Tag: pobreza

África

Histórias de família em era de guerra colonial em Moçambique. Histórias de família recém-criada, embarcada para Cabo Verde ao arranque dos anos 80. Histórias de família contadas à mesa ao longo de vinte e muitos anos. Ao fim de vinte e muitos anos, fui eu pisar solo africano pela primeira vez. Vinte e muitos anos atrasada.

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Da montanha ao deserto em 29 horas

A pasmaceira de Iruya incluiu a busca por qualquer tipo de instrumento digital com acesso à internet que nos permitisse marcar transporte e alojamento para a nossa próxima paragem – a nada mais nada menos do que 1600 quilómetros dali.

Pois que em vão batemos à porta do único cybercafé da vila, com pouca luz e muitas moscas, meia dúzia de computadores-canhão de há 20 anos atrás. “No hay internet, chicas”. Conta-nos que a antena caiu. “Mañana“. É.

Fiámo-nos na folha de papel que a señora do quiosque nos mostrou, com horários de todos os autocarros que saíam daquele fim do mundo e arredores em direcção ao sul. Só não sabíamos se o papel também tinha 20 anos, pero bueno, não tínhamos alternativa.

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Cabo das Tormentas

Eu bem queria escrever todos os dias, mas Londres não deixa. A energia desta cidade dá toda uma outra história – que fica para a próxima.

A nossa primeira viagem de autocarro por estradas argentinas passou de 9 para 14 horas. “Corrrrrienteeees!”, gritou o motorista para os mais sonolentos. Lá fora um bafo assustador. Dá propina ao señor para tirar mochila lá de trás, dá propina à señora para usar a casa-de-banho sem papel higiénico nem sabão, dá propina à señora para que nos guarde as mochilas bem à vista, sozinhas, numa barraquinha. Não há-de ser nada.

Corrientes surgiu no nosso itinerário simplesmente porque não queríamos fazer a viagem de Iguazu até Salta de uma vez. Decidimos aproveitar o dia num sítio diferente, e nessa mesma noite seguir caminho para o noroeste do país. Estávamos então muito perto do Paraguai, ao largo do seu meio-cabo terrestre mais a sul.

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De baixo

Dá vergonha de nós mesmos apressar o passo quando alguém se curva ao nosso lado, sentado no chão, enrolado numa manta suja que faz à frente uma pequena cova a aconchegar moedas. Vai uma vida inteira naquela cabeça, azares múltiplos e adversidades que já não sabe como gerir. Dá vontade de nos curvarmos a fazer perguntas, a querer saber do que precisa e como podemos ajudar. Mas parece que a sociedade nos puxa para trás, não nos deixa pegar nestas pessoas e trazê-las para casa, adoptá-las para sempre ou simplesmente oferecer-lhes uma sopa quente e ouvidos de amigo por um serão. Como já não é Natal, não há desculpa para boas acções. Então apressamos o passo quando esse alguém pede esmola em silêncio, ao nosso lado, abaixo de nós, cabisbaixo, triste, infeliz. Fingimos que não vemos, concentramo-nos na música que nos entra nos ouvidos por um aparelho cujo preço lhe teria pago muitas refeições. Aconchegamos as mãos nos bolsos como gente estúpida e egoísta que não se lembra que enquanto as nossas mãos estão frias todo o corpo dele está gelado. Uns passos à frente o pensamento negativo esvai-se, porque o telefone toca – e o dia prossegue. Mais tarde fala-se em crise e limiar da pobreza, mas esquece-se a história humana que cada corpo curvado acarreta.

Desviar os olhos de um mendigo é desprezá-lo, e tudo o que um mendigo mais tem e menos precisa é de desprezo.

E depois?

Depois vimos para casa escrever sobre eles. Enquanto eles congelam lá fora.

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