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O terror empático

Je suis sick of this shit
Fiquei grudada à televisão no 11 de Setembro. A distância não impediu o meu peito adolescente de tremer nem a minha cabeça de fazer o luto por pessoas que não conhecia. Por causa de uns tais de terroristas.

Cresci, ocidental e pré-jornalista, a ver na televisão um Médio Oriente amarelo-seco com turbantes e barbas associados a gente doida. A mesma televisão que depois me contou sobre Londres e Madrid, numa era jornalística com imagens profissionais. Cidadã de um país no canto da Europa e de educação católica, quase fui forçada a ver a realidade muçulmana como diferente, estranha, longínqua.

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Homem, Jornalista, Americano – e Português.

Uma das melhores entrevistas que já vi. Luís Costa Ribas, por Daniel Oliveira, em Nova Iorque. Sobre o 11 de Setembro.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Dez anos

Já se escreveu tanto sobre aquele dia, em tantas línguas, sobre tantas histórias diferentes, sob tantas perspectivas, e ainda assim sufoco se não deitar para fora o meu testemunho. Um testemunho gratificantemente miserável, o de uma adolescente de 16 anos que estava em casa em vésperas de regressar ao colégio, na capital de um país que a Al Qaeda mal conhecia.

Quando a Mariana me ligou a pedir para que ligasse a televisão, por saber o amor que eu tinha (e tenho) àquela cidade, ingenuamente a minha reacção foi de pena extrema: aquela torre, que tanto significava para mim, estava a arder. Lembro-me de pensar duas coisas: primeiro, “será que eles conseguem recuperar aquele bocadinho?” e, segundo, “foi no topo daquela ou da outra que eu estive há quatro anos?”

Talvez eu nunca sequer tivesse ouvido a palavra “terrorismo” – e se sim, certamente nunca com a conotação que lhe dou hoje. Assisti ao embate da segunda torre em directo e nem me apercebi que aquela era uma segunda vez. Uma confirmação.

Passei o dia 11 de Setembro de 2011 sentada no sofá de minha casa, num dia  quente de verão findo, com os olhos pregados à televisão. Não conseguia falar; limitei-me a observar. Não sei se pensava sequer, mas hoje tenho a certeza que senti o jornalismo apoderar-se de mim ao imaginar-me no lugar dos pivôs das várias televisões, sobretudo da CNN, que enchiam de frases trémulas os buracos de informação.

Estava longe de conseguir perceber o que aquilo que via realmente significava: uma viragem no mundo, o início de uma guerra. E principalmente o enorme número de perdas para centenas de famílias.

O que eu percebi, naquele dia, presa ao sofá, era uma única angústia que parecia abafar tudo o resto. As minhas torres tinham deixado de existir.

Da cidade que nunca dorme IV – Conviver com o Terror


Nova Iorque continua a ser uma cidade inabalável, mas não é a mesma de há 12 anos. Porque há 12 anos eu fui ao topo de uma das torres gémeas do World Trade Center e vi as pessoas pequeninas lá em baixo como se estivesse num avião. Onde estão as torres?

Aquele buracão gigante transformou-se em ruído de obras a abafar o silêncio do luto. Existem fissuras no chão a comprovar a força do impacto de 11 de Setembro. Existem memoriais e flores. E existe o que me chocou: um centro de visitas onde se tem de pagar para ouvir marcas e testemunhos daquele dia.

O 11 de Setembro alterou hábitos um pouco por todo o mundo, mas sobretudo nos Estados Unidos. Foi difícil aceitar que as casas-de-banho não tivessem caixotes de lixo. Já o voo não transmitiu tanta segurança: quem disse que teríamos de nos manter sentados na última hora de voo? Quem vasculha decentemente as nossas malas antes de entrar num museu ou monumento? Aliás, num país onde qualquer um pode possuir uma arma de fogo, não deve ser fácil para o turista habituar-se a que os norte-americanos lançem avisos como “se tiverem alguma arma, por favor deixem-na com os nossos colegas que devolveremos no final da visita”.

O metro indica em letras bem visíveis como evacuar em caso de emergência e cartazes que dizem “if you see something, say something”.

Depois de aterrar em Nova Iorque, uma hora de fila num espaço sem portas nem janelas para quem ninguém possa fugir mostra-nos o poder dos Estados Unidos. A polícia na alfândega controla papéis, impressões digitais e tira fotografias.

O terrorismo tem uma explicação inválida para o Ocidente, mas é legítima e literalmente corporizado por quem o pratica. Conseguiram acertar em cheio no coração da Nova Iorque. Mas de alguma forma ela permaneceu intacta.

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