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Cinco meses de Portugalidade

Não me lembrava de ter vivido tanta coisa em apenas cinco meses desde os tempos de Erasmus. E não me lembro da última vez que passei tanto tempo sem apanhar um avião.

Naquela tenra altura falava em apanhar o comboio para “ir ter comigo mesma”. Pois que aterrei de avião na minha terra precisamente para me encontrar de novo com este self amadurecidamente saltitante. Apesar do peso dos verbos voltar, estar, ficar, só agora olho para trás e reparo que mais tem sido um reboliço de areia a tentar assentar, molhar-se, enraizar-se.

E que bem que me tem sabido. Ver a minha Lisboa de prédios re-erguidos, de ruas e esplanadas cheias. Até o queixume que se me voltou do “antes é que era bom”, quando as casas tinham preços decentes. Só que não era bom coisa nenhuma -não me vou esquecer do aperto no coração que me davam as visitas de lá para cá às pinguinhas, trazendo histórias e ordenado e sorrisos fresquinhos, mas tudo o que ouvia era a crise e tudo o que via era a crise – nas ruas, nas arcadas, na calçada portuguesa molhada de tristeza. Tudo o que via era o meu silêncio envergonhado de quem saltara do barco que se afundava, achando que não tinha legitimidade para me queixar do que me custava do lado de lá. (Com os anos aprendi que toda a dor é legítima, mas isso é outra conversa.)

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10 pontos ofuscados pela indignação de uma morte por sarampo

 Ou o meu fascínio por comunicação sobre saúde:

vacinação de crianças

Foto: Wilson Dias

1) Vivemos uma era em que até as relações humanas e sociais são artificiais. É natural que o mundo ocidental e moderno queira “voltar às origens”. Mas desvalorizar a evidência científica é arrogância e desprezo por séculos de progresso.

2) Essa mesma evidência científica leva muitíssimos anos a conquistar e é muitas vezes financiada pelos nossos impostos. Se não confiamos nela é porque precisamos de aprender a interpretá-la.

3) Qualquer fármaco tem possíveis riscos. Mas se a evidência científica e as autoridades reguladoras os colocam no mercado é porque serão mais benéficos do que prejudiciais para a saúde pública.

4) Nunca percam a oportunidade de explicar à pessoa do lado o conceito de saúde pública: uma decisão aparentemente benéfica para uma pessoa pode pôr toda a comunidade em risco. A saúde pública deve ser vista como qualquer outra regra da democracia e da vida em sociedade.

5) Milhões de pessoas em África e na Ásia vêem a morte à sua frente, todo o santo dia, por doenças que se podem prevenir e até tratar. Se vissem gente “rica e limpa” a recusar vacinas ou medicamentos iriam rir para não chorar. (rima despropositada)

6) Muitos dos lesados por surtos como estes são profissionais de saúde – os mesmos que são constantemente chicoteados pela opinião pública.

7) Portugal tem uma cobertura de vacinação invejável a muitos países europeus. Nenhum Serviço Nacional de Saúde é perfeito e o nosso dá razões mais do que suficientes para nos orgulharmos dele.

8) Não interessa se a vacina é obrigatória ou não. Interessa educar para saber aceder, compreender e confiar em informação de qualidade, para então poder tomar decisões informadas.

9) Temos de pôr fim ao combate entre a ciência e a opinião, apelou e bem o Ministro da Saúde. Mas para isso precisamos de professores e de tecnologias de informação que ensinem, sobretudo os mais novos, a distinguir uma da outra.

10) Chega de provas de que precisamos urgentemente de melhor literacia em saúde?

(agora chega de blá blá – comunicar é importante mas fazer pela comunicação é mais)

gráfico sobre mensagens chave da saúde pública

Foto: National Health Corps

 

Ser português

Ser português é pedir um ramo de salsa ao vizinho e ficar lá meia hora a conversar. Ser português é falar alto na rua e nos restaurantes sem notar. Ser Português é ter o melhor jogador de futebol do mundo e não gostar muito dele até vir alguém de fora criticar. Ser português é ter na guelra o sangue quente arrefecido por uma ditadura. Ser português é ter poesia de revolução e fazê-la sem violência e de cravo na mão. Ser português é comer chouriço assado na lareira com mais prazer do que ir ao restaurante gourmet. Ser português é revoltarmo-nos quando nos dizem que o limite passa de 0,5 para 0,2, porque ser português é beber vinho, cerveja e agua-ardente.

Ser português é ter orgulho em sê-lo mesmo quando se diz o contrário. É ir lá fora e falar de fado, da comida, da praia, de tudo o que nos orgulhamos quando temos saudades. Ser português é ter saudades. É ter saudades do sol, das sopas da avo, dos cafés e cigarros na esplanada com os amigos. Ser português é ter saudades e não esquecer. É ser nostálgico mas ter amnésia selectiva de 4 em 4 anos e queixar-se que está tudo na mesma.

Ser português é desenrascar. É encontrar caminho sem perguntar. Ser português é pedir indicações e ter logo a ajuda de vários estranhos. Ser português é tentar a borla seja do que for. Ser português é oferecer só porque se simpatizou com alguém. Ser português é ter os melhores lá fora porque é lá fora que se faz o melhor. Ser português é ter o mar no horizonte e nunca olhar para terra, é seguir em frente até o mar acabar, é descobrir, sonhar e inventar.”

E ser português é isso. Ser português é ser muita coisa.

