Tag: outono

Si mesma

Totnes

Branco, silêncio, ausência. Adesivo na boca, só saía o que é preciso, a linha na malfadada lista, de malfadada a gratificante. Quem diria que este lugar lhe faria perceber como a lista é precisa, é intrínseca, é parte de si?

Tocam as notas saltitantes, fazem-na saltar também entre o antes e o depois, o ano que passou e os tempos que lembra desde que se conhece, as listas, os saltos, a forma como sempre foi. O mesmo tempo que vai dançando, diz ele. Não lhe tem dado atenção, mas sabe bem como a sua dança a incomodava. Agora percebe-o porquê, mas ainda faz pouco para parar a tendência. Com calma vamos lá.

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Sexta-feira

Quem vem a Londres só por uns dias não se apercebe do que a sexta-feira tem de londrino. Os chefes – que os turistas não têm – apressam-se a despachar trabalho, olham impacientes para o relógio, fazem telefonemas no escritório de já-vou, trocam ideias sobre a escolha do pub para esta semana; se for uma ocasião especial, já estará marcado há uns meses.

À sexta-feira à tarde, a população activa de Londres atira-se para bares tradicionalmente britânicos, de madeira escura, de tapetes verde-escuros, de luzes aconchegantes. Mesas partilham-se com desconhecidos, homens cambaleantes de fato entornam cerveja, as inglesas de cabelo loiro-esparguete e vestidos curtos às flores pisam-nos sem querer e sorriem para trás de olhos revirados um hiper bem-educado sorray. O cliente do pub é uma pessoa feliz.

Quem por cá está de passagem e pára num pub à sexta-feira não se apercebe que a maioria dos grupos que ali convivem são de equipas de trabalho. Colegas que das nove às cinco se e-mailam profissionalmente, e das cinco à meia-noite partilham piadas e rotinas de uma vida pessoal. Que em Londres não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar uma família emprestada.

Quando não vamos ao pub com os colegas, vamos com os amigos. Fala-se de viagens, de onde vives agora, como está a correr o trabalho, e prometemos todos ver-nos mais vezes.

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Começou com garrafas de vinho vazias a promessas de coisas melhores, que nunca andamos satisfeitos. Uns dias de ressaca e o avião – o primeiro de vinte desde então, logo eu que deles desgosto – lá regressou ao monstro. O monstro já era mais apetecível, soube bem re-ouvir o mind the gap, há coisas do diabo.

Um ano de vivências de escritório, a avaliar pelo número de horas. Um ano a tentar perceber como se mantém a sanidade mental a comunicar entre cientistas de renome internacional e visão nacional, e programadores de uma ciência tão nobre como a das células humanas. (Eles também deviam ser doutores.)

Um ano em mesquinhices de dia-a-dia de escritório é suficiente para deixar escorregar a lembrança de que se trabalha pela tal causa. Felizmente, telefonemas e emails de voluntários acima dos 60 anos deram o tal abanão, como quem diz: “estás aí porque eu dou dinheiro para vocês investigarem por que raio a minha mulher teve de chegar àquele estado”. Há duas semanas, um dos nossos voluntários de 92 anos dizia-me ao telefone num inglês académico que gostava de poder ajudar mais, mas está de tal forma ancião que já nem pode guiar. Sabia lá ele que só o telefonema já me acordou à bofetada.

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Estações

Começas a aceitar-te assim mesmo, com essa mania de ver sempre adiante. E por isso gostas, ou não te importas, com a mudança de estações.

O Verão, seco e vagaroso, costuma parar-te no tempo, e isso não combina com a tua sede de pressas. Ainda assim faz-te falta, sobretudo se não existe. Sem querer precisas dele para te preparares para novos Setembros.

O Outono traz-te de volta o prazer de passear por ruas nórdicas, e sem dares conta tens a agenda cheia. De novos planos, pessoas, preparativos. O Outono combina contigo porque nunca traz expectativas; e por isso mais facilmente surpreende pela positiva.

No Inverno, enquanto muitos se fecham sobre eles mesmos, tu abres a concha a tudo o que o Norte te proporcionou até hoje. Sabes bem que sempre combinaste melhor com luvas do que chinelos, mas não gostas de admiti-lo.

O frio sorri-te, faz-te sonhar com aconchegos noutros nortes. Mas como teimas em pensar no que está adiante, o Inverno lá acaba por se tornar demais.

E então surge a Primavera, com todas aquelas fragrâncias que te extasiam. Descalças as luvas, vestes blusas leves e deixas-te levar.

Este ano calçaste luvas no Verão. Agora é hora de calçar chinelos no Inverno, e deixar que tudo recomece. Qual Primavera lá do outro lado do mundo.

 

 

 

Memória

O Verão foi de tal forma longo, tinha-se esquecido de como era o resultado da sua secura: folhas secas, amarelas, verdes, cor-de-laranja berrante. Já não via tal cenário há coisa de – pois – um ano.

A correria foi de tal forma longa, tinha-se esquecido do resultado de não se deixar parar, para pensar, para escrever.

Agora que o Verão e a correria acabaram é tempo de escrever sobre essa secura. O cheiro a Outono é demasiado especial para não ser mencionado. São meses que correm sem que se lhes dê o devido valor, talvez porque os dias vão encurtando.

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Queda – ou Outono

Nunca pensei que pudesse sentir-me tão aconchegada pelo ar frio do Outono. Chegou confuso: muito sol e muita chuva, muito calor e muito frio, manhãs frias e primaveris. Chegou – e eis que lhe dou as boas-vindas com um sorriso. Acabou o Verão pelo qual tanto esperei, e com ele o tempo em casa, os incêndios, a praia, o vento vindo do mar, a areia escaldante, as noites abafadas. E a cabeça fresca.

Esse Verão deu lugar a uma rotina que não sabe assentar, a uma mesa de projectos que não avança como queria, a uma aprendizagem sem datas, a uma sensação desconfortável de que a mudança ainda não chegou por completo. Hoje perguntei-me por que larguei eu o meu trabalho, aquilo que eu sabia fazer, o dinheiro que tanta falta faz nesta terra e as minhas noites (ou manhãs) pós-turno dedicadas ao que bem me apetecesse – por um curso onde ainda pouco sei fazer, onde o dinheiro desaparece sem entrar e onde voltar para casa significa continuar a trabalhar. Bem feita, escolheste assim. Agora aguenta.

Por outro lado, hoje na aula estava uma colega a dizer que não devia ter escolhido este curso (International Journalism) ou que nunca a deviam ter aceite. Outra colega dizia que realmente o mais sensato teria sido escolher um curso como o meu, mais especializado e por isso mais $eguro.

Acontece que sair da “escola” de noite, com os olhos a arder e a cabeça preenchida por afazeres rouba muita energia. Tanta que aqui estou, em frente ao computador com uma to-do list sem fim, sem saber por onde começar.

Apetece-me comer castanhas embrulhadas em papel de jornal e pisar a calçada portuguesa. São os efeitos do Outono – a lembrar-me que, por maior que seja a ânsia de mudança, “estamos” sempre presos ao que já passou.

 

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