Tag: saudade

Fecha-se o ciclo

Leipzig 2007-2017

Dizem que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Eu, que nem sou de riscos, resolvi vir parar a Leipzig dez anos depois do ano em que senti uma concentração tal de felicidade que parecia nem caber em mim.

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Carta de uma emigrante ao Santo António

Querido Santo António,

Vim à nossa Lisboa mais uma vez. (Vim, fui, estou, sou, sinto; nunca sei que verbo usar). Gosto de falar contigo sempre que me vejo a sobrevoar a nossa costa e as nossas sete colinas, inchada de orgulho para os branquinhos que ao meu lado no avião sussurram beautiful’s e wunderschön’s como quem lhes quer dizer: é minha!

Acompanhas-me nestas lides de emigrante europeia (ai o que seria de mim se transatlântica) há meia dúzia de anos. Já me viste tanto histérica como deprimida de por cá andar sobre a calçada que já não me é rotina. Essa calçada que piso sem pressas, que todos os restantes passos são vagarosos e põem a Maria Londres em memórias distantes. Até as escadas rolantes são mais lentas e ninguém nelas corre pela esquerda. Aliás: ninguém corre.

Cá (ou lá) as minhas pernas entram em repouso, que não caminho nem um décimo das milhas londrinas, e passo o tempo sentada – a comer ou no carro ou nos tais passos vagarosos. Vagarosos também os convívios, e que bem que sabe vir ter contigo no mês em que tudo se enche de sorrisos e tragos e passos de dança leves.

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Enquanto eu transito. Por palavras alheias

Numa altura em que as palavras (ainda) teimam em não sair, nada como suspirar de alivio quando alguém escreve exactamente aquilo que queremos dizer. Com a diferença de que sempre fui afortunadamente recebida no aeroporto.

Por Sónia Balacó

Estou no autocarro a caminho de casa dos meus pais. Até aqui apanhei um taxi, um metro, um comboio, um avião, outro taxi e agora este autocarro. Numa das paragens vejo um filho ser recebido com gritos pela família, o pai a esfregar-lhe a barriga, o irmão a gargalhar e a mãe com os braços muito abertos. Sei imediatamente que ele vem de longe, como eu, de uma distância que não se pode atravessar sempre que se quer, uma distância que nos impede de pertencer à rotina.

Lembro a minha primeira grande despedida, há 4 anos. No aeroporto, entre família e amigos, aguentei com um nó na garganta as lágrimas alheias e percebi que a felicidade está directamente ligada ao amor destas pessoas que a vida fez o favor de colocar ao meu lado, pessoas que me amam e ao mesmo tempo compreendem que tenho de ir.

Desde então já vivi muitos reencontros e muitas despedidas, já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir, já fui só abraços e alegria, e já vivi a solidão de chegar a sítios onde ninguém me espera. Enquanto eu transito, estas pessoas aguardam na repetição dos dias que a minha chegada os torne um bocadinho mais cheios.

A caminho, penso no conforto estrutural e inabalável do quotidiano, que a minha ausência não faz colapsar. Um sítio-amor a que posso voltar sempre, e onde sinto que nunca fui embora. Estou constantemente em dívida, de arma em riste contra a ausência, e ainda assim falho, porque não consigo melhor.

Chego pelo mesmo caminho de sempre, de que conheço todas as curvas e cruzamentos. Adivinho o sorriso e o abraço apertado, abraço por todos os abraços que ficaram por dar hoje, esta semana, este mês. Antecipo o cheiro a jantar, o ruído da televisão na sala, os desenhos da toalha na mesa. Sei de cor como será a minha chegada, de tantas vezes que a vivi. Sei-a tão bem que me parece sempre a mesma, uma eterna chegada a uns braços abertos.

A saudade, que só se tem em ausência, é ainda assim um saco que nunca se esvazia, mesmo quando estamos juntos todos os dias, porque são dias contados. Nunca poderei devolver a quem amo os dias que lhes retirei. Posso só tentar que os que partilhamos sejam grandes. Posso só ser mais amor, tentar ser menos falha, e pedir com a humildade da minha pequenez que a vida me permita dar-lhes muito mais.

 

Aromas que falam

És tão invisível e ao mesmo tempo tão presente. Tens uma marca forte e intensa. Fazes-te de sons e de imagens. Mas, para mim, fazes-te sobretudo de cheiros.

No passado fim-de-semana estive no coração do capitalismo: Oxford Street, centro de Londres. Mas não foi Londres que eu cheirei. Quando senti aquele aroma de gaufres belgas com chocolate, estava a passear junto à Grand Place ou a subir as escadas do metro para o Berlaymont.

Ultimamente também tens encarnado os meus amigos da pacata cidade de Bona, que me vêm agudizar o transtorno de tantas vezes ter tido vontade de me ir embora, quando agora sinto falta daquele frio seco, do silêncio, dos olhares que não se cruzam nas ruas.

Fazes-me pensar tantas vezes que tudo é tão irónico.

O que eu acho mais curioso em ti é a forma como te apoderas de mim. A barriga estremece, os olhos ficam molhados, o coração bate mais forte. Quando fecho os olhos antes de adormecer, entras no meu cérebro de mansinho e deixas-me imaginar que estou perto daquela pessoa, daquela sala, daquele mar, daquela praça. Sem pedir nada em troca.

Fazes-te de contrastes. Quando tenho frio, lembras-me o calor. Quando o bafo me abafa as forças, trazes-me de volta aos dias gelados. Lembras-me que nunca estamos satisfeitos.

Todos falam de ti e identificam-se contigo, mas a verdade é que nunca nos encontramos, todos, juntos. Às vezes na rua dá para identificar quem contigo conversa: pessoas que caminham sozinhas a sorrir. Ou a chorar. Costumava acontecer-me enquanto andava de bicicleta em Leipzig. Num sentimento discreto de liberdade.

Por esta altura do ano, visitas muita gente. Gente que gostaríamos de ter por perto, gente que tem e deixa tanto por dizer – e gente que na verdade não queres visitar.

Nos últimos dias tens-me atacado com menos subtileza. Acordo ansiosa. A recordação da aterragem na minha Lisboa, em Fevereiro de 2007, depois de pela primeira vez ter estado tanto tempo longe de casa, parece agora mais nítida que nunca.

Mas de resto és suave e indiscreta. E tens forma.

E nome.

saudade

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