ou, num outro caso, a voz é feminina: Mind the closing doors please, stay clear of the closing doors… well done, I will see you tomorrow.

Seja Michael Jackson, Sting ou Carlos do Carmo a tocar aos meus ouvidos, os olhos não param de observar quem me rodeia: este de fato e gravata a ler o London Evening Standard, aquela de roupa vintage a pôr baton, aquele gordo com uma mala gigante a caminho do aeroporto, tantos a ler o Metro, tantos a jogar tetris nos seus iphones e androids, ou a despachar emails no blackberry até terem rede “lá em cima” para os enviar, poucos sorrisos, pouco ar puro, muita sensação de sufoco e vontade de chegar a casa.

Quando, no fundo, quase ninguém identifica Londres como “casa”.

Sobem-se e descem-se escadas rolantes, vira-se à esquerda para a northern line, à direita para a picadilly, hesita-se entre east e westbound, o percurso traçado na cabeça. Que em Londres não há tempo a perder, mas há que ter sempre cuidado com as portas, não vão elas entalar-nos as costas.

Londres é rotina urbana que tanto repugna como fascina. Dá-me saudades de Nova Iorque.


Da cidade que nunca dorme II: Gente do Mundo

Vários países, incluindo os Estados Unidos, confrontam-se com o incómodo pelo que é cosmopolita, por vezes ao ponto da xenofobia. Aquilo que para uns é encantador, é para outros motivo de fuga. A mistura em Nova Iorque não é a sua essência, não é Nova Iorque por ser multicultural; Nova Iorque é multicultural e não perde a sua essência por isso. Talvez porque o nova-iorquino tenha uma marca forte na cidade.

A comunidade negra nos Estados Unidos é motivo de polémica e patriotismo e tem diferenças acentuadas de estado para estado. Em Nova Iorque, é marcante q.b. Em Manhattan, o Harlem é deles; e não deixamos de nos sentir bem-vindos por isso. Falam-nos um “black american english” muitas vezes indecifrável. Mas são alegres. A imagem deles a contorcer o corpo enquanto falam e a pôr “man” em cada frase, que é para tantos seres humanos enervante, tem em Nova Iorque um certo encanto. Quem duvida, experimente assistir à “amateur night” no Apollo Theatre, palco legendário onde os Jackson Five se lançaram, e prepare-se para rir e aplaudir. Se reparar que alguém não se levanta para os aplausos, não perca tempo a decifrar a sua nacionalidade: são alemães. Na nossa noite, estavam mesmo por trás de nós. Comentavam com estranheza as reacções histéricas dos locais, em vez de encaixarem no habitat deles. Ah, se viajar tivesse um só significado…

“Hello Ladies!”

Assim ouvimos, mais do que uma vez, pelas ruas de Manhattan. Especialmente para quem se habituou ao silêncio das ruas alemãs, estas abordagens são um poço de simpatia. Sem segundas intenções nem baixo nível. Simplesmente um olá entre quem pisa o mesmo chão.

Já o “Hello, how are you?” é mais intrigante. Empregados de casas de fast food, porteiros de hotel, vendedores de loja, todos perguntam como estamos. Para o inocente no primeiro dia de viagem, trata-se de uma simpatia que nos deixa embaraçados à procura de resposta: tenho sempre de dizer que estou fine, porque não vou contar a minha vida a quem peço uns sapatos ou uma sandes. Para o elucidado a meio da semana, a razão é clara: um “how are you?” mais ou menos sorridente pode fazer toda a diferença entre os 10%, 15% ou 20% de tip na hora de pagar a conta.

Ainda assim, a simpatia gratuita existe. Não me lembro de ver, em outras cidades tão turisticamente bombardeadas como Nova Iorque, tantas pessoas a perguntar-nos espontaneamente se nos podiam ajudar a decifrar o mapa matemático mas gigante de uma das dez maiores cidade do mundo. Ou então ao contrário: um hispânico que ali vive há mais de 25 anos ouve-nos falar português e pede-nos ajuda para se orientar no metro.

Nova Iorque são carruagens de metro, ruas e bairros

com uma jovem ruiva de óculos à Woody Allen e boina amarela,

um japonês completamente americanizado,

homens vestidos de mulheres,

“blacks” com vozeirões de “blacks” a cantar de pulmões abertos para quem passa, sem pedir nada em troca,

loiras que dizem “like” a cada três palavras,

um piano no metro,

mendigos nauseabundos,

business men de fato e gravata a falar de ressources ao telemóvel,

turistas brasileiros e espanhóis às compras

e yankees a andar à rapper de coca-cola na mão.

Nova Iorque é tudo junto – num Único espaço.

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