Tag: solidariedade

Trabalho na sociedade de Alzheimer. “Onde é que trabalhas mesmo?”

Foi esta a reacção anedótica que tive ao longo dos últimos 20 meses, sempre que falava sobre o meu trabalho. E antes que me deixe afundar na informação do novo desafio, fica o pequeno relato da minha contribuição para o mundo nesta área.

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Alimentar sem-abrigo

Já disse aqui aqui que não suporto ver fome e pessoas sem casa. É difícil falar disso sem soar hipócrita, que todos nós dizemos o mesmo e diariamente ignoramos mendigos pelo canto do olho, enquanto as moedas chocalham na carteira e os cartões se preparam para comprar lazer online.

Tenho tentado fazer alguma coisa para mudar de reacção à minha própria hipocrisia. Há um senhor de olhos muito azuis e pele muito doente que todas as manhãs – geladas há praticamente meio ano – está sentado em cima de uma pilha de jornais num túnel debaixo da grandiosa Tower Bridge, mesmo ao lado do meu trabalho. Todo ele é cabisbaixo, excepto o copo de cartão que estende aos transeuntes. Pergunto “would you like some food?” e oiço um “yes please” muito triste ainda não acabei a frase. Já lhe dei bananas e bolachas. Já me pediu para ver se o folhado que lhe deram tinha alho “because I’m terribly allergic”. Olhos azuis. Não sei que vida têm. Todos os dias.

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Da montanha ao deserto em 29 horas

A pasmaceira de Iruya incluiu a busca por qualquer tipo de instrumento digital com acesso à internet que nos permitisse marcar transporte e alojamento para a nossa próxima paragem – a nada mais nada menos do que 1600 quilómetros dali.

Pois que em vão batemos à porta do único cybercafé da vila, com pouca luz e muitas moscas, meia dúzia de computadores-canhão de há 20 anos atrás. “No hay internet, chicas”. Conta-nos que a antena caiu. “Mañana“. É.

Fiámo-nos na folha de papel que a señora do quiosque nos mostrou, com horários de todos os autocarros que saíam daquele fim do mundo e arredores em direcção ao sul. Só não sabíamos se o papel também tinha 20 anos, pero bueno, não tínhamos alternativa.

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De baixo

Dá vergonha de nós mesmos apressar o passo quando alguém se curva ao nosso lado, sentado no chão, enrolado numa manta suja que faz à frente uma pequena cova a aconchegar moedas. Vai uma vida inteira naquela cabeça, azares múltiplos e adversidades que já não sabe como gerir. Dá vontade de nos curvarmos a fazer perguntas, a querer saber do que precisa e como podemos ajudar. Mas parece que a sociedade nos puxa para trás, não nos deixa pegar nestas pessoas e trazê-las para casa, adoptá-las para sempre ou simplesmente oferecer-lhes uma sopa quente e ouvidos de amigo por um serão. Como já não é Natal, não há desculpa para boas acções. Então apressamos o passo quando esse alguém pede esmola em silêncio, ao nosso lado, abaixo de nós, cabisbaixo, triste, infeliz. Fingimos que não vemos, concentramo-nos na música que nos entra nos ouvidos por um aparelho cujo preço lhe teria pago muitas refeições. Aconchegamos as mãos nos bolsos como gente estúpida e egoísta que não se lembra que enquanto as nossas mãos estão frias todo o corpo dele está gelado. Uns passos à frente o pensamento negativo esvai-se, porque o telefone toca – e o dia prossegue. Mais tarde fala-se em crise e limiar da pobreza, mas esquece-se a história humana que cada corpo curvado acarreta.

Desviar os olhos de um mendigo é desprezá-lo, e tudo o que um mendigo mais tem e menos precisa é de desprezo.

E depois?

Depois vimos para casa escrever sobre eles. Enquanto eles congelam lá fora.

Ajudar a treinar para aprender a guiar quem não vê

Chuva-molha-parvos, chapéu de chuva demasiado barato para não virar ao contrário, pés frios, vontade de chegar a casa depressa. Mas um rapaz, daqueles que têm a tarefa ingrata de convencer pessoas (em Londres!) a parar a sua correria para serem convencidos de alguma coisa, abordou-me de uma forma que realmente me fez parar.

“Se a miss tivesse de andar dez metros de olhos fechados, como se sentiria?”

Imediatamente me lembrei do Felisberto Assuba, esse moçambicano inspirador que conheci e tive o prazer de entrevistar no Unsichtbar de Colónia, no ano passado:

[Todos os direitos reservados à Deutsche Welle]

Respondi ao rapaz que me sentiria perdida. E então reparei que ele tinha pendurada ao pescoço a fotografia de um cão, labrador, ou também carinhosamente conhecido no meu mundo por “scottex”.

Conversei com ele sobre a minha entrevista e a minha história. E assim me deixei convencer pelo projecto: Sponsor a Puppy, ou contribuir com 7,50 £ por mês para treinar um cãozinho (à minha escolha) que virá um dia a ser o cão-guia de pessoas como o Felisberto. Treinar um cão-guia dura dois anos.

Esqueci-me das armadilhas do marketing, das lavagens cerebrais, das publicidades enganosas. Acreditei, aceitei, assinei. E fui para casa orgulhosa da minha boa acção; até me esqueci que estava a chover.

Ontem recebi em casa o meu certificado de “guide puppy sponsorship”, com um álbum de fotografias até agora preenchido apenas com a primeira foto do meu puppy. Outras virão.

A partir de agora, ainda que à distância, tenho um cão.

Kasper

Kasper Sponsor a puppy

No final, o rapaz agradeceu-me por aquele momento de conversa. “A miss foi a única pessoa que parou para falar comigo hoje.”

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