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O que somos, consoante onde estamos

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As notas de rodapé televisivas diziam que as resoluções de ano novo (ai a conveniência dos estrangeirismos atropelados) são emagrecer, ir ao ginásio e deixar de fumar. Parece-me tão obviamente português que me ponho a pensar qual seria a lista na Inglaterra que me adoptou: provavelmente viajar para algum país ainda desconhecido, mudar de trabalho e beber menos unidades alcoólicas por semana.

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Dia de Camões: a Guerra há quatro décadas

“No regresso, a 10 de Junho, há uma nova vida promissora. Exactamente 43 anos depois da minha chegada a Lourenço Marques, onde me deram uma espingarda com 100 balas verdadeiras. Consegui voltar para ser feliz e ter o meu Tano.”

Disse-me o meu Pai há uns dias.

Que eu ouse sequer um dia queixar-me da vida que tenho.

 

“Somos um pequeno e desgraçado país”

Por Clara Ferreira Alves

Somos um pequeno e desgraçado país. Não somos pequenos e desgraçados porque sempre fomos; afinal não somos o Haiti, não somos a Bolívia, não somos a Serra Leoa, não somos o Uganda, não somos a Moldávia, não somos a Guiné; não somos assim porque nos fizeram assim, não fomos colonizados, não descendemos de escravos, não fomos deportados, explorados, invadidos, vencidos. A União Soviética não nos pisou com bota cardada e a Alemanha não nos ocupoiu. Tivemos um ditador e tivemos a revolução sem sangue e a criação da democracia e dos partidos. Tivemos os fundos europeus e a absorção de um milhão de retornados. Tivemos colónias, ouro, escravos e uma história que não nos envergonha. Temos uma longa e estabelecida nacionalidade. Temos a coragem e o génio de ter escapado a Castela. Temos a miscigenação, a lírica e a épica. Temos as descobertas e a geração de Aviz. Temos uma identidade e uma cultura, temos uma língua falada por milhões. Temos 800 km de praia e sol.

Temos muitas razões para sermos felizes. E não somos. Somos um pequeno, desgraçado e deprimido país que se queixa por tudo e por nada, que se detesta e detesta o sucesso alheio, que aniquila a qualidade e promove a incompetência, que deixou que a administração pública fosse tomada de assalto por parasitas partidários, por gestores imorais e por políticos corruptos ou que fecham os olhos e promovem a corrupção como forma de manutenção do poder. Somos um país sem esperança onde nada avança e nada acontece, como escrevia o poeta Ruy Belo.

Sai-se da pátria e regressa-se à pátria e as notícias são as mesmas; é como se o mundo girasse e nós parados. À espera do apocalipse. Tudo nos diz que amanhã será pior e toda a gente nos pede mais sacrifícios, mais penúria e mais infelicidade. É impossível levantar um país de vencidos ou convencê-lo a fazer alguma coisa por si. Leio as notícias sobre o extraordinário salário de António Mexia, da EDP, de 3,1 milhões anuais, e penso o que pensa uma pessoa normal: não vale a pena. Os velhos morrem de frio no Inverno porque não têm dinheiro para pagar “a luz” e o senhor energia tem um salário igual ao dos melhores 200 gestores americanos. Numa empresa falsamente privatizada que floresce num regime de monopólio e em que o Estado é o maior accionista. E aquilo é o salário, fora os benefícios e os cartões. Fora as reformas e as pensões. A permanente resignação perante a imoralidade é que nos torna passivos, fracos, assustados, irresolutos e cúmplices da delapidação do nosso dinheiro. E um governo socialista autorizou isto e promoveu isto. E pior do que isto. não se trata de premiar o mérito, trata-se de premiar a estupidez. Porque deixamos isto passar.

Imagine-se que nos acontecia uma verdadeira desgraça. Quando Wall Street veio por aí abaixo eu estava em NY e fui a Wall Street. Vi banqueiros e financeiros saírem de cabeça coberta por jornais a meterem-se nos buracos do metro, envergonhados. Insultados. O mundo pensou que era o fim do seu mundo. Que o sistema capitalista tinha acabado. Etc. O capitalismo não acabou, nem vai acabar. Regenerou-se no que foi obrigado. A linguagem e a política que Obama adoptou tiveram efeitos. A América sai da crise, com os seus desempregados. A seu modo, brutal, corrige as falhas. Ali, a política ainda conta e o sistema de justiça funciona (com erros e defeitos) e faz funcionar a democracia. Acima de tudo, os americanos acreditam na América e têm o optimismo do copo meio cheio. A América, um grande e engraçado país, não perde tempo em lamúrias. Já se fazem piadas sobre o 11 de Setembro e sobre o crash das bolsas e dos bancos. A América reconstrói-se todos os dias e recomeça. Analisar a vitória política de Obama com o seu Plano de Saúde é uma lição de política, tanto para os republicanos como para os democratas.

A América é um país que corre para a excelência e que rejeita a mediocridade. E a um ciclo de mediocridade segue-se um de excelência porque a rota corrige automaticamente. O sistema autocorrige-se na passagem do tempo. As torres que vão surgir no WTC serão as mais altas do mundo. Esta dose de megalomania é saudável porque toda a gente precisa de símbolos e modelos. Em Portugal, deixámos de ter símbolos e não temos modelos. O português mais influente é um jogador de futebol. O segundo mais influente é um treinador de futebol. E ponto final. Temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem história ludibriada por autodidactas ou por rapazes com cursos tirados no estrangeiro que chegam a Portugal com um objectivo: enriquecer. Enriquecer à sombra do partido, do padrinho na banca e do Estado. De nós. E a justiça trata de si e dos seus privilégios. Somos um pequeno e desgraçado país.

In revista Única, Expresso, 10/04/2010

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