Tag: stress

Trabalhar por uma causa

O despertador tocou vinte vezes, como é costume. De barriga para baixo, empoleirada na beira da cama, o braço direito estendido dá murros aos telemóveis para se calarem. O olho nem precisa abrir para saber que está cinzento e chuvoso ali por cima. Por isso prefiro ir meia a cambalear pelas escadas abaixo, a Nadine está em trabalho em Newcastle, o Andrew só se levanta pela hora que me penteio, e os dois de baixo ainda não dão sinais.

Banho tomado, o corpo ganha outra vitalidade. Na BBC World News, a conversa entre uma jornalista em Joanesburgo e outro em Londres informa-me que a União Europeia vai reunir novamente para ver se resolve o conflito armado na Síria. Nada que me surpreenda, e por isso nada que o secador de cabelo não possa abafar por uns minutos.

Read More

Quem diria?

As palavras não saem, sabe-se lá porquê. Talvez haja demasiada calma?

A rotina encaixou como uma luva. O despertador toca sempre à mesma hora e os movimentos repetitivos tranquilizam. Quem diria? Agora já é possível fazer uma lista do que há para fazer, quando e com quem. E assim os dias passam preenchidos e terminam com a sensação de dever feito. O tempo segue uma sequência, e quem diria que isso traria prazer ao invés de monotonia.

A única coisa que pode, eventualmente, incomodar é o individualismo do ritmo urbano. Não obstante o sorriso que esta correria provoca, sem querer também acaba por cansar.

Deixemo-nos de incómodos, “though”. A vantagem desse cada um por si é que podes pegar no teu caderno e escrever (quando escrevias), podes pegar na tua agenda e planear (como antes não podias), e podes pegar naquele livro e lê-lo (como sempre adiaste). Já ninguém te força a assimilar uma informação específica. O livro cria paisagens coloridas na mente, sorrisos genuínos e ar puro. Ainda que se desconheça a companhia, parece certo que viajar traz bons ventos. Lê-se, ouve-se, conversa-se sobre aquele mais e mais que todos procuram. Ninguém se satisfaz. Mas há quem tenha aprendido a respirar fundo e a relativizar.

Quem diria que isso realmente pudesse ajudar a seguir em frente com a sensação de vitalidade e de uma missão a cumprir pelo mundo. Tudo isto se molda no meio de milhares de cabeças confusas, preocupadas, preenchidas, doentes. Quando a tal paisagem colorida ilumina uma mente, a mesma luz ajuda a realtivizar tudo o resto – por comparação com aqueles que se sentem realmente desamparados.

Se não existem buracos verdadeiramente negros, então que se respire fundo e continue a viver. A vida está cheia de bons laços e bons princípios. Há que acordar sem preguiça e aproveitar tudo isso. O resto não presta. E por não prestar vai fora. Afinal, quando se prepara o despertador ao final do dia, a sensação deve ser a de preenchimento. Quanto mais nao seja pela tal causa.

Dentro do tubo

Dou de caras com o Sneijder à saída do metro. Espera, é só um anúncio da Nike. Passo tão depressa por ele como pelas pessoas que correm. No tube não podemos parar, porque somos atropelados. Os corredores claustrofóbicos a não sei quantos metros de profundidade são para quem já os conhece; eu diria que Angel, Old Street e King’s Cross já me estão na palma da mão.

O Oyster Card (sim, um passe com nome de ostra e caro como as ostras: 18 libras por semana, e é preço de estudante) passa em gesto automático pelas trancas. Música nos ouvidos enquanto entro nas intermináveis escadas rolantes lá para baixo, de manhã. Gente, muita gente. Stand on the right: se tens pressa, dá um passo à esquerda e desce a correr. Muitas vezes é o caso.


Mapa do metro de Londres

 

De tão maquinal que se tornou o metro de Londres, surgiu uma profissão nova. Em hora de ponta, quando chegamos a ter de esperar por dois comboios (tudo bem que só se esperam dois minutos) até conseguirmos entrar numa carruagem, há um senhor ou uma senhora na plataforma a falar ao altifalante. Fico com vontade de tirar os headphones. É um gesto humano numa atmosfera impessoal: “senhores passageiros, por favor deixem as pessoas sair antes de entrarem na carruagem, aproveitem todo o espaço dentro da carruagem, por favor não sejam impacientes, dentro de dois minutos virá outro comboio, não forcem as portas”.






De repente a mesma voz diz: Mind the closing doors please, stay clear of the closing doors please… PLEASE LEAVE THE DOORS ALONE!!... – e um suspiro sorridente ecoa na plataforma.

Ou, num outro caso, a voz é feminina: Mind the closing doors please, stay clear of the closing doors… well done, I will see you tomorrow.

Seja Michael Jackson, Sting ou Carlos do Carmo a tocar aos meus ouvidos, os olhos não param de observar quem me rodeia: este de fato e gravata a ler o London Evening Standard, aquela de roupa vintage a pôr baton, aquele gordo com uma mala gigante a caminho do aeroporto, tantos a ler o Metro, tantos a jogar tetris nos seus iphones e androids, ou a despachar emails no blackberry até terem rede “lá em cima” para os enviar, poucos sorrisos, pouco ar puro, muita sensação de sufoco e vontade de chegar a casa.

Quando, no fundo, quase ninguém identifica Londres como “casa”.

Sobem-se e descem-se escadas rolantes, vira-se à esquerda para a northern line, à direita para a picadilly, hesita-se entre east e westbound, o percurso traçado na cabeça. Que em Londres não há tempo a perder, mas há que ter sempre cuidado com as portas, não vão elas entalar-nos as costas.

Londres é rotina urbana que tanto repugna como fascina. Dá-me saudades de Nova Iorque.


… e da cidade que nunca dorme V: a metrópole no seu esplendor.

Sempre me chamaram menina urbana. Amo o sol, amo o verde, amo o Alentejo, amo a praia, amo cada vez mais o Mar que tanta falta me faz. Mas a cidade sabe bem como me preencher.

Todas as características desagradáveis de uma cidade conseguem ter encanto em Nova Iorque. A poluição das dezenas de aviões que vemos no ar, do topo da torre de Rockefeller. As (muito) frequentes sirenes ensurdecedoras das carrinhas dos bombeiros, que passam a correr fazendo esticar as bandeiras dos Estados Unidos em cada retrovisor. As buzinas constantes a cada sinal que fica verde. O cheiro por vezes nauseabundo do metro. Os mendigos. E aquilo que ironicamente mais me fascina: o stress.

Quem pisa Nova Iorque, respira o stress com um sorriso. Ninguém pára; quem assim parece, é porque está a pensar que rua tomar para o seu destino. É porque está ao telefone a combinar um encontro. É porque prepara um discurso para a palestra que se segue. É porque recorda ou sonha po breves instantes.

Conversas desenrolam-se em inglês, espanhol, francês, alemão, português e línguas que nos são estranhas. Todos os assuntos diferem entre si: reuniões, planos, pratos, relações, anedotas, silêncios, discussões, reclamações, apelos e declarações. Nova Iorque é como uma loja de roupa em segunda mão: há de tudo, de todas as cores e tamanhos, para todos os gostos, e tudo com uma história dentro de si. Tudo é moderno, mas nada é novo. Tudo é muito, muito, muito.

São pessoas, bem pequeninas, num mundo bem pequenino, entre monstros que se erguem nos quarteirões que contornam a pé. Prédios que arranham os céus, que tentam chegar às nuvens, fachadas cinzentas ou em tons de vidro, cores frias. E nem assim o skyline assusta. O lego é delicioso de apreciar, e é grande a frustração quando um postal para fora não transmite nada, nada, nada do que os olhos têm o prazer de contemplar ali.


Times Square, 47th street, Broadway, 5th Avenue, Columbus Circle, ruas e avenidas sem fim.

Do Harlem ao World Trade Center, percorrendo o turismo de Midtown, respirando o ar do Central Park, passeando o bairrismo de Greenwich Village, emigrando para as ruas sujas de Chinatown.

Nova Iorque é rotina apressada, é solidão ao som de headphones, é passo acelerado para lazer e trabalho. Como em poucas outras cidades, Nova Iorque é a disponibilidade para sentar num qualquer Starbucks de esquina, numa mesa alta em frente a uma parede de vidro que dá para a rua. E saborear a sós o stress frio lá de fora, enquanto um chá quente nos escorrega pela garganta. Seguido de um sorriso serenamente feliz.

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén